12/17/2013

José Gil : entre o excesso e o devir




[lógica do excesso]

Sempre bom reencontrar José Gil, sobretudo nessa condição de reencontro com ‘a parte da repetição’ do pensamento da diferença [com GD], mas indo um pouco mais, alcançando a radicalidade de um pensamento que revolve entre o excesso e o devir. E assim [numa espécie de teatro do excesso ou sistema excessivo] segue Gil e seu belo livro, agudo como o Punk Rock de Álvaro de Campos: “Ir, ir, ir, ir, de vez! Todo o meu sangue raiva por asas”.

Nilson Oliveira






 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

12/12/2013

Polichinello 15 : poéticas da transgressão




Polichinello 15 | poéticas da transgressão


NÚCLEO EDITORIAL
Nilson Oliveira
Ney Ferraz Paiva
Izabela Leal
Ramon Cardeal
Alberto Pucheu
Ricardo Pinto Souza
João Camillo Penna
 
EDITORA DE ARTE
Eliane Moura


 
LANÇAMENTO EM JANEIRO!!!

 












Jean Luc Nancy



Cy Twombly





Giorgio Agamben













Giorgio Agamben
Tradução: Luiz Guilherme Barbosa
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10/24/2013

Notas (transitando em torno da comunidade)



Nilson Oliveira 


Deveria ter sido o outro (MB), mas e ele quem diz amparado por uma experiência absolutamente distinta na direção (em pensamento e realidade) do cumprimento da exigência comunitária. Bataille nos diz (do fundo mais fundo do esvaziamento do comum):

“O perfeito desregramento (o abandono à ausência de limites) é a regra de uma ausência de comunidade”

E ainda (o passo além):

“não é permitido a quem quer que seja não pertencer à minha ausência de comunidade”
 
 
***


Foto: Pablo Picasso, Diane, Georges Bataille, Michel Leiris (de costas),
ouvindo Manuel Angeles Ortiz  (24/09/1950
 







 

10/23/2013

ser-em-comum | em torno de uma experiência inconfessável


 

COMUNIDADE | AMIZADE


“Blanchot- Nancy - Bataille - Derrida - uma comunidade {para além dos vínculos utilitários individualizantes} na qual o outro ocupar efetivamente o papel de outro”

“Amizade sem divisão e sem reciprocidade, amizade para o que passa sem deixar rastro, resposta da passividade à não-presença do desconhecido”.

 
“A amizade não é um dom nem uma promessa. Relação incomensurável de um para o outro; ela está relacionada com o de fora na sua ruptura e na sua inacessibilidade”.

  


 




 


 
 

 


 













UM PONTO EM-COMUM CINTILANDO FORA DO QUE NOS É DADO COMO POSSÍVEL:: UM PONTO ALI [TALVEZ] NO IM-POSSIVEL

 

entre  N | D

 

“TALVEZ essa comunidade (essa amizade) seja impossível. Exato. TALVEZ o impossível seja a única oportunidade de qualquer novidade, de qualquer filosofia da novidade. TALVEZ, TALVEZ na verdade o TALVEZ nomeie ainda esta oportunidade. TALVEZ a amizade, se ela existe, deva corresponder ao que aqui aparece com o impossível”

Derrida | Politiques de l'amitié

 

***

 

“Qualquer que seja o valor que concedamos ao verdadeiro, à veracidade, ao desinteresse, poderia acontecer que nos víssemos obrigados a atribuir à aparência, à vontade da ilusão, ao egoísmo e à cobiça, um valor superior e mais essencial à vida; poder-se-ia chegar a supor inclusive que as coisas boas têm um valor pela forma insidiosa em que estão emaranhadas e TALVEZ até cheguem a ser idênticas em essência às coisas más que parecem suas contrárias. TALVEZ! ... mas há quem se preocupe com esses perigosos 'TALVEZ'? Esse terá que esperar a chegada de uma nova espécie de filósofos, diferentes em gostos e inclinações (...): filósofos do perigoso 'TALVEZ', em todos os sentidos da palavra”

Nietzsche | Além do bem e do mal

 

