8/18/2019

ANARQUISMO ULTRALIBERAL É SÓ UMA MODA, DIZEM PESQUISADORES



Camila Jourdan & Acácio Augusto




[RESUMO] Autores rebatem ideias associadas ao libertarianismo e ao anarcocapitalismo, considerando que o movimento dos anarquistas é historicamente anticapitalista e antiestatal.

Esta Folha publicou matéria de Fábio Zanini (4/8) sobre os grupos denominados "anarcocapitalistas" ou "libertários" no Brasil, associados ao libertarianismo, derivado da praxeologia da Escola Austríaca e dos "ultraliberais" estadunidenses.






















Enquanto libertários, vemos esta linha de pensamento como situada nas antípodas dos anarquismos. Isso poderia ser argumentado pela própria história do movimento, que rechaça o uso de seus termos por liberais, ultraliberais, libertarianos e oportunistas aninhados na burocracia do atual governo.

A palavra anarquia é mobilizada na política moderna inicialmente pela literatura contratualista. A vida sem governo, para estes, era a selvageria, a brutalidade, o arbítrio, o caos. Será Pierre Joseph Proudhon quem, pela primeira vez, inverterá esse entendimento da palavra anarquia, usando-a para nomear sua posição no clássico livro, de 1840, "O que é a Propriedade? Ou Pesquisa sobre o Princípio do Direito e do Governo".

Para ele, anarquia é ordem. Esse é o paradoxo derivado da mobilização de trabalhadores no século 19 e que depois será chamada, no seio da Primeira Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT de 1864), de socialismo libertário.

A anarquia, modernamente, seja como movimento social ou elaboração analítica, nasce como crítica simultânea ao regime da propriedade (capitalismo) e aos sistemas de governo (estatismo) — seu significado literal é ausência de governo.

Proudhon acrescenta, ainda, uma crítica à direção das consciências, a qual implica não só o anticlericalismo anarquista, como a recusa em se apresentar como vanguarda iluminada dos trabalhadores, seu guia necessário para a revolução. Isto é algo que aparece tanto nas correspondências de Proudhon com Karl Marx quanto nas polêmicas acaloradas desse último com Mikhail Bakunin no interior da AIT.

São mais de 150 anos de história de lutas, experiências, experimentações, proposições, análises. Tudo fartamente documentado. A anarquia e os anarquismos atravessam a história moderna em associação com o movimento dos trabalhadores, a luta contra o fascismo, a oposição à guerra de nações, a invenção de práticas educativas livres, a contestação ao terror de Estado de todas as cores, a liberdade das mulheres, a radical oposição ao racismo, os movimentos de juventude no pós-Guerra, a luta ecológica e o combate ao colonialismo.

Contemporaneamente, a anarquia é visível desde o movimento antiglobalização do final do século 20 até as mobilizações contra as políticas de austeridade na Grécia (2008), o Occupy Wall Street (2011) nos EUA, o movimento dos Indignados na Espanha (2011) e o Junho de 2013 no Brasil.


A despeito dessa relevância histórica, não é incomum, seja na mídia, seja no imaginário do senso comum, a representação dos anarquistas como terroristas perigosos e inconsequentes. Na dogmática de certa esquerda, os anarquistas são pequeno-burgueses portadores de uma "doença infantil". Mesmo em áreas especializadas das ciências humanas, a anarquia é seguidamente menosprezada como algo pré-político ou carente de complexidade.





























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Eis que, mais uma vez, forças políticas se interpõem, agora não para desqualificar os anarquistas, mas num esforço de se apropriar de parte de suas ideias e palavras. A associação dos anarquismos com o ultraliberalismo é uma apropriação arbitrária de elementos deslocados de contexto; é, na verdade, uma confusão deliberada, que desconsidera características próprias das práticas anarquistas.

A anarquia emerge na história como anticapitalista e antiestatal, uma forma de socialismo que apostava na capacidade política da classe trabalhadora livre. A igualdade social como o fim das classes e das opressões é associada ao fim das hierarquias políticas, das quais o Estado é a principal expressão e fonte de manutenção.

Estado e capitalismo estão intimamente relacionados e se mantêm mutuamente. A política e a economia não são separáveis. Da mesma forma, igualdade e liberdade não são noções antagônicas ou distintas, mas complementares.

