3/08/2017

A LUTA DAS MULHERES : URSULA VIDAL | SAMMLIZ | CLAUDIA LEÃO | MARLY SILVA










 A LUTA DAS MULHERES NO COTIDIANO E NA HISTÓRIA


d e b a t e  c o m

URSULA VIDAL  | SAMMLIZ  | CLAUDIA LEÃO | MARLY SILVA

                  

O projeto Confronto de Ideias convida para uma “ roda-viva” com a jornalista Ursula Vidal, em memória ao Dia Internacional da Mulher, comemorado há mais de um século no dia 8 de março. O bate-papo sem censura , na linha “Sexo,drogas e rock&roll” abordará temas polêmicos, controversos e delicados sobre a condição feminina numa sociedade machista e  profundamente marcada por  desigualdades sociais . Participarão do debate a artista visual e professora Claudia Leão, a cantora e produtora musical Sammliz , a socióloga, professora e ativista política , Marly Silva.

 

O encontro será no dia 9 de março ( quinta-feira ) às 16:00 horas, no Jardim de Verão do Vadião.

 

 

Ursula Vidal tem longa carreira no campo jornalístico: foi apresentadora da TV Cultura em Belém, locutora de reportagens do programa Fantástico, foi Editora Regional do telejornal do SBT Pará; idealizou, dirigiu e apresentou o programa de entrevistas “Etc & Tal”, um dos maiores sucessos da programação local da TV paraense. Tem atuado como documentarista com dois trabalhos autorais já bem conhecidos: “Marias e Josés de Nazaré” e “Catadores de sonhos “ (o primeiro sobre religiosidade católica e o segundo sobre a luta dos catadores pela sobrevivência no lixão do Aurá, que foi até pouco tempo o segundo maior lixão público do Brasil). Nas últimas eleições municipais Ursula aceitou o desafio que lhe foi colocado pela Rede Sustentabilidade de disputar o cargo de prefeita de Belém. E não é que a “pequena”  saiu-se muito bem? Ela conquistou com seu micro-espaço no horário político-eleitoral, mas uma criativa campanha nas redes sociais, nada menos que 79.968 votos. E ela não quer parar por aí!

Claudia Leão, é artista visual e professora no curso de Artes Visuais da UFPA. Suas pesquisas giram em torno de temáticas e métodos inovadores e experimentais como: vínculos afetivos, ontogênese da imagem, esquecimento, saudade e a paisagem como ambiente de entrelaçamento na Amazônia . Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP , coordena o grupo de pesquisa Lab-AMPE-Laboratório transdisciplinar entre experimentações, corpo, ambiente, amor, arte & política na Amazônia e colabora  com projetos culturais independentes .Claudia ficou conhecida no meio artístico-cultural nos anos 1990, como fotografa integrante do Coletivo  Caixa de Pandora que trouxe para Belém a  fotografia construída, uma marca forte do seu trabalho.

 

Sammliz,  cantora , compositora , produtora musical ,radialista , locutora , atuante em diversos projetos musicais desde os anos 90.Entre esses projetos , o mais conhecido foi a banda Madame Satan ,uma das mais influentes bandas paraenses a ganhar projeção , dentro e fora do Pará , circulando em muitos dos principais festivais nacionais , em programas de veiculação nacional, conquistando alguns prêmios por trabalhos lançados ,como London Burning e Dynamite. Sammliz lançou recentemente seu primeiro disco solo, MAMBA , um lançamento Natura Musical , com produção assinada pela própria artista , Leo Chermont e João Lemos, ,com direção artística de Carlos Eduardo Miranda. O disco constou em diversas listas entre os melhores discos nacionais de 2016 , teve lançamento em Belém , Belo Horizonte e São Paulo, e segue em tour em 2017 , com lançamentos de mais dois clipes no primeiro semestre e um novo single.

 

Marly Silva, socióloga de formação, escreveu recentemente a tese “ Marco da légua: a topografia da (in) indiferença e as metamorfoses urbanísticas em um bairro interclassista em Belém “ o que lhe conferiu o título de doutora em Ciências Sociais pela PUC/ SP. Fez uma rica trajetória  nos movimentos sociais ao longo de mais de duas décadas. . Ainda como estudante universitária na segunda metade da década de 1970, participou da fundação da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos-SPDDH, atuando no seu Comitê de Anistia por vários anos. Participou das lutas estudantis no âmbito de diretórios acadêmicos e na condição de presidente do DCE da UFPA; como representante local da Associação Nacional de Estudantes da Pós-Graduação, liderou nos anos 1980, no NAEA, um movimento pela mudança conceitual do projeto político-pedagógico do curso de mestrado que não mais satisfazia às expectativas do alunado. Liderou o Movimento em Defesa da Vida–MDV, de solidariedade à luta dos ribeirinhos ameaçados de expropriação  da área atingida pela construção da hidrelétrica de Tucuruí e de resistência à construção de grandes barragens . No inicio da década de 1990, já como professora concursada da UFPA, idealizou e realizou o primeiro projeto integrado de pesquisa-ação & extensão universitária no âmbito do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas -IFCH, numa parceria muito bem sucedida entre UFPA, Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Gurupá e a  WWF . Atualmente dedica-se ao ensino e pesquisa no campo da sociologia da cidade , prepara um curso de Especialização para qualificar profissionais na área, e dirige o Coletivo  Movimento 25Compésno Chão/Caminhadas no Marco da Légua, criado no ano de 2015 com vistas a mobilizar a vizinhança de seu bairro a lutar contra a desigualdade de investimentos públicos em infraestruturas urbanísticas , de mobilidade urbana  e contra a destruição das áreas verdes  . É idealizadora e dirigente do projeto de extensão universitária Confronto de Idéias desde 2007 .


