5/10/2015

Nós dizemos revolução | Beatriz Preciado









NÓS DIZEMOS REVOLUÇÃO
Beatriz Preciado






Parece que os gurus da velha Europa se obstinam ultimamente a querer explicar aos ativistas dos movimentos Occupy, Indignados, handi-trans-gays-lésbicas-intersex e postporn que não poderemos fazer a revolução porque não temos uma ideologia. Eles dizem “uma ideologia” como minha mãe dizia “um marido”. Pois bem, não precisamos nem de ideologia nem de marido. As novas feministas, não precisamos de marido porque não somos mulheres. Assim como não precisamos de ideologia porque não somos um povo. Nem comunismo nem liberalismo. Nem o refrão católico-muçulmuno-judeu. Falamos uma outra linguagem. Eles dizem representação. Nós dizemos experimentação. Eles dizem identidade. Nós dizemos multidão. Eles dizem controlar a periferia. Nós dizemos mestiçar a cidade. Eles dizem dívida. Nós dizemos cooperação sexual e interdependência somática. Eles dizem capital humano. Nós dizemos aliança multi-espécies. Eles dizem carne de cavalo nos nossos pratos. Nós dizemos montemos nos cavalos para fugir juntos do abatedouro global. Eles dizem poder. Nós dizemos potência. Eles dizem integração. Nós dizemos código aberto. Eles dizem homem-mulher, Branco-Negro, humano-animal, homossexual-heterossexual, Israel-Palestina. Nós dizemos você sabe que teu aparelho de produção de verdade já não funciona mais… Quanto de Galileu precisaremos desta vez para re-aprender a nomear as coisas, nós mesmos? Eles nos fazem a guerra econômica a golpe de facão digital neo-liberal. Mas nós não choraremos a morte do Estado-providência, porque o Estado-providência era também o hospital psiquiátrico, o centro de inserção das pessoas com deficiência, a prisão, a escola patriarcal-colonial-heterocentrada. Está na hora de pôr Foucault na dieta handi-queer e de escrever a morte da Clínica. Está na hora de convidar Marx para um ateliê eco-sexual. Não vamos adotar o estado disciplinar contra o mercado neoliberal. Esses dois já travaram um acordo: na nova Europa, o mercado é a única razão governamental, o Estado se tornou o braço punitivo cuja única função será aquela de re-criar a ficção da identidade nacional por meio do medo securitário. Nós não desejamos nos definir como trabalhadores cognitivos nem como consumidores farmacopornográficos. Nós não somos Facebook, nem Shell, nem Nestlé, nem Pfizer-Wyeth. Não desejamos produzir francês, e tampouco europeu. Não desejamos produzir. Nós somos a rede viva decentralizada. Nós recusamos uma cidadania definida por nossa força de produção ou nossa força de reprodução. Nós queremos uma cidadania total definida pelo compartilhamento das técnicas, dos fluidos, das sementes, da água, dos saberes… Eles dizem que a guerra limpa se fará com drones. Nós queremos fazer amor com os drones. Nossa insurreição é a paz, o afeto total. Eles dizem crise, nós dizemos revolução.





5/07/2015

X Colóquio de Filosofia e Literatura : "Tempo: morte, memória, duração"













X Colóquio de Filosofia e Literatura "Tempo: morte, memória, duração"

Esta décima edição do Colóquio de Filosofia e Literatura vem confirmar a maturidade do evento, que desde 2001, reúne em Goiânia especialistas do Brasil inteiro para discutir questões atinentes a esta complexa relação.

6 a 8 de Maio de 2015
ocal: Auditório II da Área II Puc Goiás - Praça Universitária
Realização: Faculdade de Filosofia-UFG
ENTRADA FRANCA



PROGRAMAÇÃO

06 DE MAIO
09:00 abertura

09:30 Marlon Salomon - Tempo e labirinto na história do pensamento de Alexandre Koyré

11:30 pausa para almoço

14:30 Rodrigo Vieira Marques - Paisagens do tempo em Baudelaire e Rimbaud
16:00 Clara Castro - Sade e a ideia de metempsicose

07 DE MAIO
09:30 Ana Lucia Machado Oliveira - Antonio Vieira e a moralização da morte ad majorem Dei gloriam

11:30 pausa para almoço

14:30 José Ternes - Na escola de Maldoror
16:00 Céline Clément - Tempo e eternidade em Pascal

