6/27/2012

Philippe Lacoue-Labarthe | Maurice Blanchot











Por Joao Camillo Penna | UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro



Agonie terminee, agonie interminable. Sur Maurice Blanchot
Agonia terminada, agonia interminável.
Philippe Lacoue-Labarthe.
Paris: Galilee, 2011.


A experiência da morte – esta pura impossibilidade – seria a condição, o fim e a origem, ou quem sabe o imperativo categórico (o ‘e preciso’ incondicionado) da literatura como do pensamento. Essa frase resume o livro póstumo de Philippe Lacoue-Labarthe (1940-2007), Agonie terminee, agonie interminable. Sur Maurice Blanchot, que chega agora a forma de volume, graças ao trabalho de Aristide Bianchi e Leonid Kharlamov. O livro fora anunciado na Amazon.com.fr desde 2004, mas fora deixado incompleto, ou “interminado”, como diz o próprio titulo, pelo autor em vida. A publicação coincide com a abertura do arquivo de Lacoue-Labarthe no IMEC (Institut Memoires de l’Edition Contemporaine), onde estão depositados os arquivos de muitos dos grandes escritores franceses contemporâneos. O livro e composto de textos heterogêneos, três conferencias, dois textos encomendados, um outro mais antigo, da serie de prosas Frases (Phrases), coligidas em volume em 2000 (Paris: Christian Bourgois). Pelas notas deixadas em seus arquivos, pode-se reconstituir o formato que teria o livro se concluído, o que nos permite deduzir-lhe o escopo. A apresentação dos dois editores faz o trabalho de recomposição do todo, citando notas de seminários, correspondência, anotações esparsas do autor para si próprio, e não chegam propriamente a preencher lhe as lacunas, mas dão uma medida do contorno fantasmático do que seria a obra, caso Lacoue-Labarthe tivesse podido conclui-la. Os editores dão um passo adiante com relação ao todo, de maneira discreta, mas firme, demonstrando que em parte Lacoue-Labarthe deixou o livro incompleto não apenas pela doença que o matou, mas por duvidas essenciais com relação ao objeto de sua investigação, que de alguma maneira o titulo agônico, mais uma vez, nomeia. Todos os textos que compõem o volume, no estado possível em que foi deixado pelo autor apos sua morte, giram diretamente em torno de Maurice Blanchot, mais especialmente em torno de dois textos de caráter autobiográfico, ou testemunhal, mesmo que o primeiro termo faça problema e o segundo fuja ao tema que interessa a Lacoue-Labarthe.




Os dois textos são: o pequeno fragmento “Uma cena primitiva?” (“Une scene primitive?”), publicado pela primeira vez em 1976, em uma revista editada por Lacoue- Labarthe,* e depois incluído, em versão ligeiramente modificada, com uma serie de outros fragmentos de que ele e como que a condicao de possibilidade, em A escrita do desastre (L’Ecriture du desastre. Paris: Gallimard, 1980); e o segundo e O instante de minha morte (L’Instant de ma mort. Paris: Gallimard, 2002). Os dois textos não tem aparentemente nada em comum. O primeiro relata um episodio de infância: um menino “de sete ou talvez oito anos”, olhando pela janela, e subitamente encarando o céu, reconhecendo-o como vazio – “o céu, o mesmo céu, de repente aberto, negro absolutamente e vazio absolutamente” – e fazendo a revelação determinante para o resto de sua vida, resumida na seguinte frase: “nada e o que ha e antes de mais nada nada além” (“rien est ce qu’il y a et d’abord rien au-dela”). O que doravante fara o menino viver “no segredo”: “Ele nunca mais chorara”. O segundo relata um episodio ocorrido no final da Segunda Guerra Mundial, em 1944, com um “jovem”, no interior da Franca, quando, preso por um pelotão da SS, escapa por um acaso da sorte de ser fuzilado. A experiência da quase morte e vivida como um êxtase, “uma espécie de beatitude”, uma revelação da leveza (ele “experimentou então um sentimento de extraordinária leveza”). Essa experiência e o sentimento inanalisável que provocou no jovem o marcarão para sempre, transformando o resto de sua vida em uma espécie de resto póstumo: “nem felicidade, nem infelicidade. Nem ausência de temor e talvez já o passo além [le pas au-dela: ao mesmo tempo ‘passo além’ e ‘nada além’]”. O que tem os dois textos em comum além do aspecto, como ja disse, problematicamente autobiográfico, disfarçado pelo uso da terceira pessoa? Duas coisas. Em primeiro lugar, trata-se em ambos os casos de experiências, mas de experiências paradoxais, “experiências sem experiência”, para usar uma expressão de Blanchot, em que nada propriamente e experimentado ou em que precisamente o “nada” e experimentado, e, sobretudo em que a impossível experiência da morte e, por assim dizer, vivida enquanto quase morte, simulacro da morte. Em ambos os casos, temos uma espécie de êxtase vazio, sem objeto, beirando a revelação mística, como mística negativa, revelação ateia do vazio dos céus no primeiro, e, no segundo, como dadiva da vida, vivida, a partir da experiência crucial que se conta, como sobrevivência, sobrevida ou segunda vida, de tal modo que se inverte a formula consensual: a vida e que e a consequência da morte, esta sendo a intima condição daquela. Teríamos aqui dois exemplares do que Lacoue-Labarthe chama de “a escrita póstuma” de Blanchot. Em segundo lugar, e aqui tocamos no cerne da hipótese de Lacoue-Labarthe, os dos textos situam-se no contexto do programa rigoroso estabelecido pelo “ultimo Blanchot” de desmitologização ou de desconstrução do mitológico, do sagrado ou da religião. A hipótese e formulada de maneira mais clara quando Lacoue-Labarthe le a referencia laconica a Andre Malraux, no final de O instante de minha morte. O “jovem” teria se encontrado pouco tempo depois do incidente do quase fuzilamento com Andre Malraux em Paris, que lhe relata a perda de um manuscrito, em um incidente com um pelotão SS. Na invasão ao Castelo em que morava o “jovem”, a propriedade da tradicional família de Blanchot, em Quain, o SS teria encontrado também um “grosso manuscrito”, talvez “planos de guerra”. O texto sugere a junção entre os dois manuscritos (o do “jovem” e o de Malraux), nos fazendo pensar, com Lacoue-Labarthe, que eles fossem quem sabe o mesmo. O fundo do problema, no entanto, esta na motivacao dessa referencia a Malraux no texto de Blanchot. Lacoue-Labarthe desentranha um episodio narrado nas Antimemorias de Malraux. Ele teria passado por um quase fuzilamento semelhante ao de Blanchot, e exatamente na mesma época, fato que Malraux aparentemente ignorava. Apos ser preso com documentos falsos, perto de Gramat, e interrogado pela Gestapo, Malraux fora colocado diante de um pelotão de fuzilamento que, no entanto, não o executa. O paralelo entre os dois simulacros de execução aponta, na verdade, segundo Lacoue-Labarthe, para uma oposição entre duas politicas da escrita, que Blanchot visaria demonstrar: a sua e a de Malraux. A operacao romanesco-memorialistica de Malraux contem uma intensa mitologizacao, enquanto a de Blanchot se construiria como negacao do mitologico. Lacoue-Labarthe analisa a bela cena de renascimento para a vida, como repetição da origem do mundo, também em Le Miroir des limbes, nas Antimemorias, em termos que lembram os de Blanchot, embora carregados de uma mitologia inteiramente ausente do texto de Blanchot.