No encerramento do encontro haverá uma surpresa lúdico-artística

  APOIO: Faculdade de Ciências Sociais  & ADUFPA


2/15/2017

Entrevista | RAÚL ANTELO












Raúl Antelo & Davi Pessoa |  Foto: Delano Pessoa












E X I G Ê N C I A:


formar novamente a vida


 


● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●  ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●


 


e n t r e v i s t a  c o m


R A Ú L  A N T E L O


p o r  d a v i  p e s s o a





 


15/02/2017













«comecei, não se esqueça, costurando retalhos do artista como saltimbanco»









Davi Pessoa: Em 1982, você ministrou seu primeiro curso na Pós-Graduação em Literatura, na UFSC, sobre Lima Barreto e João do Rio. Havia ali um confronto entre cárcere e viagem como proposição de leitura da modernidade, na qual a batalha travada buscava apagar todo vestígio de destruição. Quais seriam os desdobramentos atuais de tal confronto?


 


Raúl Antelo: "Il faudrait soustraire de votre question toute implication psychologique, qui serait déplacée", diz Giorgio Agamben, logo no início da conversa que manteve, recentemente, com o historiador Patrick Boucheron. Mas vou me permitir adotar posição contrária e dizer que é preciso incluir, nas próprias escolhas, as implicações, não diria psicológicas, porque isso soa muito século XIX, e sim psicanalíticas, bem mais segunda metade do século XX, minha época, meu tempo. Sou minhas escolhas, mas elas não podem desdenhar meu desejo, a lei, os outros e como eu me posiciono diante desse acúmulo de fatores. Esse curso de 1982, o primeiro na UFSC, foi "a pedido". Na verdade, toda nossa carreira funciona assim. Ou, ao menos, assim eu sinto. Me pedem para pensar x e concentro minhas atenções em x. Pedem-me y? Só tenho cabeça para y. O programa de Literatura na UFSC tinha uma disciplina obrigatória, que me atribuíram, que era curiosa: "Pré-modernismo". Era obrigatório pensar a soleira da modernidade. Não o modernismo propriamente dito, que ficava, assim, dominante e sublimado, mesmo que distante. Seria algo equivalente a, na Filosofia, estudar os pré-socráticos sem ler Platão. Aceitei, ainda assim, o desafio, mesmo porque, o doutoramento, pouco antes, tinha consistido em encontrar o núcleo vazio do modernismo, o pacto estatal, o populismo frustrado, porque ainda hierárquico e autoritário, com que se redesenhara a República. Ao confrontar Lima Barreto e João do Rio, punha lado a lado dois tipos de marginalidades. Lima sabe que seu tupi or not tupi é hospício ou academia: duas formas da ausência de saída, vitória da instituição em detrimento do instinto, da força. Uma Babel que leva o escritor ao silêncio, ao poço, cemitério dos vivos. Paulo Barreto, por sua vez, deslumbra-se com a velocidade e a encenação, mas constata, a seguir, que tudo não passa de semblante. Como toda literatura é auto-biográfica, eu mesmo estava começando a elaborar minha peculiar posição enunciativa: marginal, porém nunca irrelevante ou descuidada. O desafio era repensar as bordas, porque tudo consiste em desenhar bordas, abordar os problemas da falta de fronteiras inequívocas em nosso métier. Se você analisa em perspectiva, aquilo que Silviano Santiago estava fazendo à época (Em Liberdade) se pautava pela mesma ambivalência. Em 1982, ainda não conhecia Silviano pessoalmente, só de leitura. Mas veja que o recente Machado (2016) é só o arremate dessa obsessão compartilhada, absolutamente incomum. Os M. de A dele são os meus dois Barretos, isto é, a compreensão de que a identidade é diferença.






Lima Barreto





No livro "Transgressão & Modernidade", há uma ação de transgressão da operatividade do discurso crítico e da certeza das categorias positivas, e ainda: tal prática "da transgressão, paralela ao trabalho da psicanálise, da antropologia e da linguística, não se restringe a uma dialética da colonização". Poderíamos acrescentar ainda a tal prática outros rastros convergentes com a filosofia, com a crítica de arte etc. A reflexão nos cursos de Literatura ainda é muito ensimesmada na própria Literatura? Se sim, por qual motivo? E quais as consequências disso?


