4/12/2017

Enfrentar o risco de morte a permanecer obediente | Edson Passetti







Edson Passetti




















Fala do anarquista e pesquisador do nu-sol «Edson Passetti» durante a entrega da Medalha Chico Mendes. OAB-RJ. 03 de abril de 2017

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A transgressão não pode ser conhecida. Quando ela é conhecida não passa de ajuste legal ou normativo. É preciso enfrentar o risco de morte a permanecer obediente. Estou, aqui, ao lado de vivos e mortos que marcam suas revoltas inscritas na presença de Chico Mendes. 


Por convenções, o professor e o pesquisador se fazem segundo princípios rígidos que governam suas condutas. Eles os dispõem em uma comunidade que reconhece seus escritos, vínculos e produção ajustados ao que se acordoucomo real e hegemônico.

Mas, ainda bem, esse núcleo sólido pode e deve ser perfurado, produzindo fissuras em ambos os lados. Para mim, o professor não se instala na instrução competente aos alunos, mas é quem faz do saber e da produção das verdades um feixe irradiador aos estudantesdos desconcertos capazes de atiçar querer saber, fazer, revolver e se revolver.


O pesquisador não está dissociado do professor. Ele deve recusar os benefícios de poder, e se instalar onde estão os dejetos humanos e suas maneiras de viver em uma sociedade que não os suporta. Estes insuportáveis, inclassificáveis (muitas vezes tidos como desclassificados) não dão sossego aos equacionamentos sócio-políticos e culturais supostamente pacificadores. Diferente do intelectual e suas profecias racionais-históricas, o pesquisador permanece dentro das lutas, não se contenta com a retórica democrática.


Interessam-me não só os jovens pauperizados tomados como objetos de investimento de governos que os determinam como infratores, delinquentes, perigosos. Mas, jovens que querem viver e que atiçam com suas atitudes o fogo da revolta. 

Recusam estar incluídos em programas e políticas revestidas de humanitarismos que pretendem pacificar suas existências tidas como desviantes, psicopatas, vândalas, carências das quais se serve a empresa, o sistema assistencial, educacional e penal como mote para suas perpetuações.


Onde há prisão, há o medo do povo. Por isso é inadmissível engolir o discurso bio-psico-social-cultural ressocializante do Estado, do seu sistema penal, de suas filantropias e dos humanistas juramentados em organizações ou sob o manto das ciências e do Estado. Não é possível consolidar uma juventude livre governada sob a ameaça da prisão, inaceitável aos humanos livres, e a direitos humanos que nenhuma declaração universal contempla. A prisão é uma tecnologia de governo que funde o legal aos ilegalismos consentidos e que está sempre aberta a aperfeiçoamentos das sujeições entre os súditos, tomados como cidadãos que cumprem deveres. Pelo menos, hoje em dia, e entre nós, poderíamos concluir que a prisão para jovens é inadmissível.

Nossa cultura com base no castigo e na punição é escandalosamente contra outros povos que devem ser subordinados ou simplesmente extintos. Ainda estamos sob o regime da naturalização do rei, da lei e de Deus. Mata-se e prende-se em nome da democracia vigente, daquelaa ser construída a partir de golpes, como vivemos no Brasil... mas não esqueçamos que a polícia é o cotidiano golpe de Estado sobre nós. Ela mata, recruta seus funcionários no exército de reserva de poder, entre os chamados desclassificáveis ou assujeitadosconformistas, incrementando a guerra entre os governados. O fluxo é contínuo e macabro: perpetuar a guerra entre os sujeitados. Porém, de tempos em tempos acontece a revolta.

Os anarquistas não lutam somente contra a propriedade e o Estado. Eles não lutam contra ideias e fazem acontecer sua força de liberdade a qualquer momento. Lutam, antes de tudo, contra a sociedade. Revolvem e abolem os costumes fundados no castigo, produzem suas relações livres em seus espaços ou como andarilhos. Sabem que todo prisioneiro é um preso político.


Os anarquistas reviraram esse país, no início do século passado, com seus costumes quanto à educação, cultura, liberdades pessoais sem as quais não há liberdade coletiva. Produziram a grande greve geral de 1917, foram perseguidos, presos e exilados. Pretenderam reduzi-los à pré-história do movimento operário no Brasil. Porém, os anarquistas lidaram e lidam com diferenças. Hoje, sabem e fazem anarquias de outro modo, planetário como sempre, contra os monitoramentos, o controle sobre inteligências no trabalho e nas ruas e avenidas, as fantasias pacificadoras, o abstrato contrato, a metamorfose do trabalhador em capital humanocomo exige a racionalidade neoliberal,as fragmentações das lutas sócio-econômicas em diretos de minorias e culturais, os regimes políticos, suas leis e os macabros ajustes normativos de condutas. São inimigos da prisão, da polícia, do militarismo, do tribunal, da propriedade seja ela qual for e do Estado, seja ele qual for. Os anarquistas são aos seus modos abolicionistas penais. A sociedade é feita de homens, mulheres, crianças e jovens pulsando, contagiando, e contaminando o ideal de saúde como peste benigna.