08 DE MAIO
09:30 Maria Cristina Franco Ferraz - Um réquiem para Bartleby

11:30 pausa para almoço

14:30 Contador Borges - O fascínio da morte e o tempo inoperante em Sade, Blanchot e Bataille
15:45 Encerramento e apresentação do livro ÁSPEROS PERFUMES

5/04/2015

Névoa e assobio | Bianca Dias


















Névoa e assobio 
Autora: Bianca Dias
Desenhos de Júlia Panadés


O livro de Bianca Dias, que está por vir, nos apresenta uma experiência de atravessamento e de elaboração. Apresenta-nos, sobretudo, uma ética-estética da existência, irmã gêmea do “amor fati” nietzchiano. Como se na perda estivesse guardada uma prenda, como se na doença estivesse guardada uma dança. Como se no fundo do silêncio aterrador estivessem guardadas palavras aladas que atravessam o trauma e compõem uma trama. Nessa trama, que se impôs pela necessidade, palavras silenciosas e silêncios eloquentes se sucedem e, mais do que revelam, constroem uma máscara de sentido para o abismo sem rosto que fita a todos nós. 

A partir da perda de seu filho, Bianca devolve o olhar a esse abismo num exercício de escrita corajoso e nascido dessa experiência, na qual a ausência se torna uma aguda presença. Entretanto, neste livro não encontramos apenas essas palavras aladas. Nele, há um encontro fortuito entre as palavras e os desenhos da artista Julia Panadés, que, num gesto cúmplice, oferece um pouso imagético, um vislumbre de forma e uma possibilidade de costura das bordas.

Neste livro trabalharemos com uma pré-venda e ofereceremos como agradecimento-recompensa um desenho de Julia Panadés. 




Esses desenhos serão impressos sobre papel-algodão em uma tiragem limitada, numerados e assinados, e estarão disponíveis apenas para este momento da pré-venda, que durará até o momento da impressão do livro, que planejamos para Agosto/2015.

Convidamos todos a se anteciparem e garantirem o seu exemplar (cuja tiragem é pequena) e o seu desenho.













4/29/2015

BRUNA PIANTINO | BISCUIT























Biscuit – obra de nove por seis – é o quarto e mais novo livro da escritora mineira Bruna Piantino. Na obra, composta por 30 poemas, a autora aborda a forma como a natureza humana se relaciona com a natureza em geral e como tudo se transforma a partir de estímulos exercidos. Biscuit, do francês antigo bescuit, que deriva do latim bis + coctus e quer dizer dupla cocção, é guiado pelo I Ching, o clássico da mutação.

Biscuit ancora-se na luminosidade de acontecimentos corriqueiros, sem renunciar à riqueza de detalhes imagéticos, característica, aliás, inerente à literatura de Bruna Piantino. Compreender a interdependência dos homens entre si, com a sociedade e com a natureza é compreender a teia da vida. Sob influência das relações de causalidade, Bruna nos convida a mergulhar na encruzilhada das possibilidades da narração e da existência. Nessa dimensão lúdica e lúcida, cabe ao leitor interpretar as figuras que se interligam e desentranhar delas as aventuras e desventuras, tão familiares quanto enigmáticas.

Atraente ‘tour de force’ de uma autora inquieta, sempre em busca de novas formas e narrativas, parte do livro percorre o caminho instigante do desafio métrico nove por seis, com estrofes compostas de nove versos, dos quais seis têm sete sílabas e três têm três, sendo eles o segundo, o quinto e o oitavo. Outra relação numerológica para o subtítulo do livro centra-se nas duas formas representativas do I Ching: traço pleno ou partido [– e - -]. O traço contínuo é ímpar: contém três em um e, ao se desdobrar no trigrama, atinge nove; o traço descontínuo é par: contém dois terços do anterior e desdobrado igualmente por triplicação, chega ao número seis.

Editado também no sistema Braille, Biscuit será disponibilizado em bibliotecas públicas, entidades voltadas para deficientes visuais e comercializado em livrarias. Além da clara intenção de vir a ser uma oferta literária para deficientes visuais, esse fato parece suscitar outra reflexão: em tempos de ruptura e dispersão, deixamos de ver o essencial? Habilidosa, Bruna Piantino nos brinda com exatamente o contrário.