 


Se partirmos da hipótese de que a sociedade se organiza, materialmente, a partir da linguagem, logo constatamos, porém, que a linguagem é construída de tal sorte que, muito embora configure, de fato, uma realidade, já que não há nenhuma realidade pré-discursiva, essa linguagem, ela mesma, não nomeia a totalidade do real. Adorno: "o todo é o não-verdadeiro". Mas aí aprendemos com Lacan que essa parte não elaborada simbolicamente pela linguagem chama-se “real”. O real nada mais é do que um furo, uma lacuna, na realidade, que só pode ser contornado por um limite, limite esse que só admite um nome incompleto e inconsistente, precário e provisório, porque do que se trata não é de resolver uma contradição lógica, mas de posicionar-se através de um antagonismo estratégico. Daí que esse furo ou lacuna seja a hegemonia, o que uma determinada instituição, a literatura no nosso caso, entende e legisla como próprio e indeclinável. Mas também aquilo que ela deixa fora de sua cogitação, porque pensar esse furo equivaleria a perder seu poder, se liquefazer. Quando estudante (não necessariamente nas instituições), o desafio consistia, já nos anos 60, em elaborar uma teoria do literário preocupada por gerar sentidos a partir de que a linguagem é uma estrutura incompleta para representar o todo da realidade. Essa falta não era, e a meu ver, continua não sendo avaliada como uma anomalia selvagem de uma política incipiente ou imatura, e muito menos como um conjunto de técnicas retóricas, espertas e demagógicas, mas antes como uma disseminação de antagonismos, porque a própria estrutura da linguagem não admite fechar-se numa totalidade. Acontece que a sociedade em que vivemos logo se farta e se satisfaz com suas próprias construções e nem sempre está disposta a reconhecer que suas brechas ou falhas, sua compreensão meramente formal ou ideal das questões geram infinitos antagonismos irredutíveis, que só conseguem ser abordados através de uma lógica de articulação hegemônica que dê nome a essas lacunas de sentido. O conceito de transgressão, então, vira um conceito a mais, na oficina simbólica contemporânea, só quando não vemos (não podemos, não queremos ver) que transgressão, heterogeneidade ou diferença, são todos conceitos tributários do furo do "real". Pelo contrário, no inconformismo que significa partir dessa lacuna, desse impossível, somos forçados a admitir que assim se esboça uma lógica emancipatória de novo tipo, inacabada, aberta e iterativa. Sem prazo de caducidade, mas também sem garantia de sucesso. Por isso, mais do que a constatação conservadora de um "de novo", que nos impede a ação, ao nos imobilizar na certeza do retorno do conhecido, creio melhor ensaiar o bis, o encore, do da capo. Baralhar e dar de novo, porque nada adquire nunca o estatuto de definitivo.


 


Há um aforismo de Murilo Mendes que diz: "A leitura deve nos ler, tanto quanto ser lida". Todos sabem de seu esforço contínuo ao propor sempre uma nova reflexão em cada novo curso de pós-graduação. Como tais leituras em contínuo desdobramento lêem o crítico Raúl Antelo?


 


Como um fluxo. Como o luxo do fluxo. A presunção do arquivo. A arte combinatória contrária ao tédio. Como o double état de la parole. Como o mutismo do mímico ou a trapaça de Arlequim (comecei, não se esqueça, costurando retalhos do artista como saltimbanco). Como expansões em que a gente volta, infatigavelmente, a se fechar no aberto que nós mesmos criamos.







Murilo Mendes

 




Em “Crítica acéfala”, há uma nota de abertura que me lembra um aforismo de Samuel Rawet: “A ideia de infinito é a ideia de abertura apenas, e não de sem-fim”.  Na nota lemos uma proposição muito singular, que põe o crítico num interstício entre ficção e teoria, e nesse lugar o crítico jamais se encontra desinteressado; ele confronta o local a partir de exílios e vice-versa, isto é, a literatura também pode ser um modo de ler relações geopolíticas. Como você lê hoje a crítica literária e a literatura produzida no Brasil?  


 