Eu sabia agora o que significavam os mitos antigos dos seres arrancados
aos mortos. Eu quase não me lembrava da morte; o que eu
levava comigo era a descoberta de um segredo bastante simples,
intransmissivel e sagrado. Assim, talvez, Deus olhou o primeiro homem...*



A oposição de procedimento literário se completa por uma oposição politica, Blanchot tendo se contraposto resolutamente as posições defendidas pelo Malraux-homem de estado a partir do final dos anos 1950. A conclusão de Lacoue-Labarthe e que aqui justamente se situaria o cerne do paradoxo banchotiano: a escrita antimitologica nao deixa de conter sua parte de mitologizacao, nem que seja a mitologia da falta de mitologia. De maneira essencial, Blanchot teria encarnado mais do que ninguem o mito do escritor e da escrita moderna. Afinal, e ele quem coloca em O espaco literario a escrita sob a égide do mito de Orfeu, ou seja, da descida aos infernos, a nekuia, inscrita nas Georgicas de Virgílio, e que encontra o seu modelo na Odisseia de Homero, na descida de Ulisses aos infernos. Esta travessia da morte e precisamente a matriz da cena do quase fuzilamento de Malraux, Blanchot e, e claro, de Dostoievski, que Malraux nao deixa de citar em suas Antimemorias. A nekuia remeteria a um rito iniciatico quem sabe universal, e que teria como complemento esta outra cena paradigmática, também originada em Homero, desta vez na Iliada, a da ira, com todos os harmônicos políticos contidos nela: a ira contra a injustiça, fonte de toda a protestação politica, como a do jovem Marx. A desmitologizacao programática de Blanchot não deixa de conter a sua parte de mitologia. A cena do nascimento depois da morte, a “leveza”, a “beatitude”, e a alegria que sucede a travessia da morte retomam uma tópica que aparece em uma certa literatura francesa: ela aparece no ensaio “De l’exercitation” de Montaigne e na segunda reverie de Rousseau. Em ambos os casos, trata-se de voltar literalmente da experiência da quase morte. A citação consistindo no método da mitologização, contra a qual alertava Blanchot, sem querer nem poder de todo recusa-la. As duas cenas paradigmaticas que resumem a literatura ocidental, ou o Ocidente enquanto literatura, a nekuia e a da ira, do protesto e da revolta, enfeixariam a relação essencial entre mitologia e politica, sacrificio e politica, formulados de modo matricial na modernidade pela sequencia que se abre com o terror jacobino  (1792-1794) e a Festa do Ser Supremo (1794). A recusa a mitologia tem uma importância essencial no programa politico-literário de Blanchot, no que toca o nazismo, e este acontecimento que divide o século XX, o extermínio dos judeus da Europa. Pois, segundo Blanchot: “No judeu, no ‘mito do judeu’, o que Hitler quer aniquilar e precisamente o homem liberto de mitos”. Afirmação polemica, questionada por Derrida (onde ha religião ha sempre uma parte de sacrifício e sagrado), que assinala a judeofilia de Blanchot. E em torno desta cena politico-literária, ou mitológico-politica, que se divide também a vocação politica de Blanchot: sua dupla “conversão” a direita nacionalista no inicio dos anos 1930, e a esquerda, ao que parece, apos o encontro de Georges Bataille, em 1940. O livro de Lacoue-Labarthe deixa todas essas questões em aberto. Em seu estado póstumo de fragmento inacabado, ele instala de forma definitiva a questão ético-politica que ocupou a vida de seu autor: a afirmação de que “e a remitologização que traz sozinha a responsabilidade do mal”. Aqui ele retorna a todos os seus temas e autores prediletos: Bataille, Holderlim, Rousseau, Freud e, sobretudo, Blanchot. E, portanto, em torno do motivo do póstumo e da morte que se fecha o ciclo literário e essa vida. Em torno mais precisamente desta revelação: a de que a morte e a condição de possiblidade, no sentido transcendental, kantiano, da vida.