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SOBRE A AUTORA

Bruna Piantino é autora dos livros de poesia Breus e Bastão e do livro infantojuvenil O siri e a sombrinha. Realizadora dos vídeos 448 e Ming Jai. Produtora do longa-metragem Trésor e dos curta-metragens Cocamado, Que Coso, Bastão e Moths.


BIBLIOGRAFIA INDIVIDUAL 

"breus" [1a. ed. Belo Horizonte: Anome Livros, 2004] 
Bastão [1a. ed. Belo Horizonte: Boca de Lobo Editora, 2007] 
O siri e a sombrinha [1a. ed. Belo Horizonte: Edição de Autor, 2011]


BIBLIOGRAFIA COLETIVA 

O Achamento de Portugal [1a. ed. Belo Horizonte: Anome Livros, 2005] 
Portuguesia – Contraantologia Vol. 1 [1a. ed. Belo Horizonte: Anome Livros, 2009]




INFORMAÇÕES TÉCNICAS

BISCUIT – OBRA DE NOVE POR SEIS – 
Bruna Piantino
Edição de Autor
Belo Horizonte 2015
Editado e impresso em litografia ofsete e sistema braille


SINOPSE

Biscuit [do lat. bis + coctus] aborda relações interespecíficas entre natureza humana e natureza em geral, reveladas pelo I-ching, o clássico da mutação. Duas formas representativas são a base do livro chinês da sabedoria: traço pleno ou partido [– e - -]. O traço contínuo é ímpar: contém três em um, o traço descontínuo é par: contém dois terços do anterior; desdobrados igualmente por triplicação no trigrama, obtemos respectivamente os números nove e seis. Editado nas versões litografia ofsete e sistema braille.






3/19/2015

[entre] literatura / filosofia / educação

PELOS DÉDALOS DA DIFERENÇA [entre]: literatura / filosofia / 

COM SANDRA CORAZZA - MÁXIMO ADÓ -
NILSON OLIVEIRA 

08|04|2015 - UFRGS


3/13/2015

EX-CRITAS




























































Convidamos a todos os que se sentirem concernidos por essas questões para que venham ao nosso encontro, no dia 27 de março de 2015, a partir das 18h. Entre nós estarão escritores, leitores, poetas, filósofos, psicanalistas, antropólogos, artistas. Carlos Eduardo Leal (RJ), Edilson Pantoja (PA), Elisabeth Bittencourt (RJ), Luciana Brandão Carreira (PA),  Nilson Oliveira (PA),  Ramon Cardeal (PA),  Renato Torres (PA),  Patrícia Vital (RJ).


VILLA TOSCANA: TRAVESSA 9 DE JANEIRO, Nº 1683, ENTRE GENTIL E MAGALHÃES BARATA | BELÉM

3/04/2015

PARQUE AUGUSTA, OU UM DESEJO DE RUA


por Peter Pál Pelbart


O texto abaixo foi proposto e aceito para publicação no dia 2 de março, em versão reduzida, na seção Debates da “Folha de São Paulo”. Por razões desconhecidas o texto não foi publicado. Como o evento a que se refere o artigo ocorre já amanhã, o autor achou por bem liberar o texto na íntegra para circulação nas redes sociais.





No dia 4 de março próximo (amanhã), às seis horas da manhã, com um mandado de reintegração de posse em mãos, uma força policial do 7. Batalhão da Polícia Militar vai pôr fim a um dos experimentos mais ricos surgidos na cidade de São Paulo nos últimos meses – uma presença informal, ecológica, artística, coletiva, libertária, numa das poucas áreas verdes remanescentes no centro de São Paulo. No ano passado o movimento pela defesa do Parque Augusta conseguiu que o prefeito Haddad sancionasse o projeto de lei que previa a criação do parque, mas dias depois se deparou com o fechamento ilegal do terreno por iniciativa das incorporadoras Setin e Cyrela, que ali planejam a construção de três torres imensas. Diante do impasse, o movimento decidiu “abrir uma trilha” no interior da área cercada, como uns Bandeirantes às avessas: em vez de matarem índios e se apossarem da terra, liberaram um pedaço de Mata Atlântica autêntica no coração da capital paulista. E instauraram uma “zona de autonomia ambiental temporária”, com ações de sensibilização empreendidas por vários coletivos e moradores, sem coloração partidária nem fins políticos. A intenção não é apropriar-se do terreno, mas abrí-lo a um “uso comum”, como diria Agamben.