É um lugar comum dizer que a crítica entrou em decadência, não só aqui, mas em todo o mundo, e que apenas sobrevive cindida, entre a reação à extinção dos paradigmas de distinção dominantes e a cínica adesão ou mesmo a militância deslumbrada pelo tempo em simultâneo da cultura de massas, tão idealizada quanto desprovida, em sua leitura, de tensões efetivas no seu interior. Essa ilusória adoção do tempo zero, com que se estilhaçam categorias tais como mundo, nação ou metrópole, alarga, na verdade, a nada irrelevante divisão social herdada, fragmenta ainda mais os sentidos e assinala o declínio irreversível do espaço público. Diante de tal quadro, que conhecemos à saciedade, como prosseguir senão através de uma sutil combinação de negatividade e distância, niilismo e diferença? A questão do anacronismo, denunciada como disparate pela autonomia modernista, torna-se assim um campo propício para não se consolar conservadoramente num time out of joint e, pelo contrário, questionar-se acerca de quantos tempos, efetivamente, convivem em um tempo. Trata-se de dar uma nova versão da história, não mais evolutiva ou com final fechado, porém, aberta em sua disposição ao fluxo temporal carregado de emoções contraditórias. Outro tanto acontece com a ficção. Analisá-la exclusivamente a partir do realismo é um fraco favor. Boris Groys observa, em In the Flow, que o conceito de realismo tem, ao menos, dois sentidos atualmente, um deles, o da arte mimética, naturalista, captada por um olhar “natural”, espontâneo e despojado tecnologicamente. Nesse sentido, olhar através do microscópio ou do telescópio não seria realista. Também não é realista a arte que inclui imagens ou especulações religiosas ou filosóficas, e até mesmo as imagens criadas tecnologicamente. Nada disso seria realismo. Ou seja, que o realismo mimético, representacional, torna visível aquilo que permaneceria invisível caso não fosse representado artisticamente. Mas realista significa também que, ao usá-los pragmaticamente, não vemos os objetos na sua essência específica. Só vemos as coisas quando deixamos de usá-las e as contemplamos, distanciadamente. Con-templar, cum templum, cum tempus. A arte nos mostra então o próprio uso que fazemos dos objetos e, assim fazendo, enuncia a verdade sobre nossa forma de ser no mundo. O exemplo típico, os tamancos de Van Gogh, que não são um objeto desfigurado ou destruído, à maneira cubista, nem desfuncionalizado, como o ready-made de Duchamp. Esse objeto largado, tão próprio quanto alheio, torna visível nosso próprio uso das coisas, porém, essa lição de coisas é sempre momentânea e fugaz, como a anedota de Guimarães Rosa. Cumprida sua função, cessa sua finalidade. E isto que acontece com os objetos e a estética, também pode ser predicado da democracia representativa. Feita a escolha, deixa de haver democracia e confundir a democracia com um instante fulgurante, porém passageiro, não passa de uma compreensão excessivamente formalista, avessa à argumentação, quando não simplesmente autista. Nessa segunda vertente, a obra de arte revela a verdade das coisas não ao representá-las, mas ao acompanhar seu destino. Ao compreendermos que, se nessas coisas movimento há, ele nunca é retilíneo, porém, cicloidal, espiralado, vorticoso, talvez estejamos em melhores condições para derrubarmos os muros entre o literário e não-literário. E então surge um suplemento hiper-, que sai, não se identifica mais com o simples moderno e pula para a arché, essa origem que pode constituir um novo começo, para baralhar e dar de novo. Revisar, repassar esse passado nos fornece em suma uma saída estratégica à clausura autista no mesmo, consolidada, no campo da crítica brasileira, por uma sólida ideologia formalista, a autêntica tradição afortunada, ela própria inspirada pelos textos de Clement Greenberg, por exemplo, por sua discriminação entre vanguarda e kitsch, valores encampados também pela tradição concreta, e que se naturaliza, sem maior luta nem luto, na formulação do cânone, nas coleções museográficas e na historiografia literária, em especial, nos planos de ensino universitário. Por isso é difícil dizer se o modernismo triunfou ou fracassou. As obras de ruptura estão nos museus. É fato. Institucionalizaram-se. Celebramos o centenário de Anita Malfatti. Porém, ninguém acredita que a sociedade contemporânea tenha algum futuro, algum avant. O caos em que vivemos nada deve invejar ao dadaísmo mais ensandecido. O modernismo triunfou, disseminando-se, o que configura, ao mesmo tempo, a mais completa derrota da sensibilidade. A chibata agora espalha-se na embriaguez do tráfico. "La verdad no es una razón, es una pasión" (José Bergamín).


 


No livro recém publicado Archifilologías latinoamericanas: lecturas tras el agotamiento, a reflexão do objeto de estudo da “arquifilologia” não a toma como representação de algo, mas como gesto que se opera sobre uma mesa de montagem. Agamben, em “O autor como gesto”, retomando uma série de questões a partir de Foucault e Beckett, ressalta que “o gesto continua inexpresso em cada ato de expressão”, e que o “autor está presente no texto apenas em um gesto, que possibilita a expressão na mesma medida em que nela instala um vazio central”. Pasolini, por outro lado, afirma que “não nos exprimiríamos se fôssemos imortais”, por isso a montagem, para ele, traz uma relação especial com a morte. Como você vê hoje tão procedimento em operação nas artes, na literatura, na crítica? Ainda se mostra singular, ou caiu numa espécie de impotência por falta de uma reflexão mais aprofundada sobre cada uma das partes que compõem o procedimento?






Torres-Garcia em seu Ateliê | 1946



 


Um procedimento torna-se impotente quando não é capaz de desatar os nós que disciplinam a violência social. Em 1959, a Revolução Cubana conclui um longo processo colonial, com frequentes concessões e troca-trocas inter-imperialistas. Em meados da década de 70, a Operação Condor torna a pensar marcos supra-nacionais para restaurar aquilo que tinha saído dos eixos a partir de 1959. Nesse mesmo ano, Afrânio Coutinho, intelectual católico, com formação nas trilhas do new criticism americano, ao editar a obra de Jorge de Lima, desdenha um dos ensaios modernistas mais interessantes do ponto de vista estético, "Proust", e retira-o do plano das suas Obras Completas. Nesse mesmo ano, Murilo Mendes reúne sua obra poética, expurgada, porém, de sua História do Brasil (1932), seu livro mais dadaísta. Quando entrevistado, nesse mesmo ano 1959, Murilo não hesita em descrever seu método compositivo como uma prática pautada pela lógica do dispars, isto é, a aproximação de elementos contrários e a aliança dos extremos, razão pela qual concebia o poema como um agente capaz de manifestar dialeticamente essa conciliação, produzindo choques pelo contato da idéia e do objeto díspares, do raro e do quotidiano. O que concluir dessa série de dados esparsos? Não há, a meu ver, nenhuma diferença entre o método poético e o conhecimento. Portanto, ler criticamente uma literatura também é produzir choques pelo contato da idéia com o objeto díspar. Daí que exercer a crítica signifique potencializar o tempo, arrancando-o da simples sucessão, para torná-lo um acontecimento.


 


Você, no último semestre de 2016, deu seu último curso de pós-graduação em Literatura da UFSC, intitulado “O que é arquifilologia?”. E é muito interessante como seu último curso na pós traz uma pergunta, evidenciando aquela espécie de salto dialético proposto por autores como Benjamin e Blanchot. Como poderíamos ler tal questão?