Não existe igualdade sem liberdade, nem liberdade sem igualdade. Não é possível haver uma sociedade sem classes mas com Estado; nem ausência de hierarquia políticas e opressões com desigualdade social e econômica. Para o anarquista a liberdade de um não termina onde começa a do outro, ao contrário, se potencializam mutuamente; essa é uma diferença radical com qualquer variação do liberalismo.

As análises feitas por gerações de militantes que compõem a cultura libertária demonstram como o Estado e o capitalismo andam juntos na história. Por isso, uma noção como a de "anarcocapitalismo" não faz qualquer sentido, uma vez que defender o primado do capital implica aceitar uma forma de Estado —em particular, mas não exclusivamente, um Estado dedicado a suas funções clássicas de vigilância, controle e gestão da população.

Reciprocamente, defender a igualdade social implica querer a liberdade e, com isso, o fim das hierarquias e de qualquer forma de organização estatal. A associação entre anarquia e capitalismo, ausência de Estado e manutenção da propriedade —privada ou estatal— só pode ser defendida por má-fé ou por incompreensão dos conceitos de Estado e de capitalismo. Como coloca Proudhon, ao federalismo político corresponde o mutualismo econômico: anarquia e autogestão.

A identificação entre socialismo e organização estatal centralizada responsável por uma economia planificada deriva de uma certa leitura de Karl Marx e da experiência da URSS, mas é absolutamente estranha a qualquer forma de anarquia.

As principais experiências de lutas sociais visando a transformação revolucionária da sociedade envolveram práticas de autogestão ou conselhos de trabalhadores, destituindo assim qualquer gerência estatal e/ou privada, bem como qualquer poder político hierárquico.

Desconsiderar isso é ignorar a história passada e, acrescentemos, presente: cite-se aqui, pois não estamos falando de utopias irrealizáveis, a experiência zapatista no México, cujos territórios autônomos se organizam de maneira federalista libertária, sem Estado e de modo comunal, e o confederalismo libertário de Rojava, no território de ocupação majoritariamente curdo.

O que seria o ultraliberalismo? Primeiramente, a noção de "Estado mínimo" é uma ficção teórica. A forma-Estado é uma razão política elementar, um dispositivo de captura de todas as relações sociais, sendo assim de difícil ou impossível medição em termos de intensidade. Não existe menos Estado, assim como uma mulher não fica menos grávida. Ademais, política e economia não se separam e, assim, poder econômico é sempre poder político.

Diante desse fato, não faz sentido pensar em uma sociedade mais horizontal com uma radicalização de desigualdades; o que se tem, de fato, é um aumento do poder político de certas corporações que cumprem muito bem o papel de Estado.

Não é por acaso que ultraliberais afirmam que os aparatos policial e jurídico seriam os últimos a desaparecer. E aqui, ironicamente, se assemelham aos seus adversários estatistas, os leninistas, que acreditavam que o Estado definharia gradualmente após a correção das desigualdades por meio do planejamento econômico centralizado.

O Estado ultraliberal é, como todo Estado, o Estado policial. A pretensão, à direita ou à esquerda, de se abolir um sem abolir o outro sempre acabará em restauração da parte supostamente abolida.

Com o acirramento das desigualdades, o Estado policial, hoje, é evidente tanto no centro quanto na periferia do capitalismo. O princípio do Estado é o princípio da propriedade: a instituição de uma diferença fundamental entre interior e exterior, e a aplicação da violência para a estabilização dessa diferença.

O Estado é a propriedade de um território que substitui a comunidade deste, substitui ao mesmo tempo que a coloca sob seu jugo. A Liberland citada da matéria nada mais é que um microestado ou uma microempresa.

Vê-se também como seria contraditório falar em capitalismo sem Estado —exatamente a mesma contradição envolvida ao se falar em capitalismo sem propriedade. Mas não seria pensável um Estado que pelo menos não interviesse na economia? Isso também é falso.

Se política e economia são dois lados da mesma moeda, sempre se está intervindo também na economia mantendo-se a desigualdade. Apenas por vezes esta intervenção não é evidente. Bom, "apenas por vezes", porque nas recentes crises econômicas, quando as grandes instituições financeiras estiveram ameaçadas, a intervenção estatal foi acionada em socorro a elas, o que sabemos se repetirá ao sabor dos capitalistas. Ser antiestatal é ser, antes de tudo, anticapitalista.