Uma breve passagem pelo local permite a qualquer um cruzar as 700 árvores centenárias, vislumbrando, como numa alucinação transhistórica, um dos poucos resquícios de “passado” pré-colombiano fincado na metrópole e soterrado por ela. Ao perambular pela área onde antes erguia-se o Colégio des Oiseaux, hoje se vê mais 200 árvores de várias espécies plantadas , uma cisterna para coleta de chuva, uma rádio local na base da tecnologia móvel a mais simples e ágil, um seminário de micropolítica acontecendo debaixo de um sol inclemente, uma aula de yoga a céu aberto, jovens com seus laptops ligados cuidando em manter viva a rede de contatos, informações, articulações, um filme sendo projetado, assembléias e aulas abertas – em suma, uma “vigília criativa”. Eis uma terra em que ninguém se pensa como dono de nada, ninguém vende nem compra nada, ninguém manda em nada, onde pessoas de diferentes idades, origens, formações, sensibilidades, coabitam por um tempo em contiguidade pluralista, num jogo aberto entre iniciativas autônomas, afetividades e sexualidades singulares, e assim deixam entrever o que poderia uma vida coletiva hoje, polifônica, regida por uma lógica outra que não a da voracidade autocentrada, da normopatia blindada ou da monocultura entrópica. Um “kibutz do desejo”, diria Cortázar. Mas na sua versão ecológica, biopolítica. Pois é isso também que ali se ensaia – não se trata de “apropriar-se”, “tomar o poder”, ou apenas gritar palavras de ordem uníssonas contra o capital ou a gentrificação, mas também zelar pelas árvores, pela circulação livre, pela sustentação coletiva, e experimentar formas-de-vida inabituais, múltiplas, que não têm nome, ainda que os ativistas usem noções aproximativas como horizontalidade, autogestão, organização em rede.




Não é uma utopia ingênua de idílico retorno à Natureza, nem uma comuna hippie deslocada no tempo e no espaço, mas uma aposta biopolítica que, embora enunciada numa escala diminuta, pode destampar a imaginação política em escalas outras. Afinal, a questão central, mesmo e sobretudo em tempos de crise, continua sendo: que formas de vida nós desejamos hoje? Como o escreveu um tal de “comitê invisível” longínquo, a força dos islamistas radicais está no sistema de prescrições éticas que eles oferecem, como se eles tivessem compreendido que é no terreno da ética, e não da política, que o combate se trava. Nas antípodas do Estado Islâmico, o que se esboçou no Parque Augusta está mais próximo do bien vivir, como dizem alguns povos indígenas vizinhos nossos. Inspirado nessa tradição dos povos autóctones, Eduardo Viveiros de Castro lançou há pouco uma bela idéia, no livro terrívelmente perturbador que escreveu com Déborah Danowski em torno da destruição não só do mundo mas também dos múltiplos mundos, a saber: a “suficiência intensiva” . Como descolar-se da lógica do acúmulo, aceleração, progresso, destruição, para reorientar-se em direção a uma vida “intensivamente” suficiente, e não quantitativamente ideal? Pois esta, sabemos, tende ao infinito, embora esbarre nos recursos finitos do planeta que ela se encarrega de exaurir. É preciso passar por um “ralentamento comopolítico” para que tal recondução seja pensável. Claro que não temos para isso ainda um povo, como dizia um pensador, longe disso. Mas algo nos diz – porém também isso colhemos de reflexões alheias – que não existe primeiro um “sujeito revolucionário” e depois uma “insurreição”, mas são as sublevações várias que vão constituindo um “povo”, por assim dizer. Ou então é nesse meio que se inventam “modos de povoamento”. Usamos palavras um pouco velhas e em desuso, ou estranhas e grandiosas demais, para dizer coisas muito simples e atuais.




