9/02/2016

«CAFÉ CLANDESTINO» : revista polichinello






«CAFÉ CLANDESTINO»
Hoje | sexta feira, 02 de setembro | às 19h

Loca: CASA VELHA - Trav. Gurupá, nº 226 (entre Dr. Malcher e Cametá), Cidade Velha.

«CAFÉ CLANDESTINO», CICLO DE CONVERSAS E PROVOCAÇÕES, COM CURADORIA DO POETA CLEI SOUZA.

O Convidado desta edição é Nilson Oliveira, editor da revista Polichinello
Serviço:

Café Clandestino, sexta feira, 02 de setembro, às 19h
Local: Casa Velha - Trav. Gurupá, nº 226 (entre Dr. Malcher e Cametá), Cidade Velha | Belém (PA)





8/26/2016

Polichinello 17 : Por uma vida não-fascista

 http://revistapolichinello.wixsite.com/poli17


EDIÇÃO Nº 17
.
ENSAIOS:
Ana Kiffer
Ana Paula Gomes
Bianca Coutinho Dias
Carolina Villada Castro
Dolores Galindo & Flávia Lemos
Eduardo Pellejero
Élida Lima
Elisabeth Bittencourt
Filipe Pereirinha
Joana Egypto
Luciana Brandão Carreira
Luis Álvarez
Marly Silva
Máximo Daniel Lamela Adó
Michel Foucault
Roberto Corrêa dos Santos
Rogério Tancredo
Solange Rebuzzi
Vinícius Nicastro Honesko
.
ESCRITURAS:
Ana Alencar
Edilson Pantoja
Edyr Augusto Proença
Giselda Leirner
Luciano Bedin & Larisa Bandeira
Malha 8
Suelen Carvalho
Vicente Franz Cecim
.
POESIA:
Ana Amália Alves
Camila do Valle
Danielle Magalhães
Demetrios Galvão
Eduardo Sterzi
Felipe Cruz
Izabela Leal
Leo Gonçalves
Leonardo Gandolfi
Luiz Guilherme Barbosa
Marília Garcia
Maurício Borba Filho
Olíver Brito
Simone Brantes
Simone Neves
Thiago Ponce de Moraes
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TRADUÇÕES:
Benjamin Fondane
Trad. Vinícius N. Honesko
Edmond Jabès
Trad. Eclair Antonio A. Filho
Enrique Mallen
Trad. Kalila Carla da Silva
Felisberto Hernandez
Trad. Susana Guerra
Kuniichi Uno
Trad. Christine Greiner
Néstor Díaz de Villegas
Trad. Idalia Morejón & Tatiana Faria
Pier Paolo Pasolini
Trad. Davi Pessoa
René Char
Trad. Contador Borges
Edson Passetti & Martha Gambini
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NÚCLEO EDITORIAL
Nilson Oliveira
Izabela Leal
Ramon Cardeal
Evandro Nascimento
Luciana Brandão Carreira
João Camilo Penna
Ricardo Pinto Souza
Alberto Pucheu
.
REVISÃO
Dayse Barbosa
.
EXPEDIENTE
revista.polichinello@gmail.com
(91) 32784578
Belém PA | 2016
.



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poli 17  Editorial


T E M P O I N F A M E



Que tempos são esses,
em que uma conversa
é quase um crime,
por incluir
o já explicito?

Paul Celan



Esta seria uma edição impressa, mas a direção foi outra, por incompatibilidade com dias tão difíceis. O cenário por aqui, de uma esfera a outra, declina por vias mais e mais sinistras. Efeito do espectro que assombra o país, vertiginoso retrocesso. Com leis e medidas em favor dos interesses mais reacionários, tudo devidamente agenciado por uma política que persegue, sem dissimular, conquistas sociais, e opera com a lógica de subtração e sequestro, com violação e exclusão, que esvaziam possibilidades, como diz o Esposito: «desonerando a vida».  

Não indiferentes a tais ocorrências a “mídia-corporativa” reitera a aliança de sempre, em favor dos poderes, valendo-se para isso de uma propaganda virulenta e letal. Tempo infame. O golpe é duro e sucessivo.