Joao Camillo Penna


* (Première Livraison, no 4,
Mathieu Benezet e Philippe
Lacoue-Labarthe (eds.).
Paris-Strasbourg, fevereiromarco, 1976.)

* (Malraux. Andre. “Antimemoires,
III, 2, Oeuvres
complètes, volume III. Paris:
Editions Gallimard, 1966, p.
240. Minha traducao.)

6/21/2012

MAX MARTNS - resistência da poesia




DIA 23 - ÀS 18h


O EFEITO MAX | RESISTÊNCIA DA POESIA
Edilson Pantoja - Ney Ferraz Paiva - Nilson Oliveira

Espaço Cultural Café Pimenta de Cheiro
Av. José Malcher Nº 2125 - Entre 3 de Maio e 9 de Janeiro | São Brás












6/02/2012

Em defesa de uma biblioteca virtual

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Pintura de Norberto Nunes


Intelectuais apoiam blog Livro de Humanas


Criado em 2009, o blog Livro de Humanas reunia mais de 2 mil títulos acadêmicos para download gratuito. O site foi retirado do ar no fim de maio, devido a uma ação judicial movida pela Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR), entidade que representa dezenas de editoras do país. No texto abaixo, escritores e acadêmicos defendem o blog.





EM DEFESA DE UMA BIBLIOTECA VIRTUAL


Por Alexandre Nodari - Eduardo Sterzi - Eduardo Viveiros de Castro -Idelber Avelar - Pablo Ortellado - Ricardo Lísias  - Veronica Stigger





A liberdade de expressão moderna é indissociável da invenção da imprensa, ou seja, da possibilidade de reproduzir mecanicamente discursos e imagens, fazendo-os circular e durar para além daquele que os concebeu. A própria formação da esfera pública, bem como do ambiente de debate científico e universitário, está umbilicalmente conectada à generalização do acesso aos bens culturais. Sem a disseminação da diversidade e do confronto de opiniões e de teorias, a liberdade de expressão perde seu sopro vital e se torna mero diálogo de surdos, quando não monólogo dos poderosos.


A internet eleva ao máximo o potencial democrático da circulação do pensamento. E coloca, no centro do debate contemporâneo, o conflito entre uma visão formal-patrimonialista e outra material-comunitária da liberdade de expressão. Tal cisão, bem real, pareceria manifestar-se no conflito entre direitos autorais e direito de acesso. Estes não são, porém, necessariamente antagônicos, pois o prestígio moral e econômico de um autor ou de uma obra está, em última análise, ligado à sua visibilidade. São incontáveis os exemplos de escritores e editoras que não só se tornaram mais conhecidos, como tiveram um incremento na venda de suas obras depois que estas apareceram para download. O público que baixa livros é o mesmo que os compra.

Assim, o verdadeiro conflito não é entre proprietários e piratas, mas entre monopolistas e difusionistas. A concepção monopolista-formal dos direitos autorais está embasada na ideia de que aquilo que confere valor à obra é a sua raridade, o seu difícil acesso; já a difusionista-democrática se ampara na inseparabilidade de publicidade e valor. A internet favorece a segunda concepção, uma vez que a existência física do objeto cultural que sustentava a primeira vai sendo substituída por sua transformação em entidade puramente informacional. Desse modo, também se produz uma transformação da natureza das bibliotecas. As novas bibliotecas virtuais se baseiam no armazenamento e na disseminação tais como as antigas bibliotecas materiais, mas oferecem uma mudança decisiva porque a estocagem depende da distribuição e não o contrário: é a difusão que garante o armazenamento descentralizado dos arquivos.