Por aqui, brevemente andei acompanhado de vários analistas que não requerem a nomeação de autorias individualizantes que lhes empoderam. Permaneçamos incógnitos entre os inclassificáveis, de vez em quando mostrando nossa face oculta. Agradeço a gente como Chico Mendes e aos que fazem de sua existência trágica e transgressiva um momento para aproximar diferenças entre os que não temem enfrentar o insuportável. Termino com dois versos de um poeta: “eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem/ apenas sei de harmonias bonitas possíveis sem juízo final”.
Saúde!...

edson passetti 
03/04/2017



Edson Passeti | Graduou-se em Ciências Sociais na PUC-SP, em 1974. Iniciou-se como professor e pesquisador na mesma instituição em 1976, concluindo o mestrado com a dissertação Política Nacional do Bem-Estar do Menor, abordando política, legislação e criança como política de segurança nacional, durante a ditadura militar no Brasil. Defendeu o doutorado O impasse liberal por Ludwig von Mises, situando neoliberalismo, conservadorismo e libertarismo no momento de esgotamento do socialismo autoritário e do welfare-state. Apresentou a tese de livre-docência Amizade. Foucault, Nietzsche, Stirner..., junto ao Depto. de Política da Faculdade de Ciências Sociais, problematizando anarquismos, amizade e estética da existência na contemporaneidade. É professor no Depto. de Política e no Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP. Orienta trabalhos de iniciação científica, mestrado e doutorado; supervisiona Pós-Doutorado. Foi Coordenador do Curso de Ciências Sociais e Diretor da Faculdade de Ciências Sociais; pertenceu às Comissões de Revisão e Avaliação Curriculares do Curso de Ciências Sociais; atualmente integra o Conselho Universitário da PUC-SP. Coordena o Nu-Sol, desde 1997. Atuou no coletivo que editou a revista libertárias, e atualmente vincula-se à revista autogestionária verve. Realizou diversos vídeos exibidos em universidades e eventos libertários. Publica livros, artigos e ensaios no país e no exterior; organiza coletâneas e colóquios universitários; escreve, em parceria, e coordena, semestralmente, aulas-teatro; realizou com integrantes do Nu-Sol três séries de antiprogramas para o Canal Universitário-TV PUC.


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O abaixo-assinado em favor de Edson Passetti continua no ar.Pedimos ampla divulgação para novas assinaturas: https://goo.gl/LrNiZt
Cartas, notas e moções de apoio: http://migre.me/vvbNz   


www.pucsp.br/ecopolitica
www.nu-sol.org









4/07/2017

Dalcídio Jurandir pode ganhar reedição



Reedição de Ponte do Galo



A Editora Pará.grafo, de Bragança, lançou hoje, 07 de abril, a campanha de financiamento coletivo para a reedição do livro "Ponte do Galo" do nosso maior  romancista Dalcídio Jurandir. A boa notícia é que você pode ajudar a trazer este livro importantíssimo para nossa literatura de volta às livrarias e ao mesmo tempo à sua estante, pois adquirindo uma das recompensas descritas no projeto, você recebe o livro e outros itens (podendo ainda ter seu nome nessa edição histórica), além de contribuir diretamente para a cultura paraense e amazônica.



O romance "Ponte do Galo", do escritor paraense Dalcídio Jurandir foi lançado em 1971 e nunca mais reeditado. Sétimo livro do chamado Ciclo do Extremo-Norte (conjunto de dez livros do autor que contam a saga de Alfredo, um menino de Cachoeira do Arari, no Marajó, que sonha em conhecer a cidade grande - Belém - e terminar seus estudos), o livro se tornou raro nas livrarias e mesmo nos sebos, onde não se encontra mais nenhum exemplar da primeira edição.

Dalcídio Jurandir nasceu em Ponta de Pedras, Marajó, em 1909 e faleceu em 1979. Escreveu 11 (onze) romances - recebeu com eles o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra, em 1972 -, foi cronista dos principais jornais paraenses e brasileiros de sua época, e recebeu uma edição de suas poesias recentemente, organizada pelo professor e escritor Paulo Nunes, que inclusive assina o prefácio da nova edição de Ponte do Galo.

O livro será ilustrado pela artista plástica e escritora paraense Paloma Franca Amorim e tem como capa uma fotografia do premiado Eliseu Pereira, jovem fotógrafo marajoara que já expôs suas obras no Museu do Louvre.