Golpe tutelado pela lei. Lei da força. Força que subverte a própria lei, imola direitos, suspende garantias. É o próprio «desastre». Lei suprema ou extrema, lei como excessivo da lei. Lei da exceção. «Lei que nasce dos massacres, das cidades incendiadas, das terras devastadas; dos famosos inocentes que agonizam no dia que está amanhecendo» (M.F, 2005. p, 58-59)
O avanço é terrificante. Recrudescimento das formas de persecução e controle. Golpe contra a vida.  A ameaça expande com dimensões cada vez mais amplas. Horror! Como adverte Pasolini (na entrevista traduzida por Davi Pessoa) «ESTAMOS TODOS EM PERIGO».

Todavia é preciso resistir.

É PRECISO RESISTIR CONTRA OS GOLPES.  Resistir de todas as maneiras – produzir fraturas, linhas e linhas de evasão, em favor das experiências plurais e outras intensidades – num processo vivo do qual se proliferem situações de contragolpe.

Assim seguimos nesta nova edição da Polichinello, com vontade de vida. E nesse impulso, inspirados pelo sopro foucaultiano,  articulamos uma fórmula mais direta, «POR UMA VIDA NÃO-FASCISTA»,  mote pelo qual rivalizamos com o presente e sua imagem intolerável, em atrito, produzindo «contragolpes», contra os fascismos, num agenciamento entre escritas, vozes, sopros,  em favor do possível, da vida afirmativa.

Assim vamos nesta edição, resistindo a esse tempo hostil. Tempo governado por um capital hediondo, cujo lastro é um campo árido, depauperante, campo de desova. Campo com o qual, por persistência-ativa, confrontamos e traçamos uma mudança de ar: «a linha de fuga do voo da bruxa». Movimento possível graças à rede de afetos, cuja potência afirmativa nutriu nossas forças, multiplicou nossa capacidade de sobrevivência. 
















6/25/2016

Paulo Plínio Abreu: a persistência da poesia





Colóquio Paulo Plínio Abreu  |  A Persistência da Poesia

3 e 4 de novembro 2016   Belém (PA)











PAULO PLÍNIO ABREU

a persistência da poesia

Nilson Oliveira 


Dia 19 de Junho de 2016 comemora-se 95 anos de Paulo Plínio Abreu. Nascido em Belém, morreu em 1959, aos 38 anos. Sua obra foi publicada postumamente em 1978, pela Universidade Federal do Pará. Em que pese a importância e o vigor da sua poesia, a data é quase imperceptível.

Paulo Plínio pertenceu à geração de Haroldo Maranhão, Mário Faustino e Benedito Nunes, dos quais foi próximo, todavia com um percurso peculiar, moldado pela discrição, fora dos círculos predominantes.

Poeta-ativo, com trânsito refinado pela literatura, traduziu Rilke, Eliot, Gide, colaborou com jornais e revistas, enredou uma poesia densa, intrínseca a um pensamento que soçobra no aberto do mundo: «mundo pressentido e oculto». Pensamento como eco de uma poesia que arfa num movimento entre a extremidade, o vazio e a morte.

Movimento irrevogável contra a determinação, sobretudo temporal; potência de uma escrita-intensiva, a partir da qual os pensamentos pulsam, por dentro e por fora do mundo, numa experiência que não é senão o próprio movimento, tal como diz o poema ‘O barco e o mito’, «rumo ao mais longínquo desconhecido».

Desse universo descortina-se uma poderosa constelação de imagens, povoadas por espectros, os mais arredios e escapadiços («o polichinelo», «a puta do leme», «o comedor fogo», «o filho pródigo», etc.), tão surpreendentes e lisos que a arte da captura não pode refrear.

A obra de Plínio permanece um profuso manancial, possível de experiências, dobras, derivações, agenciamentos; de conexão efetível com matérias várias: arte, literatura, pensamento. Trata-se de uma obra rica, um surpreendente caminho para pensar a poesia.

Portanto, nesses 95 anos do poeta, nada mais oportuno que celebrar o acontecimento, através de um evento (afetos da poesia), confluência entre leitores, entusiastas, pesquisadores, na direção de uma jornada: «viver juntos esse arquipélago chamado Paulo Plínio Abreu».

É a partir dessa conjugação de forças que se atam linhas para o colóquio «Paulo Plínio Abreu: a persistência da poesia». Aposta cujo objetivo é delinear um percurso pela obra do poeta, através de uma abordagem plural – conexões entre literatura, filosofia, artes visuais –, na direção de uma experiência heterogênea, cujo vetor em comum é encontrar, ou seja, «pensar com» a poesia de Paulo Plínio Abreu.