É uma biblioteca sem fins lucrativos e construída nesses moldes modernos e democráticos que se acha sob ameaça devido ao processo movido pela Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR), sob o pretexto de infringir direitos autorais. O alto preço dos livros, o desaparelhamento das bibliotecas públicas e o encarecimento do xerox levaram um estudante universitário a disponibilizar online textos esgotados ou de difícil acesso para seus colegas. A iniciativa cresceu, atraiu a atenção de estudantes e professores de todo o país e se tornou a mais conhecida biblioteca virtual brasileira de textos acadêmicos, ganhando prestígio comparável ao site “Derrida en castellano”, que sofreu processo semelhante e foi absolvido nas cortes argentinas, como esperamos que o “livrosdehumanas.org” o será pela Justiça brasileira.

Os defensores da concepção patrimonialista dos direitos autorais costumam pintar cenários catastróficos em que a circulação irrestrita de obras gera esterilidade criativa. No entanto, ignoram, ou fingem ignorar, que os textos nascem sempre de outros textos e que o autor é, antes de tudo, um leitor. Hoje, lamentamos a destruição das grandes bibliotecas do passado, como a de Alexandria, e das riquezas que elas protegiam. Poupemo-nos de chorar um dia pela aniquilação das bibliotecas virtuais e pela cultura que elas podiam ter gerado.





*Alexandre Nodari é doutor em Teoria Literária pela UFSC e editor da Cultura e Barbárie;


Eduardo Sterzi é escritor e professor de Teoria Literária na Unicamp;


Eduardo Viveiros de Castro é antropólogo e professor do Museu Nacional/UFRJ;


Idelber Avelar é crítico literário e professor da Tulane University (Nova Orleans, EUA);


Pablo Ortellado é professor de Gestão de Políticas Públicas e de Estudos Culturais na USP, coordenador do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (Gpopai);


Ricardo Lísias é escritor, autor de “O céu dos suicidas”, entre outros;


Veronica Stigger é escritora, professora de História da Arte na FAAP, coordenadora do curso de Criação Literária da Academia Internacional de Cinema (AIC).






5/29/2012

Escrever é o impoder






“Não escrevo mais”, disse e desapareceu Rimbaud. “A escrita é sempre o desacordo”,disse Blanchot. “Escrever não é algo que se possa”, disse Duras. Acuado por uma corrosiva abulia ouço: “Escrever é o impoder: a força que [pelas mãos] nos escapa". ... "Escrever é uma passagem na qual ato não se consolida jamais, pois aquele que escreve é o neutro cuja soberania só consolida no intervalo, entre a folha branca e o outro, no momento em que a escrita se efetua".  Nilson Oliveira

***


IMPODER

Não será a poesia mais do que aquele momento em que a linguagem, roçando a verdadeira natureza do ser, nele descobre o silêncio e assim se auto‑destrói? É esta, no fundo, a questão que Maurice Blanchot coloca em Le livre à venir (1959) ao contemplar as reflexões de Antonin Artaud sobre a essência do ser. Blanchot detém‑se na tese central patente na Correspondance avec Jacques Rivière, colectânea epistolar que Artaud fizera publicar 1927, onde é expressa a sua incapacidade de pensar o pensamento. Tornara‑se evidente, segundo Blanchot, que o autor dos dois manifestos do «théatre de la cruauté» chegara a um ponto sem retorno no qual assistia impotente à desagregação do acto de pensar e, consequentemente, à desintegração do seu produto final: o texto. Reconhecia assim implicitamente que toda a literatura em geral, e a poesia em particular, falhavam como fenómeno comunicativo. Para Artaud, a escrita poética instituía‑se como locus privilegiado do impoder («impouvoir»), i. e., da impossibilidade de pensar, espaço onde a inscrição das palavras mais não seria do que um gesto guiado pela angustiosa descoberta de que nada há para exprimir.

*
O momento de criação poética não se tratava, portanto, de um breve instante em que imperava a ilusão de se poder tanger o vazio e o inefável por via da linguagem. Pelo contrário; nascia da dolorosa consciência de que era impossível construir sentidos ante a ausência do ser, centro de toda a existência humana. Como dirá Blanchot, “l’être, ce n’est pas l’être, c’est ce manque de l’être, manque vivant que rend la vie défaillante, insaisissable et inexprimable, sauf par le cri d’une féroce abstinence” (Blanchot, 1959: 55). Mesmo que eventualmente a poesia partisse de um ensejo de comunicar ao próximo algo que só ao poeta pertencia, o grau de entropia seria praticamente nulo, uma vez que a linguagem com que ele trabalha lhe é única e, por isso, inacessível aos demais. Além disso, a confrontação com o incomunicável e o inominável gera um processo de erosão do pensamento que inexoravelmente o remete para formas estéreis e desprovidas de significado, qual olhar de Medusa empedernecendo todo e qualquer gesto, toda e qualquer expressão. Nesse caso, com que objectivo escreve o poeta — como que arrebatado pela vertigem do aniquilamento da sua própria voz — senão para admitir que nada há para escrever? Ainda assim, ele persiste em residir na poesia porque crê que somente através dela é possível acalentar a esperança de se evadir da inanidade, de iludir a vacuidade.Artaud teria certamente dado uma resposta negativa à angustiosa pergunta que Samuel Beckett deixa em suspenso em The Unnamable, uma das suas mais inquietantes narrativas: “Strange task, which consists in speaking of oneself. Strange hope, turned towards silence and peace. Possessed of nothing but my voice, the voice, it may seem natural, once the idea has been swallowed, that I should interpret it as an obligation to say something. But is it possible?” (Beckett, 1959: 285)