 
 
 
 
 



















 

 

10/17/2013

Anti-Retratos │ por Alberto Pucheu


Imagem: Gil Maciel: http://cargocollective.com/gilmaciel#Cartazes
 


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Anti-Retratos │ por Alberto Pucheu
 

Não autorizo de modo algum que algum usurpador em mim escreva minha autobiografia. Quem quiser que faça minha autobiografia sem autorização prévia. Só não diga depois que é minha. Tudo de que alguém em mim pode se apropriar em mim não me interessa. Só me interessa o que alguém em mim pode escrever para me livrar de mim. E, em defesa de minha privacidade, não abro mais a boca, porque vivo traindo o que nem sei de mim em mim, e tudo que falo de mim me torna, na fala, público, passível de ser uma autobiografia já feita por algum usurpador de mim.
 
 
 ***

 
Biografias de quem? Possuir na escrita a vida de alguém? Quem sente sua vida tomada por uma biografia? Em que medida uma vida é possuída? Que autoria ou autoridade se tem sobre uma vida? Quem é esse - o poeta?

“O poeta é fora de si” – Platão

 “[O poeta] não tem identidade” – Keats

 “Se então [o poeta] não tem um si mesmo, e se eu sou um Poeta, onde estaria a Surpresa se eu dissesse que eu não escreveria mais?” - Keats

 “É algo vergonhoso confessar: é um fato certo que nenhuma palavra que jamais pronunciei pode ser tomada como uma opinião nascida de minha própria natureza – como poderia ser, se não tenho nenhuma natureza?” – Keats

 “Se os velhos imbecis tivessem descoberto algo mais que a falsa significação do Eu, não teríamos de varrer esses milhões de esqueletos que, desde um tempo infinito, vêm acumulando os produtos de sua inteligência caolha, arvorados em autores! [...] Porque Eu é um outro. Se o cobre acorda clarim, nenhuma culpa lhe cabe. Para mim é evidente: assisto à eclosão de meu pensamento: eu a contemplo, eu a escuto” – Rimbaud

 ”Hoje, já não tenho personalidade: quanto em mim haja de humano, eu o dividi entre os autores vários de cuja obra tenho sido o executor. Sou hoje o ponto de reunião de uma pequena humanidade só minha” – Fernando Pessoa

“A origem mental dos meus heterônimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização” – Fernando Pessoa

 “A escrita é destruição de toda a voz, de toda a origem. A escrita é esse neutro, esse compósito, esse oblíquo para onde foge o nosso sujeito, o preto-e-branco aonde vem perder-se toda a identidade, a começar precisamente pela do corpo que escreve” – Roland Barthes

 “Na escrita [...] não se trata da amarração de um sujeito em uma linguagem: trata-se da abertura de um espaço onde o sujeito que escreve não para de desaparecer [...] a marca do escritor não é mais do que a singularidade de sua ausência: é preciso que ele faça o papel do morto no jogo da escrita” – Michel Foucault

 “Se chamarmos o gesto o que continua inexpresso em cada ato de expressão, poderíamos afirmar então que, exatamente como o infame, o autor está presente no texto apenas em um gesto, que possibilita a expressão na mesma medida em que nela instala um vazio central [...] Sua vida é apenas jogada, nunca possuída, nunca representada, nunca dita – por isso ela é o lugar possível, mas vazio, de uma ética, de uma forma de vida [...] O autor é o ilegível que torna possível a leitura, o vazio lendário de que procedem a escritura e o discurso” – Giorgio Agamben.
 
 
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Alberto Pucheu / Poeta e professor de Teoria Literária da UFRJ (pesquisador do CNPq) autor de diversos livros de poesia e teoria, sendo o mais recente A fronteira desguarnecida (poesia reunida 1993-2007), e Pelo colorido, para além do cinzento – A literatura e seus entornos interventivos, ambos pela Azougue Editorial, 2007.