Resta que a moda entre os neoliberais chamados anarcocapitalistas é apenas isso: uma moda. Cabe registrar que como capitalistas que se autodenominam libertários, apenas praticam a atividade essencial dos proprietários sublinhada por Proudhon: o roubo!

Pois a palavra libertário, forjada pelo poeta anarquista Joseph Déjacque, foi retomada por Sébastien Faure e Louise Michel para nomear o jornal que criaram no final do século 19, quando se dizer anarquista significava risco de morte devido ao rescaldo da repressão à Comuna de Paris (1871). Logo, anarquista e libertário são sinônimos. É desonestidade usar a palavra para nomear o que os anarquistas combatem.

Se hoje os ultraliberais se mostram triunfantes, ocupando cargos nas burocracias de governos, ver uma parcela deles buscando se apropriar da palavra libertário apenas atesta que a luta dos anarquistas os fazem temer por seus privilégios. Que se refugiem na inóspita Liberland, pois sabemos que a hora mais escura da noite é aquela que precede a manhã mais radiante.



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Camila Jourdan é professora-adjunta de filosofia da Uerj.

Acácio Augusto é professor-adjunto de relações internacionais da Unifesp.




Fonte: texto publicado na Ilustríssima : FSP 18.08.2019











12/11/2018

p o é t i c a s - d o - d e s a s t r e









TESSITURAS DO DESASTRE
Nilson Oliveira


 “Diante dos meus olhos, um desmoronamento”

Giorgio Caproni


O desastre não é um fenômeno ou acontecimento, mas uma experiência de pensamento, «pensamento do desastre» (baseado na concepção de Maurice Blanchot): é o que se abre no limiar de toda extremidade. A desextensão, sem o efeito rigoroso de uma destruição. O desastre é o que regressa, num sentido de ‘retorno ilimitado’, com efeito, ‘ele’ seria sempre “o desastre depois do desastre”. De outro modo, “é o que desliga aquilo que está ligado”, interrompendo a ordem das coisas.  É a cesura mais silenciosa: des/astre. Nesse caso, o desastre, tal como pensamos, é o que se efetua aquém de qualquer domínio, «fora de todo poder», é o próprio “contratempo: a desordem nômade”. 
«Poéticas do desastre» são decorrências de um agenciamento coletivo, com as atenções viradas para as erosões do presente. Efetivamente, operando pelas fendas da literatura, com Lima Barreto e Maura Lopes Cançado, no limiar de alguns dos seus escritos, os Diários. Com efeito, a partir de uma descida vertical no coração das respectivas obras, sensível às nuances e metamorfoses, com atenção as rasuras, linhas (e movimentos), mas também aos descarrilamentos, as falhas, silêncios e rupturas, no anseio de depreender - entre o mais fundo e a instigante descida aos abismos da criação literária. Descida vertiginosa aos infernos dos diários, «Cemitério dos Vivos» e «Hospício é Deus». Duas escritas obstinadas das quais derivam testemunhos, acontecimentos que oscilam entre fragmentos de dias insuportáveis, pequenos júbilos, espetros e inquietações. Dois raros momentos da literatura. Duas singularidades, escrituras cujas linhas se cruzam num núcleo essencial: a escrita contra a clausura. Ou seja, a escrita do diário como modo de deslocamento do mais sombrio, experiência através da qual o gesto de escrever implica em traçar uma passagem fundamental: descida aos infernos (das casas manicomiais), para o impossível do mundo. Tal como diz Lacoue-Labarthe, pensando a jornada de Ulisses: “A experiência de Ulisses não é ela própria uma mera navegação; nem mesmo o furor do retorno. Ela culmina na travessia da morte, a descida aos infernos”.
O laboratório de Criação Literária «Poéticas do desastre» se realizou em três módulos, durante o segundo semestre de 2018, na Casa das Artes.

Foram encontros intermitentes, férteis de êxodos e avizinhamentos, atados por uma intensa zona de flutuação, convergência sutil entre afetos e errâncias. Trânsito mais heterogêneo, nexo entre escritores, poetas, artistas, articulados na direção de uma experiência cujo ponto de partida consiste em fazer do encontro um processo de criação.