Desde as revoltas de junho de 2013, a pergunta que continua no ar é a seguinte: será que aquilo que foi empreendido e experimentado no corpo a corpo por multidões pelo País afora, que pôs os políticos de joelhos e por um átimo fez tremer as instituições, tem chance de prolongar-se no presente sem ser cooptado por golpismos vários, sobretudo num momento em que em vários planos, econômico, parlamentar, moral, para ficar em itens midiáticos recentes, assiste-se a uma reação conservadora brutal, que literalmente joga no lixo a voz das ruas, em nome da qual, aliás, alguns dos mesmos políticos conservadores conseguiram eleger-se? Não pretendemos oferecer qualquer resposta a tal pergunta – ela só pode vir das ruas. Mas não deveríamos esquivar-nos de uma constatação a cada dia mais tocante, sobretudo em nossa cidade, e isso vai do Parque Augusta aos 300 blocos de carnaval de rua em São Paulo, das dezenas de manifestações do MPL por todos os cantos da cidade, centro e periferia, até a miríade de iniciativas individuais e coletivas que não atingem o limiar de visibilidade midiática, pois são como vagalumes frente aos holofotes espetaculosos. A constatação simples é apenas esta: há um desejo de rua crescente e incontido em nossa cidade, e para além dela! Sim, as “pessoas” – e sei o quanto essa palavra pode irritar nossos cientistas sociais – querem ocupar espaços, ruas, praças, ciclovias, minhocões, sair de seus buracos privados ou telinhas virtuais e ensejar situações de encontro ou fricção dos mais diversos tipos, seja na cólera ou na alegria, em todo caso em situações menos codificadas, mais indeterminadas, abertas àquilo que hoje pede para ser inventado a fim de tornar respirável o dia a dia na cidade e no planeta, numa nova ecologia ambiental mas também subjetiva, como dizia Guattari.





Sabemos que a força dessas experimentações minúsculas diante do poder das construtoras, governantes e juizes parece sempre irrisória, para não dizer risível. E no entanto, é também nesses bolsões efêmeros que se experimentam gestos mínimos, lógicas incertas, estratégias e afetos capazes às vezes de transbordar ou disparar uma mobilização multitudinária e infletir o destino de um bosque ou de um mundo – lembremos que as revoltas em Istambul começaram pela defesa do parque Gezi. Tampouco aqui o critério quantitativo deveria nos intimidar. Quantas vezes não é o pequeno o locus do desvio e da bifurcação decisiva? Como diz um personagem de Dostoiévski – e aqui o aplicamos à nossa imaginação política – até o incêndio de Moscou começou por uma vela de um kopek.

Peter Pál Pelbart é professor titular de filosofia da PUC-SP, autor entre outros de O avesso do niilismo: cartografias do esgotamento e coeditor na n-1 edições.



2/25/2015

EX-CRITAS: VARIAÇÕES

Ex-critas: variaççções



Dia 27 de março, às 18h |
Villa Toscana: Travessa 9 de janeiro nº 1683 Entre Gentil e Magalhães Barata | Belém




Uma cripta, um lugar, uma escrita.

Um ponto de ancoragem, a partir do qual o sentido derrapa e a linguagem se arranha. Um sítio onde localizar o vazio; furo que requer uma borda. Uma borda feita de letras. Um efeito chamado escritura – margem, nessa derrapagem em que a palavra não cabe no dizer.

Alguns escritores escrevem desde aí, desse lugar mítico, originário, ex-sistente. Solitário por definição. Eles insistem, impulsionados por algo que se nutre da impossibilidade, do precário, das ruínas, do fragmentário.  Escrevem na simultaneidade com que fundam esse lugar, essa cripta/escrita – de onde saem e para aonde voltam, desalojados de uma instância que lhes dê garantias, pois se trata de uma produção de risco, arisca ao suposto  sucesso de um sentido imediato e unívoco.

Sair dessa cripta é tocar no real, no impossível de dizer ou simbolizar. É ser contemporâneo de uma experiência que está no fundamento que faz o ser falante existir, em sua extimidade – quando, tal como uma banda moebiana, a borda interna do exterior se retorce na borda externa da intimidade.

Como podemos ler esses escritores, se a escrita de que se trata nos joga para fora do sentido, bem dentro do olho do furacão?









Com Lacan, quando a psicanálise e a crítica literária se encontram – sempre no limite de cada um desses campos – tal escrita interessa porque ela se coloca do lado do enigma, interrogando, fundamentalmente, o que está no cerne da transmissão através de um escrito.