 
 
 
 
 
 
 

 

10/09/2013

9/19/2013

Grupo de pesquisa Difere: O LUGAR DA EXPERIÊNCIA NO ESPAÇO LITERÁRIO



CONVITE GRUPO DE PESQUISA DIFERE
TEMÁTICA: Escritura da Diferença.
PALESTRA: O LUGAR DA EXPERIÊNCIA NO ESPAÇO LITERÁRIO 
(excurso em torno das razões de uma aventura literária).

DATA: 26/09 - LOCAL: ICED - UFPA (Universidade Federal do Pará)










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UFPA /  R. Augusto Corrêa, 1 - Guamá, 
Belém - PA, 66075-110, Brasil









































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8/18/2013

XXI POEMAS │ PAULO PLÍNIO ABREU










Paulo Plínio Abreu [Belém PA │1921-1959] fez parte da geração de Mario Faustino, Benedito Nunes, Max Martins. Tradutor de Rilke e T.S.Eliot. Foi publicado (postumamente) em 1978 pela Universidade Federal do Pará.






POESIA DO LITORAL 
Por Ney Ferraz Paiva


Oh, naufrágio, oh, sol, presa complacente da
tinta possessiva com que tudo se inscreve.
Todo o livro é um livro de bordo.
Edmond Jabès

O título “Poemas” evoca os elementos provisórios de uma obra marcada indelevelmente pelo precário - este precário que em Paulo Plínio Abreu constitui o início e o fim de uma viagem que nunca inicia nem termina, antes está fadada a ser uma espécie de emblema da corrosão, da doença, da ruína. Não é uma poesia da contemplação, a isto ela se esquiva; é uma poesia do litoral, do lançar-se, da navegação. Entretanto, as bordas que aqui se esgarçam de súbito se comprimem num acontecimento de vertigem, incêndio, naufrágio. Poesia e narrativa épica reconstituem o uivo aterrador da destruição. A primeira palavra, do primeiro verso, desta série de vinte e um poemas que o poeta organizou, estabelece de imediato a unidade e a ordem de uma história que é a repetição e a diferença de um mesmo desastre mítico-lendário: “Barco” rumo a Tróia incendiada. Uma viagem armada para o combate fatal. No entanto o que a poesia celebra aqui, é a força guerreira dos que sucumbem pelo caminho, dos que não chegam, nem regressam. Do comedor de fogo e do Polichinelo. Uma tripulação sem nome. Sobre ela a calamidade de noites e ventos que não cessam. A viagem torna-se exílio e punição; a vitória, o duplo da derrota. Uma travessia que não se completa. Paulo Plínio Abreu multiplica uma vez mais o pensamento antigo de uma Grécia a que todos retornam – de Baudelaire a Jorge Luis Borges, de Murilo Mendes a Mário Faustino – para dar forma a um herói moderno. Ligado a essa tentativa, nosso narrador-poeta não se define pela rota nem da Ilíada nem da Odisséia. Ele proclama a metáfora do limiar. Se a beleza de Helena promove a errância dos homens, ela mesma converte‐se num impedimento. “Diante de tua beleza as coisas se apagaram. /És o golfo onde escondi meu barco doente/e a cripta onde deporei meus mortos...”. O malogro aqui se antecipa e se renova, fazemos parte dele, a cidade sitiada e tomada onde vivemos, nossa sensibilidade bélica. Rastejamos a tempestade.


Ney Ferraz Paiva. Poeta, autor de Val de Cães (2012); Eu queria esta com vocês hoje (2013).




XXI POEMAS  PAULO PLÍNIO ABREU




I


O barco e o mito
Barco de madeira construído no ar para a viagem do mito.
Nau feita de vento
e força de um pensar antigo.
Tua quilha tem o sabor do sal das águas fundas
e de um peixe que atravessou a garganta de um morto.

Na tua vela tracei o emblema da rota
que um dia imaginei olhando a Grande Ursa
nos caminhos da noite. Nau sem porto,
as águas te seduzem e contigo me arrastam.
Barco feito de mito,
construído no espaço
com a matéria das nuvens.
Nau feita com o bico de uma ave
e um desejo de fuga.
Nau que a ti mesma te armaste
do nada que podemos.
Nave do nada feita e quase ave
desfeita em vôo puro e quase mito.