 


Georges Didi-Huberman















No mês passado, Giorgio Agamben teve seu pensamento analisado por vários autores vindos até de múltiplas áreas, em um número monográfico da revista Critique (fundada por seu arqui-inimigo, Georges Bataille, cujo conceito de dispêndio foi severamente criticado por ele em função de seu caráter pouco político). Georges Didi-Huberman, em que pese à admiração, sempre mostrou, desde o livro dos vaga-lumes, seu distanciamento com relação às alternativas práticas de Agamben, sublinha que tanto a arqueologia  quanto a filologia agambenianas se inserem num projeto cuja radicalidade descansa na recusa do tratamento dialético. Até aí esses dois conceitos, filologia e arché, presentes na minha fórmula arquifilológica caminham pari passu com o percurso do filósofo italiano. Porém, Didi-Huberman critica-o por, assim fazendo, privilegiar antinomias violentas, absolutamente desesperançadas salvo para o asceta que as formula, que delas extrai, imaginariamente, potência crítica. Vale dizer que o argumento seria o de uma certa posição olímpica na "potência de não", usada por Agamben em suas leituras. Ora, não creio compartilhar esse ascetismo, mesmo porque a minha arquifilologia restitui mais do que redime. Houve, no ano passado, uma retrospectiva Torres Garcia no MoMA. Propunha ver o artista que mudou as cartografias como um modernista arcádico, tomando a Arcádia como a arché da conciliação originária. Porém, nos cursos que Torres desenvolve em 1948, pouco antes de ele morrer (e eu nascer), o artista uruguaio faz uma dura crítica aos fracassos da vanguarda meramente formalista (arcádica?) e diz que esse monstro (sic) é gerado pela cobiça capitalista que gera uma máquina (sic) civilizatória. Como responder a essa conjunção de fatores? Surpreendente e precocemente, Torres enuncia o célebre I would prefer not to de Bartleby, saída arbitrada anos mais tarde por Maurice Blanchot, em A escrita do desastre (1980), por Derrida, em Dar (a) morte (1992), por Gilles Deleuze, em Crítica e clínica (1993), que o avalia como fórmula extrema do nada, da qual deriva toda criação e, finalmente, por Agamben ou Nancy que, pelo contrário, identificam-no com a potência pura e absoluta. No ponto em que Deleuze situava a fórmula, num entre-lugar de afirmação e negação, Agamben e Nancy sublinham, pelo contrário, a negatividade inoperante, algo de que o velho Torres García era, aliás, muito consciente, porque a arte construtiva, já em 1948, não podia mais ser considerada pintura, e nem mesmo talvez podia ser chamada de arte. Ao menos, Torres preferiria não o fazer. E os poemas que ele escreve nesses anos (Divertimento, 1944), mais do que epigonais retomados da vanguarda criacionista, podem ser lidos como antecipações da desconstrução metafísica de gênero, classe, nação ou mundo, fórmulas decriativas que antecipam as eras imaginárias de Lezama Lima, o niilismo de Onetti, ou os disparates de Aira, Levrero, Lísias ou Stigger. A arquifilologia é uma possibilidade, não uma panaceia. Não se volta para atrás (pecado órfico), mas olha-se decididamente para a frente. Busca-se assim ampliar o repertório. Justamente no terceiro volume de Repertoire, que vinha a luz quando eu entrava na Universidade, Michel Butor diz algo muito em sintonia com nosso diagnóstico: "ce que nous cherchons dans l’archéologie, ce n’est pas tant notre passé que notre avenir, car ce qui fait naître une telle vocation c’est le fait que des oeuvres anciennes nous apparaissent comme des modèles précieux, riches d’un enseignement actuel ; et il ne s’agit naturellement pas d’oeuvres isolées, la plupart du temps, mais de façons de vivre qui, par rapport à notre façon de vivre présente, ouvrent de nouvelles possibilités". Isto é : "Façons de vivre". No ensaio que eu relembrava há pouco, Didi-Huberman cita, em espanhol, um conceito de Bergamín, o mestre de Agamben, "formas de ser". Disso se trata. Formar novamente a vida.


 


 









 


Raúl Antelo é professor titular de literatura brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina. Pesquisador 1-A do CNPq, foi Guggenheim Fellow e professor visitante nas Universidades de Yale, Duke, Texas at Austin, Autónoma de Barcelona, Maryland e Leiden, na Holanda. Presidiu a Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC) e recebeu o doutorado honoris causa pela Universidad Nacional de Cuyo. É autor de vários livros, dentre os mais recentes, Crítica acéfala; Ausências; Maria com Marcel. Duchamp nos trópicos; Alfred Métraux: antropofagia y cultura; Imágenes de América; Archifilologías latinoamericanas e A ruinologia. Colaborou em várias obras coletivas, tais como Literary Cultures of Latin America. A Comparative History; Arte e política no Brasil: modernidades; Comunidades sem fim e Imágenes y realismos en América Latina. Editou A alma encantadora das ruasde João do Rio; Ronda das Américas de Jorge Amado (traduzido ao italiano); Antonio Candido y los estudios latinoamericanos, bem como a Obra Completa de Oliverio Girondo.