Para saber mais detalhes sobre o projeto e colaborar com a iniciativa, basta acessar o site e apoiar:






4/04/2017

CRIAÇÃO LITERÁRIA | Nilson Oliveira






LABORATÓRIO DE CRIAÇÃO LITERÁRIA

A partir do dia 17 de abril | Inscrições: fcp@gmail.com

CASA DAS ARTES | Belém (PA)
Tel. 91 4006-2900 | das 8h às 18h
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Módulo 1 | A ideia da Escrita | 17 a 24/04
Módulo 2 | Viver Juntos | 22 a 26/05
Módulo 3 | O livro porvir | 05 a 09/06
Horários das 16 às 19h

Org. Nilson Oliveira.

«Laboratório de Criação Literária»

● A experiência

Em que consiste uma experiência de criação literária? LER, OUVIR, VIVER A INTENSIDADE DO TEXTO LITERÁRIO. Espreitar a superfície lisa do imperceptível. Povoar o branco, semear afetos. Perceber as cintilações da prosa e a ideia da poesia, e vice versa. Exumar silêncios, noites. Ver, experimentar, criar situações possíveis para a escrita que vem.
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● A dinâmica

O Laboratório terá três módulos, entre abril e Junho, com 5 encontros por módulo, 03 horas para cada encontro. Entre os módulos 1 e 2 haverá um tempo intermediário destinado a receber e analisar a produção dos participantes: 07 dias, 03 horas por dia.

O terceiro módulo compreende a edição dos cadernos produzido pelos participantes. A composição dos cadernos será realizada durante o módulo. A impressão (o trabalho gráfico) fica sob reponsabilidade da Casa da Linguagem, em convergência com as possibilidades.
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● Os módulos

I. A IDEIA DA ESCRITA: pensar a ideia da escrita (escrever)– seus mecanismos e processos – a partir do livro ESCREVER, de Marguerite Duras. | 17 a 21 de abril de 2017.

II. VIVER JUNTOS: exercício de crítica e criação: ciclo de
leituras, conversações, análise dos textos criados pelos
participantes durante o processo da oficina. | 22 a 26 de maio.

III. O LIVRO PORVIR: composição, elaboração, edição (passo a passo) do livro gestado, a partir dos textos dos envolvidos, no processo da oficina. | 05 a 09 de junho
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● OFICINA DE CRIAÇÃO LITERÁRIA

A escrita torna-nos selvagens. Regressamos a uma selvajaria de antes da vida. E reconhecemo-la sempre, é a das florestas, tão velha como o tempo. Não podemos escrever sem a força do corpo. É preciso sermos mais fortes que nós para abordar a escrita, é preciso ser-se mais forte do que aquilo que se escreve. É uma coisa estranha, sim. Não é apenas a escrita, o escrito, são os gritos dos animais da noite, os de todos, os vossos e os meus, os dos cães. (Marguerite Duras)
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I. A IDEIA DA ESCRITA
A escrita em Marguerite Duras
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# O módulo é baseado no livro Escrever (1993) de Marguerite Duras (1914 – 1996). Consiste em, através da leitura do livro, pensar sobre a ideia da Escrita em Duras, com atenção ao seu processo de criação, analisando situações, modos, forma. A partir de um mergulho nesse universo do escritural, meditar sobre como é possível escrever hoje.

# O módulo encerra com a sugestão, a partir da experiência do curso, de um exercício escritural (para todos os participantes). Os textos serão a base do segundo módulo.
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II. VIVER JUNTOS
Exercício de crítica e criação
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Um módulo centrado na produção da própria oficina, a partir dos textos desenvolvidos pelos participantes. Os textos serão lidos, examinados e avaliados durante os encontros.
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III. O LIVRO PORVIR
A ideia do livro
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# O módulo acontecerá em dois momentos: teórico e pratico.

# Teórico: explanação sobre a ideia do livro em Blanchot e
Mallarmé, objetivando pensar o sentido do livro, o livro
literário, o livro porvir.

# Prático: trata-se de uma experiência de edição coletiva que atravessa todos os processos de composição e edição, a partir dos textos dos participantes, fazendo da montagem do livro uma experiência de pensar juntos.


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Nilson Oliveira (Belém-PA). Escritor e editor da revista Polichinello. Autor dos livros: “A Outra Morte de Haroldo Maranhão” (Premio IAP de Literatura de 2006); “Apenas Blanchot” (Pazulin, 2009); “A Literatura e os Possíveis da Escrita Literária” (Lumme, 2010); “Nietzsche/Deleuze: Natureza/Cultura” (Lumme, 2011)