Com o termo lituraterra Lacan (Outros escritos. 2003, p. 15-25)  nomeia um campo textual que se destaca da literatura, embora a ela esteja relacionado. O que importa é o texto enquanto escritura (dis-junto, portanto, da literatura). Nesse dentro-fora, na dobra de um sobre o outro, nessa disjunção elementar, o texto pode ser lido a partir de um outro lugar enunciativo. Em suas variações, que são muitas.

Esse trabalho com o texto levou Lacan a formular a noção de letra, na contrapartida do simbólico, do significante e dos signos. A letra, nesse contexto, ganha o estatuto daquilo que faz furo no saber tanto quanto é capaz de fazer uma borda ao redor desse furo, tornando-se um conceito angular – a pedra, o pêndulo, o caroço da transmissão. Situada entre o real que não conhece o sentido e o saber com o qual os significados se vestem.

Barthes se posiciona de um modo novo em face à crítica literária de sua época, ao propor que um texto nem sempre é lugar de prazer. Para além dos textos confortáveis e idílicos, há essa outra escrita, que aponta, ao contrário, a um lugar de desconforto, próprio ao gozo que se vive nessa experiência. Por isso costumam ser vertiginosos, esses textos. Eles demandam uma posição diferente de seus leitores (portanto, de seus críticos), para que a crítica se faça com alguma verdade.

Barthes considera impossível proceder  uma leitura/escrita “de fora” do texto. É preciso escrever/ler “de dentro” do texto; nele, em seu interior, confundido com o escritor que inicialmente o concebeu. É preciso que o leitor “adentre” no “fora” do escritor. Talvez por isso a crítica tradicional muitas vezes os considerem textos herméticos, inanalisáveis e sem lugar “[...] Com o escritor de gozo (e seu leitor) começa o texto insustentável, o texto impossível. Este texto está fora-de-prazer, fora-da-crítica, a não ser que seja atingido por um outro texto de gozo: não se pode falar ’sobre’ um texto assim, só se pode falar ‘em’ ele, à sua maneira” (O prazer do texto. Perspectiva, 1997,  p.31-32).





Maurice Blanchot nos adverte, ao falar do espaço literário, que a solidão de que se trata na obra não se confunde com o recolhimento ao qual o escritor se vê convocado para poder criar. Tal solidão  − essa, da cripta / da ex-crita – ela não diz respeito ao escritor, ao “ser que escreve”, e sim à obra. Afinal, no ato da escrita o “ser do escritor” está apagado, “arrastado para fora de si”, diz Blanchot. [O livro por vir. Relógio d´Água, 1984, p.230]. Por esse motivo é que tal ato implica um esvaziamento imaginário. Um esburacamento do sentido. Um arrastamento, para fora de si, do eu de quem escreve. Um perder-se. A experiência do exterior, tal como testemunhada por Blanchot, elimina o engano de um viés existencialista a respeito da experiência solitária do escritor: “escrever é quebrar o elo que une a palavra a mim mesmo”, sentencia ele. O escritor, que aí se lança, não ruma a um mundo mais seguro; tampouco se dirige na direção de uma linguagem mais bela. Neste instante o escritor é simplesmente “falado” por uma voz que o guia, numa errância alucinada, em decorrência do simples fato dele estar sob a égide de uma dessubjetivação. Assim, pelos desvãos que a sua palavra gradativamente contorna, o escritor positiva o silêncio que faz a obra ser o que ela é. Por isso o espaço literário blanchotiano advém de uma extremidade radical, que aponta ao sem limite de um espaço sem dimensão, bem como a uma temporalidade outra, em que o tempo que não está fora do tempo, embora este também seja experimentado como exterior: “no apagamento a que ele é convidado, o grande escritor ainda se mantém: quem fala nele já não é ele, embora não se trate do deslizamento puro da fala de alguém” [L’espace littéraire. Éditions Gallimard, 2009, p.22-23 | tradução nossa]

É nessa direção que, no ato de criação, solidão e silêncio se emaranham, numa teia insólita de palavras quase mudas, vindas de uma zona limítrofe. Essas palavras contornam um espaço vazio, que ex-siste, desenhando uma curvatura: a curva da borda daquilo que é possível formular num dizer. Mas nem tudo é possível... E essa solidão é essencial porque se refere ao encontro com o impessoal; com o Quelqu’un do qual fala Blanchot, uma das leituras possíveis do Outro da linguagem.