Fonte: http://www.edtl.com.pt/index.php?option=com_mtree&task=viewlink&link_id=416&Itemid=2















5/23/2012

Ponte do Galo: a cidade como labirinto do desejo


Ponte do Galo: foto retirada do google earth






Por Ernani Chaves


 




Texto publicado na revista Polichinello nº 13 ׀ Experiência-Limite
● ISSN: 2178-1230 – 10



         Alfredo sonhava freqüentemente com Belém. Desde Chove nos campos de Cachoeira que sua fantasia, sua imaginação, seu desejo, estão fortemente ancorados a sua “viagem” a Belém (CCC, p. 189). Dalcídio Jurandir escreve “viagem” assim, entre aspas, como que a indicar sua outra significação, pois não se trata de qualquer viagem, mas da viagem, aquela que foi sonhada, acalentada, exigida: “Quantas vezes, já com o frio da febre ou ainda com a febre, não ia chorando se queixar, bater os pés na cozinha onde sua mãe lava as xícaras do café ou mexe a panela - mamãe, me mande para Belém. Eu morro aqui, mamãe. Cresço aqui e não estudo. Quero estudar, quero sair daqui!” (CCC, p. 189).


         Belém aparece assim, de início, aos olhos do menino como o lugar da “vida”, em oposição a Cachoeira, um lugar de “morte”. “Estudar” parece ser, desse modo, apenas um pretexto, uma boa razão para ir embora e, provavelmente, tentar esquecer os fantasmas que marcam a sua infância. Belém se torna a cidade-salvadora, cidade-redentora, cidade-acolhedora, cidade-mãe, que as narrativas de Bibiano, o “filósofo”, segundo o Major Alberto, transformavam em “embevecimento” (CCC, p. 191). Era também a cidade-circo, marcada pelo riso e pela alegria dos trapezistas e engolidores de fogo.


         A contraposição a Alfredo e seu desejo de ir embora é Eutanázio, preso a Irene e a Cachoeira, incapaz de viver e sobreviver na cidade grande e, por isso, retorna sempre a Cachoeira. Eutanázio tem um livro de predileção, que nunca leu, mas gostaria de comprar. O livro, diz ele, se chama Dores do Mundo e seu autor, jamais mencionado, tem “um nome complicado” (CCC, p. 22, 23, 205). Ora, sabemos de quem se trata: Dores do Mundo é uma coletânea de aforismos e pequenos textos de um filósofo de “nome complicado”, Arthur Schopenhauer, o “filósofo do pessimismo” que, não por acaso, detestava o barulho, o ruído da grande cidade. Nesta perspectiva, enquanto Eutanázio vai ficando, cada vez mais enrijecido e impossibilitado de andar, na sua doença-prisão, no seu gozo infinito no sofrimento, Alfredo sonha, a todo momento, com sua partida: “Mas Alfredo acorda com aquela cidade cheia de torres, chaminés, palácios, circos, rodas giratórias que lhe enchem o sonho e o carocinho. De olhos abertos para o telhado, pensa na sua ida para Belém. Seu sonho é ir para Belém, estudar” (CCC, p. 86).


         Em Ponte do Galo, publicado em 1971, já encontramos Alfredo ginasiano, estudando em Belém, isto é, realizando, de algum modo, o sonho infantil de sair de Cachoeira e ir morar na cidade. Entretanto, o que é interessante observar é o quanto entre a visão do menino e do ginasiano, já se instala uma ruptura. A cidade-risonha, construída pelos olhos de Bibiano (CCC, p. 86), cidade-luminosa, iluminada, esta “Paris dos Trópicos”, dá lugar aos contornos de uma outra cidade, preferencialmente noturna, sombria, chuvosa, estrategicamente vista a partir do bairro do Telégrafo, cuja delimitação topográfica, geográfica, já é significativa por si só: de um lado, no oeste, a Baía, que dá vida e embeleza a cidade; de outro, no leste, as “baixas”, como a “baixa da Manuel Evaristo”, os alagados, os igapós, como os que cortavam a José Pio, onde os pés afundam na lama, as pessoas se equilibram sobre pontes e convivem com o cheiro do estrume das vacarias; no sul, o Igarapé das Almas ( ou será das Armas?!) e sua ponte que ligava a Avenida Senador Lemos ao bairro do Reduto e ao norte, emblemática, ligando o Telégrafo a Sacramenta, ela, a Ponte do Galo. Todos esses lugares são lugares de passagem, de ligação, de transição, como se não houvesse mais nenhum ponto fixo, nenhum esteio a sustentar uma sólida cumeeira.


         A cidade adentra na poesia e na literatura como um lugar fundamental, a partir do século XIX. Com Baudelaire e Rimbaud, Verhaeren e os Expressionistas, apenas para citar alguns. Antes que Alfred Döblin e John dos Passos, já na primeira metade do século XX, a tomassem como tema, ela já era vista como “potência de enfeitiçamento, de maravilhamento, uma espécie de desejo e de violência que anuncia a mitologia expressionista”, onde a cidade se tornará um misto de “paisagem de sonho e de angústia que se reencontram sem cessar”[1] .