Como não se sai ileso de algumas experiências, os textos delineados nesses «Cadernos de Laboratório» são fragmentos dessa jornada, tessituras moldadas a partir de múltiplas linhas de transcriação, dobra entre o testemunho e o porvir; acontecimento transitivo cujo ir e vir conforma uma espécie de “eterno retorno do outro escritural”.


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OS “COLETES AMARELOS” MOSTRAM O QUANTO O CHÃO SE MOVE SOB OS NOSSOS PÉS


Por David Graeber

Tradução: João Camillo Penna 



«Tradução do artigo do antropólogo norte-americano, David Graber, sobre os Gilets Jaunes, postado (FB) por Tatiana Roque, publicado no Le Monde e no site anarquista Infoshopnews»



f o n t e :





Foto: Parham Shahrjerdi




Se uma característica de um momento verdadeiramente revolucionário é o fracasso completo das categorias convencionais para descrever o que está acontecendo à nossa volta, então temos um bom sinal de que estamos vivendo em tempos revolucionários.

A confusão profunda, ou até mesmo a incredulidade, demonstrada pelos comentaristas franceses e estrangeiros, diante dos “atos” sucessivos do drama dos Coletes Amarelos, que agora vai se aproximando rapidamente de seu clímax insurrecional, é o resultado de uma quase total incapacidade de se levar em conta os modos com que o poder, o trabalho, e os movimentos que se posicionam contra o poder, mudaram no curso dos últimos 50 anos, e particularmente desde 2008. Os intelectuais em sua maior parte fizeram um péssimo trabalho em entender essas mudanças.

Permita-me oferecer duas sugestões sobre as origens dessa confusão:

1. Em uma economia financeirizada, apenas os que se encontram mais perto dos meios de criação de dinheiro (essencialmente, os investidores e as classes de profissionais gestores) estão em posição de empregar a linguagem do universalismo. Como resultado, qualquer reivindicação política baseada em necessidades e interesses particulares tendem a ser tratadas como manifestações de política identitária, e no caso da base social dos Coletes Amarelos, portanto, não se pode imaginar que seja nada senão protofascista.

2. Desde 2011, houve uma transformação em escala mundial dos pressupostos do senso comum sobre o significado de participar em um movimento democrático de massa – ao menos da parte dos que mais provavelmente participariam dele. Os outros modelos “verticais” ou vanguardistas de organização deram lugar rapidamente a um ethos horizontal aonde a prática e a ideologia (democrática, igualitária) são no final de contas dois aspectos da mesma coisa. A incapacidade de compreender isso dá a falsa impressão de que movimentos como os Coletes Amarelos são anti-ideológicos, ou até mesmo niilistas.

Deixe-me fornecer alguns argumentos de fundo para essas afirmativas.

Desde o abandono do padrão monetário do ouro em 1971, vimos uma mudança profunda na natureza do capitalismo. A maioria dos lucros corporativos não derivam mais da produção nem da comercialização do que quer que seja, mas da manipulação do crédito, dívida, e “capital rentista regularizado”. À medida que as burocracias governamentais e financeiras se tornaram tão intimamente interligadas ao ponto de se tornar cada vez mais difícil diferenciar uma da outra, a riqueza e o poder – particularmente o poder de criar dinheiro (ou seja, o crédito) – também se tornou na prática a mesma coisa. (Era para isso que estávamos chamando atenção no Occupy Wall Street quando falávamos dos “1%” – aqueles com a capacidade de transformar a sua riqueza em influência política, e sua influência política de novo em riqueza.) Apesar disso, comentadores políticos e midiáticos recusaram-se sistematicamente a reconhecer a nova realidade. Por exemplo, no discurso público, fala-se de política fiscal como se esta fosse principalmente a maneira como o governo levanta fundos para financiar as suas operações, quando na verdade é cada dia mais simplesmente uma maneira de: 1) assegurar-se que os meios de criação de crédito não serão democratizados (já que apenas o crédito oficialmente aprovado é aceitável para pagamento de imposto), e 2) redistribuir o poder econômico de um setor da sociedade para outro.