Esse percurso por entre zonas tão distintas é reflexo não apenas da vitalidade da sua poesia, mas também da persistência e relevância para o presente de uma escrita que opera por lampejos e intermitências (através de personagens e paisagens inquietantes), desvelando uma fissura no tecido temporal.

O evento é promovido pela revista Polichinello e ocorrerá no mês de novembro, em Belém, com participação de artistas, poetas, estudiosos e entusiastas da obra de Paulo Plínio Abreu.

A programação será composta de conversações, exposições, projeção de vídeos, performances.  Convidados: Izabela Leal, Ernani Chaves, Ramon Cardeal, Paulo Ponte Souza, Galvanda Galvão, Rogério Tancredo, Dayse Rabelo, Lília Chaves Rodrigo Oliveira, Edilson Pantoja, Mauricio Borba Filho, Luís Heleno Montoril Del Castilo, Jairo Vansiler.



Nilson Oliveira
01/06/2016










6/04/2016

box-poemas :: Alberto Pucheu






boxe poemas

a l b e r t o  p u c h e u







MINHAS AMIZADES DE HOJE
SÃO FEITAS COMO ANTIGAMENTE

Estudantes engravatados tomam chope num botequim
do centro da cidade, ao lado do qual se abre,
imperceptível, uma porta. As pernas que, por ela, sobem as escadas de madeira pela primeira vez não sabem ao certo
o que irão encontrar; algo as move, entretanto,
naquela direção: em certos casos, um excesso, em outros,
uma ausência. Seus freqüentadores se acostumaram
ao fato de que poucos visitantes permanecem entre eles,
e não têm expectativas de que seja diferente. De tão velho,
o corrimão se afasta de quem quer que se apóie nele.
O neófito se recompõe rapidamente. A primeira lição:
para entrar ali, conte apenas com sua própria força,
mais nada. Pois músculos suados se esquentam,
se esbarram, se agridem e se separam
em busca do equilíbrio perfeito entre velocidade,
potência e inteligência dos reflexos. O menor vacilo
custa alguns dentes, um filete de sangue no nariz,
uma dor no fígado, no baço, uma falta de ar... e de siso.
Pouco falam do que pensam ou sentem.
O conhecimento que um tem do outro é passado
pelos poros, pelos suores que se misturam
a cada esquiva mútua em que a lateral de um corpo
se esfrega na mesma lateral malcheirosa do corpo alheio,
pela velocidade dos jabs e dos tapas defensivos
tirando o punho do caminho da face, pela porrada
do explodir da luva nos músculos compactos e protetores.
É dessa maneira que hoje faço meus amigos.






A LUTA ANTES DA LUTA

Você sabe, de nada adianta rezar no canto do ringue.
Aquele que nele sobe, sobe sozinho.
As bravatas lançadas na hora da pesagem
e o peso da multidão colado em sua carne,
você sabe, lá em cima, só aumentarão seu abandono.
Você sabe também o preço que terá de pagar
se deixar que qualquer vagabundo desfigure
sua fisionomia. Mas é isso que você quer?
Não é isso que você quer. Aconteça
o que acontecer, não jogarei a toalha, não é para isso
que chegamos até aqui... Você ainda é muito novo
para perder, e sua família, muito necessitada. Você sabe,
você tem de deixar seu passado para trás, eu sei que você
não quer voltar para as ruas, para o crime, para a cadeia...
Portanto, quando subir lá em cima, eu lhe digo,
não deixe que o adversário veja medo em sua face:
se, ainda antes do primeiro soar do gongo, ele
vislumbrar uma mínima expressão de temor em seu rosto,
conhecerá o caminho mais rápido
para encontrá-lo durante o combate. Mas você
não terá nenhum instante de fraqueza nesse combate,
você está preparado, eu sei que você está preparado,
e você também sabe disso. Ninguém quer acordar amanhã
num quarto de hospital... você quer acordar
num quarto de hospital balbuciando palavras desconexas?
Ein? Você quer acordar num quarto de hospital,
com sua mulher chorando preocupada ao lado da cama?
Não, você não quer isso pra você nem pra sua família,
nem eu quero isso para o meu garoto de ouro. Por isso,
treinamos duro, por isso, treinamos tanto. Então, vá lá
em cima, já estão anunciando seu nome, suba
para o quadrado, suba, já começaram a tocar a música,
vá para o ringue e, no meio do entrevero,
por entre as saraivadas de golpes,
faça seu adversário sentir o peso do esquecimento
carregando-o para longe do estádio, carregando-o
para longe de todo e qualquer lugar.