         Talvez pudéssemos encontrar um denominador comum às diferentes visões da cidade, que a literatura construiu entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX num certo sentimento de “mal-estar”, de um “mal-estar” em meio à cultura, tal como Freud o chamou em seu texto seminal, publicado em 1930 - Das Unbehagen in der Kultur - um texto percorrido, de ponta a ponta, por imagens de cidades. E no seu centro, a imagem da Viena limpa, ordeira, com flores na sacada, mas que para além dos imperativos do progresso e da ordem, esconde a miséria psíquica: por trás de cada cortina de veludo espesso, com a qual a burguesia pensava se defender do anonimato que reinava em meio à multidão da grande cidade, o sofrimento neurótico. Assim, Freud, como o menino Alfredo, como cada um de nós talvez, desejou intensamente conhecer e viver em uma outra cidade, quis sair de sua Viena-Cachoeira, alimentando por um sonho, que o conduzia sempre a esta outra cidade, a Roma, a cidade-eterna.


         Com Freud e a Psicanálise, a cidade se converte numa configuração onírica e, com isso, torna-se o oposto da cidade do Barão Hausmann, o prefeito responsável pela transformação urbanística de Paris, na segunda metade do século XIX. Hausmann sonhara com uma cidade geométrica, perfeita, “cartesiana”, com suas largas avenidas, que facilitasse a circulação (mais dos carros que das pessoas!) e, principalmente, evitasse as revoltas e as manifestações populares. A cidade anti-Comuna, enfim, onde toda barricada fosse rapidamente vencida. A cidade freudiana é, portanto, ao contrário da do Barão Hausmann, “labiríntica”. Só que um labirinto sem o fio de Ariadne, um labirinto do desejo. Da mesma forma Dalcídio Jurandir, que superpõe à cidade de Antonio Lemos, cujo modelo era exatamente o prefeito parisiense, uma outra cidade, povoada de fantasmas, um “subúrbio fantasmal e gotejante, entre os fedores da vacaria, feira de peixe e bucho e a ruidosa insônia das crianças” (PG, p. 136).


         Personificando o desejo, essa deriva sem meta e sem fim, pois seu objeto está definitivamente perdido, encontramos as duas netas da parteira, Ana e Nini, descritas numa espécie de concluio mimético com a cidade. Podemos encontrá-las na esquina da Manuel Evaristo tomando tacacá (PG, p. 130), atravessando o Largo da Penitenciária em direção ao campo do Aston Vila Footbal Club (PG, p. 129), correndo pela Baixa da Manuel Evaristo para, mais adiante, cada uma tomar o seu rumo (PG, p. 1311). A avó-parteira, zelosa pelas netas, não se cansa de procurá-las, muitas vezes acompanhada por Alfredo. E assim, ela  conjectura o paradeiro das netas, aderindo, portanto, à mesma deriva, à mesma errância: talvez estejam no igarapé (PG, p. 132), na Sacramenta “fazendo velório” (PG, p. 133), quem sabe “varavam pela Pedreira” (PG, p. 133) ou “coorriam das cobras do Posto” (PG, p. 133).


         As netas, como a Irene de Chove, são figuras da sedução, da sexualidade, em especial Ana, que rouba a cena com sua sexualidade a transbordar na própria pele perfumada ou ainda no vestido de seda e no sapato. Para D. Dudu, a costureira que hospeda Alfredo, as netas têm uma “labareda” dentro de si (PG, p. 132). Alfredo corre atrás de Ana, como se quisesse livrá-la tanto do destino de Irene, quanto o de Luciana, a filha de D. Dudu, que “caíra na vida”. E nessa corrida contra o destino, Alfredo se embrenha na cidade, do Igarapé das Almas à Ponte do Galo, da Municipalidade ao fim da linha do bonde, já próximo ao curtume e aos estaleiros e navios do porto. Sempre atrás de Ana, que era “insaciável da rua e da noite” (PG, p. 137). É então que, finalmente, Alfredo a encontra e o diálogo deles constitui esta figuração da cidade como labirinto do desejo:





         “- Espionando? - pergunta Ana a Alfredo - Não tenho como que pagar a tua vigiação, amor dos outros. Larga o emprego, estudioso.


         - Ana, Ana, e tua irmã?


         - Corpo dela nasceu no meu? Nem de mim sei, que dirá.


         Um beiço de irritação e aposta, o rosto, agora pálido, à luz do poste, num ar de quem espera sentença. Alfredo não se mexia.


         - Mas então me apanha pela mão, me laça, me bota dentro de casa, costura a minha pele na parede, me prega com alfinete, me deixa pelada ao pé do fogão. Não és o domador? Me laça, me toca a vara: `pró chiqueiro, porca!`.


         E sorria à espreita, estendeu a mão, o braço nu, alvo, abandonado, a ilharga ao alcance. Alfredo pôs-se a rir, a fazer-lhe aceno que entrasse, a girar a mão, como se fosse laçá-la, entrasse, a porta estava encostada.