Desde 2008 os governos vêm injetando dinheiro novo no sistema financeiro, o qual, devido ao notório “efeito de Cantillon”, tendeu a ser acumulado majoritariamente por aqueles que já têm ativos financeiros, e seus aliados tecnocratas das classes profissionais gestoras. Na França obviamente esses são precisamente os macronistas. Os membros dessas classes sentem-se como a encarnação de todo e qualquer universalismo, a sua concepção de universal sendo firmemente enraizada no mercado, ou de maneira crescente, na fusão atroz entre burocracia e mercado que é a ideologia dominante no que se chama “centro político”. Os que trabalham nessa nova realidade centrista são cada dia mais impedidos de aceder a qualquer possibilidade de universalismo, já que eles literalmente não podem pagar por ele. A habilidade de agir a partir de uma preocupação com o planeta, por exemplo, e não a partir das exigências de mera sobrevivência, é agora um efeito colateral direto de formas de criação de dinheiro e de distribuição gestionária da renda; qualquer pessoa forçada a pensar exclusivamente em si mesmo ou nas necessidades materiais imediatas da sua família é vista como afirmando a sua própria identidade particular; e enquanto certas identidades podem ser permitidas com indulgência e condescendência, as da “classe trabalhadora branca” só podem ser uma forma de racismo. Vimos a mesma coisa nos Estados Unidos, aonde os comentaristas liberais de esquerda foram capazes de argumentar que se os mineiros de carvão votavam em Bernie Sanders, um socialista judeu, isso só poderia ser expressão de racismo, ou na insistência estranha que os Coletes Amarelos sejam fascistas, mesmo que eles não o tenham percebido.

Esses são instintos profundamente antidemocráticos.

Para entender o apelo do movimento – ou seja, a repentina emergência e a disseminação incendiária de uma política realmente democrática ou mesmo insurrecional – creio que é preciso atentar para dois fatores em geral não levados em consideração.

O primeiro é que o capitalismo financeiro envolve um novo alinhamento de forças, sobretudo ao opor os gestores-técnicos (cada vez mais empregados em simples “trabalho de merda”, como parte do sistema de redistribuição neoliberal) à classe trabalhadora, que é agora vista mais como as “classes cuidadoras” – como aqueles que nutrem, cuidam, mantêm, sustentam, mais do que os “produtores” de antigamente. Um efeito paradoxal da informatização é que ao mesmo tempo que a produção industrial se tornou infinitamente mais eficiente, a riqueza, a educação, e outros setores do cuidado se tornaram menos. Isso combinado com o desvio dos recursos para as classes administradoras sob o neoliberalismo (e os cortes no estado do bem estar associados a ele) significou que, em quase toda parte, foram os professores, enfermeiros, trabalhadores em clínicas de repouso, paramédicos, e outros membros das classes cuidadoras que se tornaram a vanguarda da militância trabalhadora. Os choques entre os trabalhadores de ambulância e a polícia em Paris na última semana podem ser tomados como um símbolo nítido do novo arranjo de forças. Mais uma vez, o discurso público ficou aquém das novas realidades, mas com o tempo, vamos ter que começar a fazer perguntas completamente diferentes: não que tipos de trabalho podem ser automatizados, por exemplo, mas quais queremos afetivamente que o sejam, e quais não; quanto tempo estamos dispostos a manter um sistema no qual quanto mais o trabalho de uma pessoa ajuda imediatamente ou beneficia imediatamente outros seres humanos, menos ele será provavelmente pago por isso.

Em segundo lugar, os acontecimentos de 2011, a começar pela Primavera Árabe, passando pelos movimentos das praças até o Occupy, parecem ser marcados por uma quebra fundamental do senso comum político. Uma maneira de saber que um momento de revolução global de fato aconteceu é que ideias consideradas loucas pouco tempo antes repentinamente se tornam pressupostos fundamentais da vida política. A estrutura sem liderança, horizontal, diretamente democrática do Occupy, por exemplo, foi quase universalmente caricaturada como idiótica, sonhadora e pouco prática, e assim que o movimento foi suprimido, pronunciada como a razão para o seu “fracasso”. De fato, ele parecia exótico, ao se basear profundamente não apenas na tradição anarquista, mas no feminismo radical, e até mesmo, em certas formas de espiritualidade indígena. Mas agora ficou claro que este passou a ser o modo default de organização democrática em qualquer lugar, da Bósnia ao Chile, a Hong-Kong ao Kursditão. Se um movimento democrático de massas emerge, essa é a forma que se espera que ele tenha. Na França, o Nuit Debout pode ter sido o primeiro a abraçar esse tipo de política horizontal em uma escala de massa, mas o fato de um movimento originado entre trabalhadores rurais, pequenas cidades, ou auto-empregados ter adotado espontaneamente uma variação desse modelo mostra o quanto se trata de um novo senso comum sobre a natureza da democracia.