A VOZ DO SANGUE, O SANGUE DA VOZ

Tanto silêncio no ringue, no ringue
e na fome, tanto burburinho zoando simultaneamente,
que não posso distingui-los. E mesmo antes dos golpes
na cabeça, e mesmo antes de qualquer golpe
revolvendo as entranhas pelo avesso
(antes dos 4.500 quilos por impacto), e, mesmo antes,
tanto silêncio no ringue, no ringue
e na fome, tanto burburinho zoando
simultaneamente, que não posso distingui-los.
O ringue é o ringue, a fome é a fome, mas no ringue
(como na fome, como na fome do ringue, como no ringue
da fome), o silêncio é silêncio e burburinho,
e o burburinho, burburinho e silêncio. Quando,
no canto do amparo – sentado, curativos imediatos,
os segundos trabalhando a meu favor, a respiração em busca de um ponto pacífico –, ouço a voz nítida do treinador
se erguendo do alarido da multidão e de ninguém,
não a escuto como um mandamento: infiel
e pecador, poderia traí-la. Escuto essa voz
desenrolar as últimas ataduras que envolvem o punho
do meu coração, espremê-lo ao sumo,
ao ponto de o gosto do sangue (de o gosto da fome) brotar comprimindo as gengivas por entre os dentes e o protetor,
me dando a certeza de que o próximo soar do gongo
será o último badalo com o qual meu adversário sonhará
antes de beijar a encardida lápide da lona.












SEM MIM, NADA DISSO SERIA POSSÍVEL

Desde o confuso princípio dos ringues,
quando não havia mãos para tocar a delicada espessura
e a cor do mundo era a mesma de um hematoma,
minha própria pele preta, ainda impalpável,
mas querendo extravasar-se como o sangue da vida,
já promovia o poderoso espetáculo: o combate
pela carne do tempo. Quem era eu, então? Um poeta?
Um deus? Uma ausência incansável de limites?
Um capitalista inventando o primeiro dinheiro,
o primeiro estádio (com ingressos pagos)
para o entretenimento de deuses vorazes? Ou apenas
uma força entre outras em busca de aventuras
cada vez maiores! Sim, era isto o que eu era
e o que jamais deixei de ser. Amo a coragem,
a miséria e a precariedade destes homens, com as quais
desenhei alturas para mim, para eles e muitos outros.
Amo até mesmo a inteligência superior que alguns
demonstraram ter... e o instinto de preservação de outros
que, pelo menos, não tentaram me desafiar. E amo
igualmente aqueles que, hoje mortos, se rebelaram
contra o meu poder: também eles fizeram minha fama
e minha fortuna. Trago feridas como todo o mundo,
mas deixo os lutadores se machucarem em meu lugar.






ARRANJO PARA ESSES CAMPEÕES DA PALAVRA

Não posso ser poeta, não sei contar histórias... Se eu fosse um toureiro, faria o público acreditar que eu estava a poucos centímetros da morte, mas manteria minha margem de segurança. Foi o que fiz no ringue. Nós, lutadores, compreendemos as mentiras. O que é uma simulação? O que é pensar uma coisa e fazer outra? Os melhores garotos são aqueles que até podem tomar um murro na cara, mas são inteligentes o bastante para não o querer. Quando soa o gongo, somos apenas duas solidões. Não temos medo de apanhar, mas temos medo de perder. Uma derrota no ringue não se compara a nenhuma outra. Eu combatia com qualquer um. Não me interessava quem eram. Era simplesmente indiferente para mim. Eles me batiam, eu não me importava. Quando estou no ringue, luto pela minha vida. A luta pela sobrevivência é a única luta. Por cinco dólares, eles podiam me golpear no queixo com uma marreta. Quem já ficou dois dias sem comer poderá entender. E comer é um vício difícil de largar. Quando se luta, se luta por uma coisa: dinheiro. Acho que o campeão que eu sou hoje é pela dificuldade que eu passei. Nunca fui nocauteado. Já estive inconsciente, mas sempre de pé. Detesto afirmar isso, mas é verdade: quando começa a doer, é quando eu mais gosto deste negócio. Quando vejo sangue, fico como um touro. Sou um animal selvagem, inimigo declarado de toda a raça humana. Uns dizem que sou arrogante, outros, que preciso de uma boa surra, e outros, que falo muito. Mas eu garanto o que digo. Eu não quero nocautear meu adversário... quero golpeá-lo, me afastar e vê-lo ferido. Quero o seu coração. Ele pode fugir, mas não pode se esconder. Tento acertar na ponta do nariz do meu adversário porque tento lhe enfiar o osso no cérebro. Se abrirem minha careca, vão encontrar uma grande luva de boxe. É tudo o que sou. É disso que vivo. Celebridade? Eu? O pessoal lá de onde venho diz que eu sou um vagabundo sortudo que sabe dar umas porradas. Quando você não é mais o campeão, está sozinho. Alguns ficam insanos, outros começam a beber, pois o boxe é muito intenso, e muita gente se perde. Você agüenta até certo ponto, depois quebra. Tenho tudo de que preciso: o médico mora aí em frente, o farmacêutico trabalha na esquina; daqui, posso ver a câmara-ardente, e o cemitério é logo ali embaixo na rua.