2
Ode na praia do Leme
A noite é tua prostituta do Leme.
E com ele dissolves a pobreza dos homens
no mito de tua carne.
O vento vem do mar e dos navios que passam
carregados de vento e sal para as Antilhas.
A morte vem das ilhas
trazida pelo vento desta noite
nesta praia deserta.
A noite é tua, nela está o emblema
da tua posse esquiva, e os seres se incorporam
ao casco dos navios
e sem partirem vão‐se para sempre.



3

Poema
Diante de tua beleza as coisas se apagaram.
És o golfo onde escondi meu barco doente
e a cripta onde deporei meus mortos.
Ave e orvalho, mulher e cornamusa.
Somos irmãos no mito
e eis que te refaço
com a seiva de meu ser.
De ti recolho este secreto espanto,
este secreto mel.
Em ti refaço a viagem não feita, o riso não rido e o amor não amado.
És a beleza mesma adiada no tempo
e nos outros a necessidade de sua perfeição.



4

Madrugadas de um estranho encanto
Madrugadas de um estranho encanto
que me comoveis
como o vento e o sossego
das tardes de um sempre
e das noites que nunca
descobri no puro ou impuro canto.
A luz escarlate
baixava como um inseto
na varanda perdida.
Um pássaro morto caía de súbito entre plantas
de um antanho desejo
que o orvalho molhava
e era espanto mesmo
no corpo da noite
despovoada e fria
com as agonias
de um frustrado espasmo.



5

Elegia

Por que de estranhas terras eu te acompanho lua solitária
E durmo ouvindo os teus passos de anjo pela noite
Quando os velhos desejos desaparecidos voltam à flor das ondas
E a noite do exílio levanta as suas árvores de sonho,
De um tempo imemorial eu acompanho as tuas viagens,
Tu que vestes os mortos com o que cai do coração dos vivos
Eu te acompanho pelo céu escuro
Sentindo como tua a vertigem da morte que anuncias.
Tu que de um tempo longo ergues teus olhos sobre o tempo
E apenas náufragos aportam a esse país estranho em que tu vives.
Ouço tua voz cair no mar da madrugada
Para que o céu se deite sobre ti como um sepulcro
E as estrelas brilhem nesta noite escura como incêndios.



6

O comedor de fogo
Veio do comedor de fogo e de seus milagres a esperança impossível.
Do comedor de fogo e de seus milagres à porta de sua tenda
Onde dormiam os cães numa nuvem de moscas.
Veio do comedor de fogo a esperança dos mundos impossíveis.
Veio dessa lembrança hoje apagada pelo tempo o sombrio desejo de evasão.
Veio do comedor de fogo a visão da vida aberta como um grande circo
E o convite irreal para a distância onde se esconde a morte.
Até o amor se perdeu nessa lembrança de um estranho comedor de fogo
E toda a infância confundiu-se com os milagres desse saltimbanco
E de seus cães doentes à porta de sua tenda.




7

O polichinello

O seu segredo era como o dos outros.
Seus olhos eram de vidro azul
e na boca vermelha
o riso da ironia.
O humor profundo, amargo e doloroso
vinha de sua boca;
o riso da sabedoria
e do desespero
gritava da sua boca aberta em sangue.
O riso do polichinelo
vinha do coração ausente, era uma advertência.
Era apenas o riso
e falava de um mundo
maior que sua alma.



8

Viagem ao sobrenatural
Mundo pressentido e oculto
na palavra anjo à porta de Tobias,
na viagem não realizada mas da qual se trouxe
um pássaro que não pertence a nenhuma fauna
e um peixe de fogo;
na palavra mãe onde há o mistério
do cotidiano incompreendido;
na palavra mosca onde se faz presente
o desespero da escolha entre o mal e o deserto;
na palavra rosa,
corpo e essência do efêmero.
Na imagem vista no espelho,
a boca e os olhos na voragem do tempo
oferecem o amor, puro e inacessível.
A voz presa no disco da vitrola
é apenas o outro lado eterno.