 


 




 


Davi Pessoa é professor de literatura italiana na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). É autor de Terceira Margem: Testemunha, Tradução (Editora da Casa, 2008). Atua também como tradutor de literatura e filosofia italiana. Traduziu A razão dos outros e Ou de um ou de nenhum (Lumme Editor, 2009), de Luigi Pirandello, Georges Bataille: filósofo (Edufsc, 2010), de Franco Rella e Susanna Mati, Desgostos (Edufsc, 2010)  e Ligação Direta (Edufsc, 2011), ambos de Mario Perniola, e os livros Nudez, O tempo que resta e Meios sem fim (Autêntica), de Giorgio Agamben, entre outros. Foi curador da mostra “Dante: poeta de toda a vida”, ocorrida em 2016 na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, em comemoração aos 750 anos de nascimento de Dante Alighieri, e está organizando, ao lado de Manoel Ricardo de Lima, o seminário Pasolini: inativações, intermitências, que ocorrerá no Museu Mar, em abril de 2017.


 








1/27/2017

Resposta ao Ministro Luís Roberto Barroso







CARTA ABERTA EM RESPOSTA AO MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO

por Davi Pessoa

RJ | 26 de janeiro de 2017

__________________________________________________________________________________




A UERJ não se tornará Torre de Marfim

Hannah Arendt destaca no ensaio "A crise na educação" o quanto é tentador considerar a crise na educação como um fenômeno local e sem conexão com as questões principais do século XX. No entanto, como sabemos, a crise na educação é um problema político, ou melhor, é a forma de política mercantilista-tecnicista que se estende por muitos países do mundo que deflagra a crise na educação. Arendt diz, num determinado momento, que "há sempre a tentação de crer que estamos tratando de problemas específicos confinados a fronteiras históricas e nacionais, importantes somente para os imediatamente afetados". Crença tão falsa quanto necessária para os que se alimentam com seus mecanismos fraudulentos produtores de crises educacionais. No Brasil, por exemplo: desvio de recursos de merenda escolar; livros comprados super faturados e jogados em aterros; escolas construídas que se tornam ruínas, e por aí vai.

E como nossa crise vem sempre a reboque de outros modelos que se propuseram ideais e que entraram em crise há pelo menos mais de uma década, certos propagandistas desse sistema nefasto defendem certas políticas para a salvação da educação como se fossem novidades benéficas, visto que o Estado, que deveria oferecer educação pública de qualidade a todos, vira as costas à educação e lucra muita grana com a crise que ele mesmo deflagra. Assim, surgem os defensores dos modelos de financiamento privado para Universidades públicas, como é o caso do Ministro Luís Roberto Barroso. A quais interesses responde sua defesa?

Barroso deve ter assistido ao documentário "Torre de Marfim", de Andrew Rossi, o qual trata da mercantilização do ensino superior nos EUA, cujas consequências são catastróficas, visto que essa mercantilização produz um processo de endividamento colossal por parte de estudantes que não conseguem pagar o crédito estudantil. E tal processo tem gerado uma profunda crise educacional e econômica no país (obviamente, não para os "homens de bem" que defendem e investem nas bolsas de valor da mercantilização do ensino "público"). E sabemos: a maior parte dos cursos de graduação dos EUA é de péssima qualidade.

A UERJ, portanto, caro Barroso - leia-se UERJ: professores, estudantes e funcionários -, não entra nessa lógica perversa, pois nosso objetivo - e este deveria ser também o seu, já que se diz professor titular da UERJ, desde 1995, inclusive tendo feito seu doutorado na instituição - é desfazer tal lógica de desmantelo da educação e de desejos de tantas pessoas. Nesse sentido, a luta que travamos agora é contra essa mesma Torre de Marfim que querem erguer não apenas no Rio, não apenas no Brasil, mas em vários lugares do mundo.

O senhor deve lembrar-se desse belíssimo texto da Arendt, deve lembrar-se de suas intervenções públicas em prol dos direitos humanos, sim? Pois bem, caso não se lembre, leia com atenção a reflexão dessa grande pensadora: "A função da escola é ensinar às crianças como o mundo é, e não instruí-las na arte de viver. Dado que o mundo é velho, sempre mais que elas mesmas, a aprendizagem volta-se inevitavelmente para o passado, não importa o quanto a vida seja transcorrida no presente."

E ainda: "A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda dos novos e dos jovens."

Bonito, não é? Recomendo-lhe a leitura de todo o texto.

Portanto, caro Barroso, nós - professores, alunos e funcionários da UERJ - não iremos nos abandonar, não iremos abandonar a UERJ, pois vir ao mundo, seja ele novo, velho, ou provisório, já é o maior dos abandonos. E estamos muito unidos diante de tal abandono.









































1/19/2017

A POESIA DE CELSO DE ALENCAR





«PEQUENOS AFETOS DA LITERATURA»


(Sobre a poesia de Celso de Alencar)


Celso de Alencar   | Foto: Mariza Alencar



O ensaísta RogérioTancredo atravessando as margens intensivas da poesia de Celso de Alencar. Densidades de um fortuito encontro: pequenos afetos da literatura. Vale conferir:














11/30/2016

L A N Ç A M E N T O: «Além-do-homem e idealidade estética»




l a n ç a m e n t o
Dia 02 dezembro 19h - Iphan | 
Av. Gov. José Malcher 474 | Belém