         - Tua vó te procura pelo planêto inteiro, mulher.


         - Mulher? Com que intenção `mulher`? Me diz!


         - Não és?


         - ´Mulher´, disseste com intenção, sim. Que te importa?


         E abanava, batia as chinelas ´mulher´!, olhava para ele, num resmungo. Mulher...


         - Eu só o que faço é andar pela noite”. (PG, p. 137-8).





Este trecho, uma amostra da maestria do escritor Dalcídio Jurandir, é extremamente significativo para os meus propósitos. Ana é aqui a figuração do desejo, repetindo uma figuração já clássica da prostituta: Ana, como uma mariposa, à luz do poste, desafiando despudoradamente o possível “domador”. O que diz Ana, o tempo todo, a não ser que não adianta querer amordaçar o desejo, atá-lo, imobilizá-lo? Pois não é o desejo esta força que nos arrasta, desafiando, antes de mais nada, a moral e os bons costumes? Ana, a “porca”, a “suinara” (PG, p. 142), que na sua pouca idade já é suspeita de ser “mulher”!. Ana, que como uma égua, “corria num galope, desaparecendo para os lados do curtume” (PG, p. 138). “Porca”, “suinara” e “égua galopando”: designações possíveis do desejo, para o que rompendo com a hegemonia da consciência e da unidade do sujeito, assinala para o que há de “animal” em nós. Figuração do corpo como sede dos afetos e das paixões, como o que resiste a dobrar-se à direção da alma. Mas também corpo feminino, corpo de mulher, a desafiar as imposições da cultura que a querem, preferencialmente, como esposa e mãe. Ana, coquete, sedutora, pedindo, num desafio: “me laça, me toca a vara: ´pro chiqueiro, porca!´”. E desaparece, galopando, não mais “porca”, “suinara”, não mais confinada à significação do desejo como sujeira, lama, lodo, como coisa “porca”, mas agora transmutada em “égua”, galopando, como se fosse alada, nesta outra significação do desejo como intensidade, vida, conquista do absolutamente insólito, do novo mais uma vez, como criação infinita, inesgotável, de outras possibilidades de existência, onde a errância é a condição de possibilidade da plenitude. As duas faces de Eros, que dominam a nossa cultura desde os gregos estão aí, juntas, reunidas em Ana


         A cidade de Ana é a rua, é a noite. Mas a rua não é aqui a dos palacetes dos barões da borracha, “a pacata rua chamada Benjamin Constant” de Eneida de Moraes[2], nem o “tranqüilo Umarizal” de de Campos Ribeiro[3], mas aquela que se oferece ao pé e à mão de Ana, ao desejo de Ana de percorrer vielas, de atravessar pontes, de perder-se nas matas do curtume, de misturar-se ao capim fresco, molhado de orvalho das vacarias, de entrar pelo Uma, correr pela Volta da Tripa e se acabar lá longe, cansada, arfante, esbaforida, na Ponte do Galo:





         “- Eu só faço é andar pela noite. Aleja?


         - É que a vó de vocês se esfalta.


         - ´tiveste no orfanato? Que tu sabes de mim?


         - Não discuto isso, Ana. O pé é teu, a noite na tua mão...


         - No meu pé, no meu pé, que a noite está. E olha, não deu a hora de recolher pro chiqueiro, adeus. Ou vai porfiar comigo ver quem corre mais até o curtume? Brincar de se esconder por dentro daqueles navios podres? Assustar as visagens deles?” (PG, p. 138).





         Assim é Ana, sempre assim, desafiadora como o desejo. Sim, a cidade está no seu pé e na sua mão. A cidade se estende diante dela como cúmplice, escondendo-a nas trevas da noite, facilitando sua correria, seu galope. Ana e a cidade: duas mulheres numa só.


         E Alfredo? O possível “domador”? Enquanto Ana vive o presente, Alfredo é obcecado pelas imagens do passado, por esses fantasmas que retornam à noite, nos sonhos. Assim, enquanto Ana corre, Alfredo fica ali, quase totalmente imóvel, enquanto a chuva cai sobre a José Pio. E então, como num sonho, onde fragmentos dispersos e diversos se reúnem e se sobrepõem, rompendo as costumeiras relações entre espaço e tempo, Belém é Cachoeira: “Agora na José Pio, chuva, chuva, naqueles bailes mortos sustentada, a casa trancava-se. Este tempe, em Cachoeira, é a apanha do tucumã e gogó” (PG, p. 138). A água da chuva ressuscita todos os fantasmas: Sabá Manjerona, o velho Araguaia, Isabel, Dada, Celina, Raul. E quanto mais a chuva cai, mais os fantasmas reaparecem: “Seguiu sob a chuva, não de Belém, chuvas de Cachoeira, as de outrora sobre o chalé, sobre a casa do seu Cristóvão, sobre Eutanázio andando” (PG, p. 139). Fragmentos do passado, permeados pela morte, assaltam Alfredo, de forma impiedosa. Alfredo, que sempre quis sair de Cachoeira, que sempre quis se libertar de sua própria infância, parece firmemente atado a esta campo movediço, a essa eterna busca, talvez sabendo que enquanto vai à busca de Ana, vai é em busca de si mesmo.