9

Soneto
Antes pudesse o Aquário refletir-se
nas águas do teu pranto, o teu olhar semita
conduzir-me como nos céus o vento
arrebata uma estrela e anuncia
morte, desolação, naufrágio, amor.
Mas preso no sargaço escuro
de um póstumo canto, ajunto fragmentos
de mim, de minha infância, e o gosto
de uma majestosa e angélica beleza.
A salvação não quero, antes perder-me
e achar-me como hoje repartido
em fragmentos de amor na púrpura da tarde,
reconhecido em múltiplos cantares,
ou nas ardências de um postremo dia.




10

Poema primitivo
Não esculpirei meu sonho sobre as nuvens
pois que elas se perdem nos ermos do céu
e um dia voltam para molhar a terra.
Nem sequer o amianto me parece seguro
para guardar desse fogo a ânsia mais veemente
ou o delírio mais casto.
A poeira se esvai
e os que passarem a levarão consigo
embaixo dos sapatos
como os mortos a receberão sobre os olhos.
Na pele de um deus
não estará seguro
pois breve é o respeito dos homens
e o amor das mulheres.
Talvez na asa direita de um pássaro
ou no seu bico agreste.
No fundo mesmo do mar não estará seguro
pois que os ventos poderão arrebatá-lo
para atrelar sua força à cauda dos veleiros.
E assim não haverá lugar
onde escondê-lo.
Sonho que esculpirei então no tempo
que não é dos homens
e que morre e renasce a cada instante
no peito donde brota
a chama deste amor tão puro.



11

Poema sobre a morte
Ela virá dos mares.
Sentiremos o mistério dessa atração irresistível.
Sentiremos o frio em que desabrochará essa flor maravilhosa
Que perdida no inverno era o destino informe e desconhecido.
Ela virá dos mares como as perdidas aventuras
E será o convite fatal.



12

Ode à minha alegria
De ti que poderei fazer se me dominas
como a viagem ao viajante
e os ventos do mar aos pássaros que voam?
De um território vens, profundo e largo,
em ti caminham vozes
que outras vozes acordam, em ti caminham dores
há muito apaziguadas.
Em ti passam corcéis de fogo
que sobre a pele deixam a marca do silêncio,
em ti flutuam sonhos.
De onde vens, para onde vais quando me tocas
com a ponta dos teus dedos?



13

Fragmento
Na rosa de ontem
vi o mistério do corpo
fechado aos segredos da morte.
No efêmero eterno
um dia concebido
vibrante e inconstante
o segredo de estar em véspera de sono.
A delícia do amor
jamais celebrada,
as mãos que se entregaram
as lembranças que vêm de longe
frias como a noite.
O desejo que cresce mudo sem palavras.
As chaves do mundo
para sempre perdidas.



14

Suicídio
Inevitavelmente os cães uivarão dentro da noite
e o vento sacudirá as árvores frias do jardim quando tu fores.
E o medo virá como um abraço inevitável.
Os vermes subirão da terra e se postarão nos degraus da escada à espera da morte.
A música que todos ouvirão será a tristeza
e o silêncio chegará ninguém saberá donde:
todas as portas estarão fechadas,
todos os homens estarão dormindo.



15

A estranha mensagem
Ele veio nas trevas quando havia silêncio
e de novo trouxe a ternura dos galhos tombando para a madrugada.
Eu subi do fundo do mar como um líquen liberto
para ouvir a sua voz que era imensa
e trazia a ansiedade das flores explodindo,
mas só vi o silêncio enorme como a noite.
E ela chorou dentro de minha tristeza
porque era como a revelação do que eu havia perdido.
Ainda trazia nas mãos o frio dos troncos úmidos da noite,
e nos olhos a humildade da terra encharcada de chuva.

Um dia eu descerei verticalmente e para sempre
ao fundo deste mar onde ela mora
como um barco de pescadores desaparecidos.


16

Recomposição do enigma
Venho do fulgor de tua beleza
e espero o eclipse que deveria ter-te anunciado.
Sou quem não foi senão espanto
mas quem tua beleza bebeu e embriagou-se
num porto dessa Tróia incendiada.