«Em além-do-homem e idealidade estética, Roberto Barros reúne e integra diferentes perspectivas que orientam sua ocupação hermenêutica com a filosofia de Friedrich Nietzsche, ao longo dos anos. O fio condutor dessa síntese fecunda e uma interpretação em profundidade de Assim Falou Zaratustra, na qual estão contidos os pensamentos essenciais de Nietzsche: a vontade de poder, o eterno retorno, o além-do-homem, mas também a quintessência de obras anteriores e o germe conceitual daquelas que surgiram depois dela»







11/13/2016

«PASOLINI: O VAZIO DO PODER» : DAVI PESSOA





«PASOLINI: O VAZIO DO PODER» DAVI PESSOA
Data: 18 de novembro | 19h
Local: IPHAN: Av. Gov. José Malcher, 563 – Nazaré | Belém



****

«PASOLINI: O VAZIO DO PODER»
Pier Paolo Pasolini, ainda muito jovem, com 7 anos de idade, se declara um “poeta acadêmico, ao modo de Petrarca”; alguns anos depois, diz que sofreu alguns traumas, por exemplo, depois das leituras de Rimbaud, Shakespeare, Dostoievski, Gramsci, Ungaretti e Paul Valéry. Após tal experiência diz que pela primeira vez em sua vida viu-se como antifascista. Nesse período de sua formação, lê uma passagem de Valéry citada por Jakobson, que irá ecoar em seu pensamento por toda a vida: “A poesia é uma hesitação prolongada entre o som e o sentido”, e a partir dessa proposição surge uma angústia compartilhada por ele durante uma entrevista a Giuseppe Cardillo, em 1969, em NY, a saber: os poetas simbolistas fundavam sua poética em dois pontos, a) a poesia é o conteúdo da própria poesia; b) a poesia tem uma língua que lhe é específica, uma língua que não é decorativa, nem referencial. Daí, surge-lhe um impasse: como romper com tal cisão entre o político e o estético? Sua experiência em Friuli irá lhe proporcionar um trauma social, como ele mesmo declara, visto que ali começa a entrar em contato com os camponeses que começavam a se manifestar contra o sistema de produção ainda feudal ao qual estavam submetidos, e ali Pasolini diz que já estava lendo Marx antes mesmo de sua primeira leitura efetiva de um texto de Marx, e ali percebe que o dialeto friulano presente em seus poemas não era um fato puramente realista, não era nem totalmente som, nem totalmente sentido, era um hiato entre os dois pólos, um terceiro elemento, que punha o estético e o político em confronto. Tal percepção irá se fazer presente em todos seus esboços de obra (lembremo-nos de suas aulas com Roberto Longhi), em suas anotações para seus filmes (África, Palestina, Índia, etc.), sempre como “retratações” (ao modo de Agostinho, “tratando de novo” – La Divina Mimesis, Decameron), com o intuito de sabotar o eterno retorno do mesmo, da mesmo “situação”, como dirá em sua última entrevista a Furio Colombo. Em última análise, podemos compreender o desaparecimento dos vaga-lumes não como um fim de experiência (do Mundo, mas de um mundo), mas, antes, como uma abertura de espaço (caráter destrutivo, Benjamin), de possibilidade de fazer sabotar a máquina de guerra, pois naquele momento Pasolini já percebia (e é esta uma das forças que tanto interessa ao filósofo Giorgio Agamben, ao ler a obra de Pasolini, que se situa sempre em um “antes” e um “depois”), no vazio do Poder da Itália, de modo muito sagaz (como uma espécie de Sócrates, ao pronunciar sua parresía, sempre necessária para que a democracia continue a existir), a antecipação da separação entre economia e política, em favor da primeira, tal como vemos em nossos tempos. Assim, nosso desafio, hoje, é dar novamente potência ao poético, ao político, ao gesto do corpo, para que possamos diminuir o abismo existente entre “populus” e “plebs”, no qual este último é sempre alvo de eliminação, ou ainda, como nos diz Agamben, em “O que é um povo?”: “Somente uma política que tiver sabido prestar contas da cisão biopolítica fundamental do Ocidente poderá deter essa oscilação e colocar um fim na guerra civil que divide os povos e as cidades da terra.”

***


DAVI PESSOA 

Informações (biografia) 


Davi Pessoa é professor adjunto de literatura italiana na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). É doutor em Teoria Literária pela UFSC (com pesquisa em La Sapienza/Roma), com projeto sobre a questão da escritura em Elsa Morante e em Macedonio Fernández. É autor de «Terceira Margem: Testemunha, Tradução» (Editora da Casa, 2008). Atua também como tradutor de literatura e filosofia italiana. Traduziu «A razão dos outros» e «Ou de um ou de nenhum» (Lumme Editor, 2009), de Luigi Pirandello, «Georges Bataille: filósofo» (Edufsc, 2010), de Franco Rella e Susanna Mati, «Desgostos» (Edufsc, 2010) e «Ligação Direta» (Edufsc, 2011), ambos de Mario Perniola, «A sinagoga dos iconoclastas», de Juan R. Wilcock (Rocco, 2016), e os livros «Nudez», «O tempo que resta» e «Meios sem fim» do filósofo italiano Giorgio Agamben (Autêntica, 2014, 2015, 2016), do qual sairá em breve a tradução do livro «Pulcinella ou Divertimento para os jovens em quatro cenas». No momento, está traduzindo o livro «Petróleo», de Pier Paolo Pasolini, para a Editora 34.