Talvez a única classe de pessoas que parece incapaz de captar essa nova realidade sejam os intelectuais. Da mesma forma como durante a Nuit Debout, muitas das autodenominadas “lideranças” do movimento pareciam incapazes ou relutantes em aceitar a ideia de que formas horizontais de organização eram na verdade uma forma de organização (eles simplesmente não podiam entender a diferença entre a rejeição de estruturas hierarquizadas e o caos total), também agora os intelectuais de esquerda ou de direita insistem que os Coletes Amarelos são “anti-ideológicos”, incapazes de entender que, para movimentos sociais horizontais, a unidade da teoria e da prática (que para os movimentos sociais radicais do passado tendiam a existir muito mais na teoria do que na prática) existem de fato na prática. Esses novos movimentos não precisam de uma vanguarda intelectual para fornecer-lhes uma ideologia porque eles já têm uma ideologia: a rejeição das vanguardas intelectuais, a adoção da multiplicidade e da própria democracia horizontal.

Certamente há um papel para intelectuais nesses movimentos, mas ele terá que envolver muito menos fala e muito mais escuta.

Nenhuma dessas novas realidades, seja as relações entre dinheiro e poder, seja a nova compreensão da democracia, vão sumir num futuro próximo, aconteça o que acontecer no próximo Ato do drama. O chão se moveu sob os nossos pés, e faríamos bem em pensar sobre aonde devemos depositar nossas lealdades: sobre o pálido universalismo do poder financeiro, ou sobre aqueles cujos atos de cuidado tornam a sociedade possível.


Bottom of Form
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3/28/2018

«alguns espectros da poesia em Belém hoje»





























LABORATÓRIO DE CRIAÇÃO LITERÁRIA

« as pequenas fabulações do contemporâneo ou alguns espectros da poesia em Belém »




Datas e linhas gerais do laboratório:

17 a 20 de Abril 2018 | 16 às 19h
O DESASTRE TOMA CONTA DE TUDO
de Ney Ferraz Paiva

15 a 18 de maio 2018 | 16 às 19h
A INTRUSA
de Izabela Leal

12 a 15 de junho 2018 | 16 às 19h
A LETRA DA ÁGUA
de Luciana Brandão Carreira

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Inscrições: literaturafcp@gmail.com
Casa das Artes: das 9h00 às16h00
Valor de 20,00 | Fone: 3323.0350


















12/13/2017

LANÇAMENTO: «cadernos de oficina | poéticas do laboratório»
















POÉTICAS DO LABORATÓRIO 

f o t o s  d o  l a n ç a m e n t o


























p r o g r a m a ç ã o

# ABERTURA: «CÉLIA JACOB»
Diretora da Casa das Artes

# VÍDEOPROJEÇÃO: «O LIVRO PORVIR»
Vídeo produzido durante o laboratório de criação literária
Direção: «Felipe Pamplona»

# RECITAL: «POÉTICAS DO LABORATÓRIO»
«Alcione Hummel» «Mauricio Borba Filho» «Joseana de Souza» «Rogério A. Tancredo» «Lucas Damasceno» «Danielle Ramos» «Harley Dolzane» «Vanusa do Rego Barra» «Olavo Hummel» «Lourival Castelo Branco» «Wellington Romário Alves» «Solange Ribeiro» «Igor Pereira»  «Diego Mesquita» «Rodrigo Britto»

# LANÇAMENTO: «CADERNO DE OFICINA / POÉTICAS DO LABORATÓRIO»

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Dia 14 de dezembro, às 18h
CASA DAS ARTES
Praça Justo Chermont, nº 236 (Nazaré) Belém

Informações: (91) 32784578






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A ESCRITA QUE VEM

Os textos que cobrem as páginas a seguir são testemunhos de um acontecimento em-comum – experiência de um fazer-juntos – traçada nas entranhas do «Laboratório de Escrita Literária», realizado na Casa das Artes, no período de abril a junho de 2017. Exercícios de crítica e criação, intermediados por um desejo oscilante, entre os afetos e a escrita, modulados por uma escuta sensível – sem juízos ou receios – atenta à escrita que vem.