17

Lembranças de um espantalho
Lembro-me que era um espantalho
e que balançava no ar
no caruncho da tarde o seu frágil corpo de pano
tanto mais terrível quanto mais humano
pois algo havia de humano
no ar da tarde ou no espantalho
que me lembro ter visto.
Era só um espantalho
agitado no ar pelo vento da tarde.
A chuva caía-lhe na cabeça grotesca.
Um verme subia no seu corpo
para roer-lhe a madeira.
E eu quis pousar no seu ombro
o meu cansaço de ave.
Mas algo havia no seu ser
que me aterrou.



18

Envoi
Nesta noite tosca
recolho os pássaros feridos,
as estrelas mortas
e as naus que encalham
no país do algures.
Nesta noite vazia
recolho o que perderam
as aves no seu vôo,
o que os peixes trouxeram,
o que as águas à praia
lançaram inutilmente:
o resto da salsugem
dos mares apagados;
o corpo dos suicidas,
os resíduos humanos
o que é reles ou torpe
conchas do mar espesso,
cabeças de hipocampos,
o vento que violento
soprar do céu noturno;
o nada que nos seres
se encorpa e faz-se engulho;
o corpo do espantalho
e o negrume da noite
para fazer com isto
uma dádiva inútil
numa hora vazia.



19

Poema
No puro o impuro
na solidão a voz
no morto a vida extraordinária
me sacudiram
como um dia as grades do colégio
sacudimos com as mãos.
Pássaros voavam em direção à noite.
Éramos puros
Mas na pureza a impureza
em nós estava
e nos guiava por um caminho maravilhoso.
Não existiam sinais no céu
para guiar-nos.



20

Noite
A noite sacudia as árvores dormidas
e afagava a plumagem dos pássaros nos galhos.
Lembro que o vento espertava o silêncio no ar
e na quilha dos barcos afogados.
Noite que chamava os mortos
e fazia chegar a mim o seu chamado
do ermo em que jazia.
Noite em que do céu caiu o fruto da vida e não colhemos.
Noite despojada de todos os artifícios.
Despregada da grande árvore do nada
e carregada de tudo
em viagem para um tempo sem fim.



21

Canção azul
O tempo chegará
da palavra invisível
transformada em pássaro
e que acorde lembranças
há muito esquecidas
no coração sepulto.
O tempo afinal virá
o tempo sem limites
em que os enforcados
mortos e vivos
e uma lua romântica
das noites da infância
voltem a dançar
no ar da manhã.