11/09/2016

Em favor de Edson Passetti


No «estado de exceção», sem alarmes, os níveis de persecução dobram ao infinitivo. O alvo somos todos nós. Nessa ameaça iminente viver é cada vez mais perigoso. A vida e suas práticas, aqui ou em qualquer lugar, estão em risco. O processo é sinistro, muito além do pesadelo de Josef K. Solidariedade a Edson Passetti 

Em solidariedade a Edson Passetti encaminhamos abaixo assinado, pedimos seu apoio. Segue o link: https://goo.gl/LrNiZt 


*  *  *

a insuportável produção de verdades – 
em favor de Edson Passetti
Núcleo de Sociabilidade Libertária Nu-Sol Brasil




Nesta semana soubemos que nosso amigo Edson Passetti foi implicado num processo administrativo, acionado por meio da principal tecnologia de fazer morrer nas sociedades disciplinar e de controle: a delação. O que para muitos é fato ordinário de uma vida judicializada que confunde isonomia com nivelamento tosco pela lei, para nós é um acontecimento que expõe o atual estado das coisas na universidade brasileira, em especial na PUC-SP.

O processo administrativo movido pela atual reitoria desta universidade não desqualifica, não diminui, tampouco enfraquece o Edson, apenas explicita a tentativa de esmagar, aos poucos, a história política da PUC-SP na luta pela coexistência com o diferente e da recusa em consentir com autoritarismos e arbitrariedades. Mas não só: escancara o amor à cultura do castigo que sempre se inicia por gestos minúsculos de uma força estúpida. Não desconhecemos nem ignoramos que ninguém pesquisa, trabalha, produz ou se relaciona apartado do modo como toca na vida.

Não cessamos de aprender e descobrir com o Edson há mais de três décadas a leveza contundente e a delicadeza firme deste homem raro e generoso com seus amigos, com os homens e mulheres com quem anda e trabalha, com as pessoas com quem esbarra, com as gentes que descobre, apresenta, fortalece, enfim, do vigor imprescindível ao dia a dia que não se imiscui nem se confunde com trajetórias e itinerários dos que primam pelos registros regulamentares. Como é possível que um professor esteja exposto a isto em uma universidade?

Desnecessário expor aqui o quanto e como Passetti é decisivo na PUC-SP, com 40 de anos de universidade e quase vinte à frente da densa e volumosa produção do Nu-Sol. Formou e forma incontáveis pesquisadores que hoje se encontram também em diversas universidades de todo país como professores, pautando sua atuação pela excelência acadêmica e a coragem na produção de verdades. Dentro da história de práticas democráticas da PUC-SP, que hoje tentam reduzir a relicário ou mera sombra do passado em contraste com o resplendor de uma democracia procedimental, Passetti sempre soube o valor da isonomia e da isegoria na eclésia, e insiste em lembrar da regra não inscrita e não institucional das práticas democráticas: a parrésia, o falar francamente sob o risco de impacientar a autoridade a qual se dirige. Longe de ser um elemento de conservação ou preservação, isso dá vida às relações dos diferentes numa democracia que não se quer refém do princípio republicano da lei.

Assim, implicar Edson Passetti num processo administrativo é revoltante para nós. Pouco importa os termos da acusação e os procedimentos instaurados para atribuição de culpa ou inocência. É um acontecimento que revela a estupidez na qual a universidade se afunda. Outros processos (dentro e fora da PUC-SP) poderiam ser lembrados, mas no momento nos interessa este. Ele nos diz quanto a produção de verdades outras se tornou intolerável na universidade supostamente tolerante.

São pequenas grandes condutas institucionais, viabilizadas pela letra da lei, que dão provas de que a universidade está indo por outro caminho que não o de espaço de invenção, contestação, liberdade e produção de conhecimento apartada dos interesses ordinários da Sociedade, do Estado e do Mercado. Mais do que a interceptação de um certo estilo, modo de fazer e jeito de usar em pesquisa, ensino e extensão, este processo é, para nós, inadmissível.

Inaceitável, ele é o que também não tem nome. A língua não encontra uma palavra para ele, pois traz o traço mais sombrio e carnífice da simulação e dissimulação que pretende nos terrificar no presente.
Que os que moveram este processo tenham a grandeza ou o gesto simples de reconhecer que ele jamais deveria ter sido iniciado.
Que ele seja, então, interrompido aqui.

Basta do amor incondicional ao castigo e ao juízo que se arroga o poder de querer massacrar o raro da vida em sua existência sempre fugaz. A vida é de queimar as questões.

Com Edson Passetti aprendemos esse modo de fazer pesquisa com seriedade sem sisudez, o que implica humor, riso e ironia. Trabalhamos como loucos para levar ao público nossa produção, não porque somos determinados pelo trabalho, mas porque um compromisso ético e estético nos move.

Esperemos que esse processo seja episódico, embora ele jamais pudesse ter acontecido; que o mal-entendido se desfaça e que não se perca o respeito que sempre existiu na comunidade puquiana.

Até que este processo ser retirado e incinerado e para que isto jamais se repita, o Nu-Sol suspenderá suas publicações regulares semanais, quinzenais e mensais.

Fechamos com Edson Passetti e não há pé de cabra que arrombe!
Se para você esse processo também é inadmissível, expresse seu apoio público colocando seu nome abaixo.

https://goo.gl/LrNiZt  

Nu-Sol
Núcleo de Sociabilidade Libertária

Este abaixo-assinado será entregue para:
nu-sol@nu-sol.org