Convidamos a todos os que se sentirem concernidos por essas questões para que venham ao nosso encontro, no dia 27 de março de 2015, a partir das 18h. Entre nós estarão escritores, leitores, poetas, filósofos, psicanalistas, antropólogos, artistas. Carlos Eduardo Leal (RJ), Edilson Pantoja (PA), Elisabeth Bittencourt (RJ), Luciana Brandão Carreira (PA),  Nilson Oliveira (PA),  Ramon Cardeal (PA),  Renato Torres (PA),  Patrícia Vital (RJ),  fomentarão as trocas. Após suas falas, ofereceremos um recital, um brinde e um momento de autógrafos – tudo com a mais pura alegria da partilha. Gratuitamente, basta vir.





























P R O G R A M A Ç Ã O

18H: MESA I | ENTRE EX-CRITAS
Nilson Oliveira - Elisabeth Bittencourt - Ramon Cardeal


19h: Mesa II | EX-CRITAS E SUAS VARIAÇÕES
Luciana Brandão Carreira - Carlos Eduardo Leal - Edilson Pantoja

20H. RECITAL: TERTÚLIA | O GRAU ZERO DA EX-CRITA
Renato Torres - Patrícia Vital (e outros)



21h. LANÇAMENTOS E AUTÓGRAFOS DE LIVROS

ABAÚNA E OUTROS POEMAS | Aline de Mello Brandão

O CÉU DA AMARELINHA e A ÚLTIMA PALAVRA e NÓ GÓRDIO | Carlos Eduardo Leal

A VAIDADE NO FEMININO | Elisabeth Bittencourt
A PEDRA DE BABEL | Edison Pantoja

OS TEMPOS DA ESCRITA NA OBRA DE CLARICE LISPECTOR – NO LITORAL ENTRE A LITERATURA E A PSICANÁLISE e
ENTRE | Luciana Brandão Carreira

PERIFEÉRICO | Renato Torres

VINHO SECO | Patrícia Vital
O ESTRANGEIRO E OUTROS ANDARILHOS | Ramon Cardeal

REVISTA POLICHINELLO






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SOBRE OS CONVIDADOS

CARLOS EDUARDO LEAL. Poeta, artista plástico e psicanalista. Doutor em Psicologia Clínica PUC-RJ. Autor de: O Nó Górdio (Cia de Freud Editora). A Última Palavra (Rocco Editora). O Céu da Amarelinha (Rocco Editora)

EDILSON PANTOJA. Escritor e filósofo. Autor dos romances: Albergue Noturno (Prêmio IAP de Literatura, 2005) e A Pedra de Babel (São Paulo: Editora All Print, 2010).

ELISABETH BITTENCOURT. Psicanalista e Escritora. Analista Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise do Rio de Janeiro. Coordenadora dos Encontros de Psicanálise e Direito da Escola Lacaniana de Psicanálise do Rio de Janeiro. Autora do livro “A vaidade no feminino”.

LUCIANA BRANDÃO CARREIRA. Poeta, psicanalista e psiquiatra, doutora em Psicanálise pela UERJ . Pesquisadora da rede internacional de pesquisa Escritas da Experiência. Professora da UEPA e Cesupa. Autora dos livros ‘Entre’ (Verve, 2014) e ‘Os tempos da escrita na obra de Clarice Lispector – no litoral entre a literatura e a psicanálise’ (Cia de Freud, 2014). Componente no núcleo editorial da Revista Polichinello.

NILSON OLIVEIRA. Escritor e ensaísta. Componente no núcleo editorial da Revista Polichinello.

PATRÍCIA VITAL. Graduada em Música pela Universidade do Estado do Pará e foi integrante da Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz. Vencedora de uma bolsa de experimentação e pesquisa do Instituto de Artes do Pará, em 2012. Em 2014 publicou seu primeiro livro de poesia, Vinho Seco, pela Verve editora.

RAMON CARDEAL. Escritor e ensaísta. Autor de O Estrangeiro e outros andarilhos (vencedor do premio IAP de literatura de 2013)

RENATO TORRES. Cantor, compositor, poeta. Tem poemas publicados nas coletâneas Verbos Caninos (2006), Antologia Cromos vol. 1 (2008), revista Pitomba (2012), Antologia Poesia do Brasil vol. 15 e 17 (Grafite, 2012). Em 2014 faz sua estreia em livro, Perifeérico (Verve, 2014)



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