***









Do livro: A FRONTEIRA DESGUARNECIDA
(POESIA REUNIDA 1993-2007 / Azougue Editorial)


5/03/2016

Museu da Cultura (Puc-SP) : Exposição Yanomami


Museu da cultura (PUC - SP)


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A EXPOSIÇÃO YANOMAMI 
PROSSEGUE ATÉ O DIA 19/05
DE SEGUNDA A SEXTA, 
DAS 14 ÀS19HS. 











FRAGMENTOS DE UMA ANTROPOLOGIA YANOMAMI 1:

“Depois de ter voltado a trabalhar para a Funai, tinha visto os brancos rasgarem o chão da floresta para construir uma estrada. Eu os tinha visto derrubar suas árvores e queimá-las para plantar capim. 

Eu conhecia o rastro de terras e de doenças que deixam atrás de si. Apesar disso, sabia ainda pouca coisa a respeito deles. Foi quando garimpeiros chegaram até nós que realmente entendi de que eram capazes os napë! 

Multidões desses forasteiros bravos surgiram de repente, de todos os lados, e cercaram em pouco tempo todas as nossas casas. Buscavam com frenesi uma coisa maléfica da qual jamais tínhamos ouvido falar e cujo nome repetiam sem parar: oru – ouro. Começaram a revirar a terra como bandos de queixadas. Sujaram os rios com lamas amareladas e os enfumaçaram com a epidemia de xawara de seus maquinários. Então, meu peito voltou a se encher de raiva e de angústia, ao vê-los devastar as nascentes dos rios com voracidades de cães famintos. 

Tudo isso para encontrar ouro, para os outros brancos poderem com ele fazer dentes e enfeites, ou só para esconder em suas casas! (...) 

Se deixarmos os garimpeiros cavarem por toda parte, como porcos-do-mato, os rios da floresta logo vão se transformar em poças lamacentas, cheias de óleo de motor e lixo. (...)

Todas essas coisas sujas e perigosas fazem as águas ficarem doentes e tornam a carne dos peixes mole e podre. (...) Os donos das águas são os espíritos das arraias, dos poraquês, das sucuris, dos jacarés e dos botos. Eles vivem na casa de Tëpërësiki, seu sogro, com o ser do arco-íris, Hokotori. Se os garimpeiros sujarem as nascentes dos rios, todos eles morrerão e as águas desaparecerão com eles. Fugirão de volta para dentro da terra. Aí, como poderemos matar nossa sede? Morreremos todos com os lábios ressecados. (...) 

É por tudo isso que não queremos garimpeiros na floresta em que Omana criou nossos ancestrais. O pensamento desses brancos está obscurecido por seu desejo de ouro. São seres maléficos. Em nossa língua, os chamamos de napë worëri pë, os “espíritos queixada forasteiros”, porque não param de remexer os lamaçais, como porcos-do-mato em busca de minhocas. Por isso também os chamamos de urihi wapo pë, os “comedores de terra”.

Davi Kopenawa, Xamã Yanomami – Livro A queda do céu.








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A EXPOSIÇÃO YANOMAMI 
(Museu da Cultura - PUC-SP) 
RECEBEU A VISITA DE 40 CRIANÇAS
(1º ano fundamental) 
DA ESCOLA EMEFM GUIOMAR CABRAL
(Pirituba-SP).