         Belém permanece para Alfredo uma imagem onírica, onde a criança e o ginasiano se encontram. A Belém idílica, sonhada tantas vezes em Cachoeira, não existe. A morte está em todo lugar. E a insaciável procura também. Não só por Ana, mas também por outra Ana, a Luciana, filha de D. Dudu, a sua hospedeira, que caíra na vida. Como se os filhos de Major Alberto, Alfredo e Eutanázio, estivessem condenados a esta eterna busca por mulheres, por uma mulher, como se nelas e apenas nelas, fosse possível encontrar a felicidade. É por Luciana também, que Alfredo bate a cidade. É por ela que a cidade também se oferece a ele e que, tal como para Ana, se encontra a seus pés:





         “Sem encontrar Luciana, que me enxota desta casa, agüento o Liceu? Toda a cidade aos meus pés. Entrocamento, Uma, Guamá, mata do Murutucu, ninguém sabendo de Luciana. Fujo. Deixo no pátio imundo nesta busca, aquela viagem, o barco a partir-se no quebra-pote debaixo da trovoada - a mãe atravessando a baia, sabia lá que sede ou poço oculto ou a sua ressurreição, por trazer o filho para a cidade, ´nada como saber, meu filho´, dizia o olhar dela, toda a verdade é o seu saber; sim tal qual a folha do lilás. Não era o barco que se partia, era o chalé, partido pelo mesmo raio que abriu a porta a Luciana” (PG, p. 149-50).


         A cidade aos pés de Alfredo! O que isso pode significar? Em primeiro lugar, uma precisa delimitação geográfica da Belém na década de vinte do século passado: o Entroncamento, o Uma, o Guamá, o Murutucu. A cidade inteira e seus limites. Em segundo lugar, a figura de Teseu-Alfredo em busca de Ariadne-Luciana-Ana, só que não há nenhum fio a seguir. Da cidade-labirinto, ele só pode saber dos limites, daquilo que designa o que não piode ser ultrapassado, como se para além desses limites houvesse o nada, o vazio, o caos absoluto, o não-mundo, esse espaço enigmático que antecede toda criação. Em terceiro lugar, a memória, o passado de novo assaltando sem piedade, a lembrança da tão sonhada viagem a Belém para estudar, com D. Amélia, a mãe, numa travessia difícil em meio ao temporal e ao quebra-pote das ondas da baía. Difícil travessia essa, alegoria das travessias na vida do próprio Alfredo.


         Este trecho, exemplar da forma cinematográfica do estilo de  Dalcídio Jurandir nos seus últimos livros, termina com uma indagação crucial, a mais fundamental de todas, talvez: “A ponte, passo? Por causa da Luciana, todos culpados, ou toda a culpa deles carrego eu?” (PG, p. 150). Não por acaso, neste momento Alfredo está passando por uma igreja e escuta o canto que vem de lá e a morte, mais uma vez, atravessa o caminho deste “andador da noite, rastreador do subúrbio”:





         “O eco das águas há pouco despejadas pela selva. Barco de náufragos, a igreja cantava. O canto, ou o coro de adeus e de socorro, despencava as quarenta noites de Eutanázio no chalé e aquelas de Luciana (...) A busca de Luciana junto à morte do irmão, visto agora pelo rapaz, por este andador da noite, rastreador de subúrbio, atrás do pastor, ali na igreja, que prega a esperança, por demais desprezada” (PG, p. 152).





         Mas, ao contrário do pastor, Dalcídio Jurandir não nos dá nenhuma esperança. Apesar de “comunista”, sua obra não deixa nenhum espaço para o otimismo baseado na crença do progresso, que alimentava as esquerdas, desde a 2ª. Internacional. Talvez porque, tal como seu personagem Eutanázio, o escritor Dalcídio Jurandir tivesse sempre diante de si uma página das Dores do Mundo, só que transformando o pessimismo schopenhaureano - como o faz Max Horkheimer - numa arma crítica contra as fáceis ilusões alienantes da Modernidade:





         “Não há nada fixo na vida fugitiva, nem dor infinita, nem alegria eterna, nem impressão permanente, nem entusiasmo duradouro, nem resolução elevada que possa durar toda a vida! Tudo se dissolve na torrente dos anos. Os minutos, os inumeráveis átomos de pequenas coisas, fragmentos de cada uma das nossas ações, são os vermes que devastam tudo quanto é grande e ousado...Nada se toma a sério na vida humana, o pó não vale esse trabalho”.





Ernani Chaves é professor da Ufpa, autor de No Limiar do Moderno: um estudo sobre F. Nietzsche e Walter Benjam – editora Paka-Tatu














[1] PALMIER, Jean-Michel, L´Expressionisme et les arts, vol. I, Paris, Payot, 1979, p. 314-5.
[2] Cf. Aruanda. Banho de Cheiro, Belém, Secult/Fcpnt, 1989, p. 49.
[3] Cf. Gostosa Belém de outrora..., Belém, s/d, p. 35.