Em outra medida, podemos dizer, sobre a ideia do «laboratório», que se tratou de uma jornada para dentro de uma experiência cujos desdobramentos, em avanço para além do sossego, implicaram numa espécie de jogo escritural, no qual – como diz Duras – “a escrita é o desconhecido”, “vem com o vento” (MD,1994).

É o próprio porvir, repetição que não cessa, movimento cujos laços se revelam a partir do limiar da página branca.

Com efeito, no cotidiano do «Laboratório», o cuidado em não transmitir um ensinamento ou infligir um manual de escrita. A jornada foi desde sempre outra, a mais simples e direta, traçar encontros com o intuito de viver-juntos o comum de uma experiência com a literatura. Ou seja, ler, ouvir, viver a intensidade do texto literário. Povoar o branco, semear afetos. Perceber as cintilações da prosa e a ideia da poesia, e vice versa. Exumar os silêncios, experimentar, ouvir, criar situações possíveis para a escrita que vem. E nesse transcurso – graças à força da comunidade –, os lampejos e derivações do escrever.

São esses lampejos que cobrem as páginas a seguir – efeitos da inusitada experiência de laboratório –, uma profusão de escritas, desatreladas de um ordenamento linear. São antes de tudo curvas, dobras, intermitências, a pura delícia sem caminho, fora de qualquer pretensão à novidade ou renovação (das formas do escrever). As escritas a vir e seus problemas estão lançados numa dimensão sensível do escrever, vem da tinta da alegria (negra como a superfície da noite), são lisas e fugidias como o vento. Portanto, essas escritas são feixes de singularidades, modos, atos, experiências movidas por uma potência vital, «o amor pela escrita».

Nilson Oliveira


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12/05/2017

«Bob Dylan, a liberdade que canta» | de Daniel Lins


















“Como ser simplesmente Bob Dylan no século XXI, quando seu nome brota como uma lenda do século precedente, e condensa em si mesmo uma década louca que revolucionou as vidas, algo entre Kennedy, Fidel Castro, Che Guevara, Martin Luther King, os Beatles, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Frank Zappa, José Celso Martinez Corrêa, por exemplo? É pertinente observar que Bob Dylan é o músico com mais letras citadas em processos nos EUA: Juízes e advogados usam suas canções em argumentos de defesa ou sentenças de seus clientes, sem negligenciar o humor presente na poesia, no canto, em suma, na rebeldia dylaniana, sem bandeira nem camisa. Na verdade, a tarefa do humor na arte poética do artista é imprescindível, até quando o tema é severo, grave. Refiro-me à canção Joey, do álbum Desire que tem como cenário a figura do gangster: Joey Gallo, cuja trajetória é contada em onze minutos, abarcando seu trágico final, baleado quando estava almoçando com a família em um bar.
O que, de modo difuso, e, nem sempre evidente, caracteriza sua aptidão e vontade de viver, é a destreza, é o jeito manhoso de sacudir a existência, de exigir muito mais do que ela se limita a oferecer, retirando-a do marasmo, do sono profundo ou do desmaio do desejo de nada mais desejar. Em suma, em relação ao cotidiano flácido e à repetição entediante de uma existência que recusa a singularidade e busca abrigo na homogeneidade, travando-a, embaçando-a, Bob Dylan canta a diferença velada cuja energia, uma vez desembaraçada da demência ou do ócio não criativo, põe-se a surfar, a ondular, a agitar e a transmutar pessoas, lugares e coisas por onde passa”. 

Bob Dylan - A Liberdade que Canta Daniel Lins


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L A N Ç A M E N T O 

A Editora Ricochete fará nesta próxima sexta-feira o lançamento do livro «Bob Dylan, a liberdade que canta» , do filosofo e escritor Daniel Lins

O livro é um ensaio filosófico-poético sobre o percurso artístico e pessoal do cantor e prêmio Nobel de Literatura Bob Dylan.

E para incrementar o entardecer mais belo da cidade, haverá o Show de Leituras com a CorpA de Voz!

Anote na agenda, esperamos você!


Dia 08 de dezembro, às 17h30
LIVRARIA PALAVREAR
Rua 232, nº 338,  Setor Universitário
Goiânia (GO) - (62) 3086-3204



Entrada: Gratuita