PENSAMENTO E INTENSIDADE NA POESIA DE PAULO PLÍNIO ABREU
Por Nilson Oliveira


I
A poesia de Paulo Plínio Abreu tem um vigor que, tal como todo grande projeto literário, confronta o tempo, rivalizando ombro a ombro com o presente e lançando questões [imagens inusitadas] que, pela potência intempestiva, remetem o pensamento literário para as vertebras do por vir. Seus poemas nos trazem uma experiência de desenraizamento, ou seja, de um deslocamento do estabelecido, do que está amarrado a uma cultura do mesmo, pois há na escrita de Paulo Plínio Abreu um sinuoso jogo movediço, no qual as imagens deslizam pela superfície do não familiar. É sempre uma cena de estranhamento ou de novas imagens. Com Ele não há planos fixos, mas vôos, ventos, ondas: “O vento vem do mar e dos navios que passam / carregados de vento e sal para as Antilhas”: Ode na praia do Leme. A poesia de Paulo Plínio é sempre um êxodo, um fluxo operando por “linhas de fuga”, o que consiste em pensar de outra maneira, erigindo uma outra paisagem para a cena literária, pensando o não pensado do pensamento. Corte finíssimo, abertura, pensamento que é pura duração: “Nele a cada instante, o movimento já não é, mas isso porque, precisamente, ele não se compõe de instantes, porque os instantes são apenas as suas paradas reais ou virtuais, seu produto é a sombra de seu produto. O ser não se compõe com presentes. Portanto, o produto é o que não é e o movimento é o que já era. Em um passo veloz, os instantes e os pontos não são segmentados”. Essa é a cadência da Poesia de Paulo Plínio, matéria e acontecimento, feixe aberto no horizonte, já não há presente ou passado, apenas duração. Nela o poeta descortina o seu próprio conceito de tempo e, com isso, sedimenta sua obra: “Nau sem porto, /Barco feito de mito, construído no espaço /com a matéria das nuvens”: O Barco e o Mito. Nessa direção, mergulha ao fundo de cada empreendimento, contudo deslocando-se para um ‘sem fundo, que se abre – continuamente – noutras experimentações do fazer literário: “As palavras foram na infância os seus brinquedos / e não compreendeu mais tarde a sua própria linguagem / cheia de estranhos sinais; o coração adolescente / dormiu nas estrelas em obscuras viagens”: O Mistificador. Trata-se, sem dúvida, da infância desenhada como a imagem que se transforma constantemente – o devir criança do pensamento, alheio às regras da lógica, que produzi uma palavra que não cede e a um só tempo não se deixa nomear. Paulo Plínio foi uma singularidade. Quanto à sua poética, não se deixou alinhar pelas tendências predominantes de sua época, estando desde sempre „fora do lugar, navegando, tal como nos diz Francisco Paulo Mendes: pelas “Iluminações, para qual a poesia é o reflexo ou lampejo de uma outra realidade, oculta, transcendente” [1]. Há na poesia de Paulo Plínio uma miríade de encontros, uma verdadeira nutrição expressa em influências determinantes [Rimbaud/ Mallarmé], que remetem o poeta para um círculo mais exigente. Esse é o seu investimento, o combate na direção dos encontros, mas também, dos deslocamentos, estando desde sempre em movimento, sendo sempre outro. A sua escrita age silenciosa e encontra no sujeito a decisão de não ser, que consiste no desejo nômade de convocar o ausente para tornar real sua presença – fora do sujeito e do mundo –, na sua realidade de escritura. Seu lugar é o não lugar. Esse é seu combate, sua matéria de fim e de começo, ofício de interminável busca.

II
Mas há também Rilke, e é com ele que Plínio trava sua experiência decisiva, mergulho intenso, encontro, deflagração no sentido de uma produção, pois há um efeito rilkeano na escrita de Paulo Plínio. Nessa direção afirma Paulo Mendes: “Um dos aspectos da poética de Paulo Plínio a exigir atenção é o da sua temática. São numerosos os temas: o da viagem, o de uma região maravilhosa, o do amor e da amada, o da infância, o do anjo, o da pureza, etc. E dominando todos esses o tema da Morte. Como se verifica, ainda uma temática rilkeana” [2]. Efeito que nada tem a ver com “fazer parecido”, isto é, de repetir o que o poeta disse, mas de produzir semelhança, arrastando “o texto ora para as margens, ora para o meio, ora para o fora ou o dentro, em uma escrita-experimento, sem dualidades, todavia, com o rigor necessário próprio à interpretação como musicalidade cuja potência criativa exige uma espécie de ascese do texto” [3]. O tema da morte torna-se um ponto de interação entre Plínio e Rilke, ambos navegando na mesma Rota, cada um à sua maneira, interpretando, produzindo multiplicidades. Criam, a partir do tema da morte, suas próprias noções, são retratos mentais, mas um só tempo maquínicos. Neles a morte é pensada como algo intimamente ligado à vida: “Tu que veste a morte com o que cai do coração dos vivos”, nos diz Paulo Plínio; ou “o morrer que seja verdadeiramente parte desta vida”, como afirma Rilke. Tanto em um caso como em outro é a morte acontecendo como algo que é “nosso”, mas que não nos cabe controlar. Como não pensar em Hölderlin: Viver é uma morte, e a morte também é uma vida. Por certo Hölderlin foi a referência silenciosa que frequentou as leituras de Rilke e Paulo Plínio. Poderoso encontro tríplice, bela experiência de atravessamento, portanto de Afecção, “efeito de um corpo sobre o outro”, e também feito sobre minha própria produção, prazer ou dor, alegria ou tristeza. As afecções “são passagens, devires, ascensões e quedas, variações contínuas” [4]. O poder de ser afetado em Paulo Plínio Abreu desdobra-se na potência que engendra uma prática de escrita, o que implica num fazer desejoso que faz da escrita um instrumento de ação, verdadeira máquina abstrata, sempre aberta, sempre por fazer-se, que combate pela criação de outra paisagem para a literatura: “mundo pressentido e oculto” [Viagem ao sobrenatural]; mundo fora do mundo, realidade que se concretiza por esse fora: “é na realização desse fora que começa a criação literária” [5]. O Fora é uma tempestade de forças não estratificadas, informes, um espaço anterior, no qual as coisas não são representativas, mas singulares, como uma linguagem outra, fora do usual, fruto de uma experiência da escrita. Um Exercício de Estilo: “é escrevendo que se vira escrevedor”. Nessa formula escrever torna-se uma experiência outra, trabalho de artesão, na direção do indeterminado da escrita. A literatura é uma saúde. A saúde como literatura consiste em inventar um povo que falta. Fazer-se estrangeiro na sua própria língua, criando um devir outro da língua: “uma minoração da língua maior”. Já não se trata mais simplesmente de fazer o texto, mas criar outra sintaxe, algo que não parte do preexistente, que inventa sua própria lógica de uso das palavras, elevando a linguagem a seu limite, valendo-se de “algumas palavras que ainda não tenham idioma” [6], lançando a escrita para zonas de inventividade, para um espaço de criação. Criar é, nesse sentido, produzir forças, como a dos Poemas de Paulo Plínio, uma verdadeira tempestade de sons, traços, imagens, um bloco de multiplicidades em que o estilo denota uma potência e a um só tempo nos revela a criatividade do seu fazer artístico.

III
Dentro do panorama literário de nossa época, a poesia de Paulo Plínio Abreu ocupa um lugar singular. É difícil classificá-lo entre as experiências do presente, sempre tão associadas a um fazer territorializado no qual a escrita é sempre a expressão de uma identidade. Acreditamos que “o primado da identidade, seja qual for a maneira pela qual esta é concebida, define o mundo da representação. Mas o pensamento moderno nasce da falência da representação, assim como da perda das identidades”[7]. É da falência do mesmo que jorra a poesia de Paulo Plínio, nave do nada sempre em movimento, se desloca, na velocidade das correntes marítimas, quase imperceptíveis, mas sempre indo.

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Há seguramente um caráter inovador na poesia de Paulo Plínio, uma abertura evidente que cintila na esfera das palavras, e nela a poesia dobra-se em fluxos de intensidades: “a luta do poeta não é / com o anjo,/ mas com o verbo”: A arte poética:  A sua postura é singular, está deliberadamente fora dos clichês e dos axiomas da identidade: “As chaves do mundo / para sempre perdidas”: Fragmentos. Em Paulo Plínio a poesia de transcorre por fora de toda significação, rumo a uma direção própria: “Nau sem porto/ as águas te seduzem. Escrita líquida, Nave do nada feita e quase ave / desfeita em vôo puro”: O Barco e o mito. Nave que não se rende a sistemas ou arborescências, pois acontece exterior à gramática da representação, navegando pelas margens numa viagem em que não existe início ou fim, mas vontade do novo, num vigoroso processo de trabalho pela reinvenção da matéria escrita. Paulo Plínio combate em favor da palavra, descortinando em cada frase, fragmento, poema, imagens que compõem outra fisionomia; é um extraordinário caso de ruptura. Sua jornada acontece desviando-se dos pontos e fronteiras, avançando pelo meio do mar, do deserto, de um país estrangeiro; gerando afectos, trocas, devires. Assim, pelo meio, Paulo Plínio atravessa a superfície do contemporâneo expressando sua vontade de potência, sua força de criação.


Nilson Oliveira. Editor da revista Polichinello; autor de (org.) Nietzsche/Deleuze: natureza/cultura (Lumme, 2011)