8/23/2011

Colóquio Itinerários da comunidade.


Colóquio Itinerários da comunidade
Arte, política, literatura, filosofia


Dias 1º e 2 de setembro de 2011, 9:30-19:00 h
Auditório G-1 da Faculdade de Letras da UFRJ.
Av. Horácio Macedo, 2151. Cidade Universitária – RJ 21941-917


Proposta: A noção de comunidade está na encruzilhada das grandes questões
que atravessam o século XX e o XXI. Nos últimos cem anos desfilaram e
desfilam ainda diante de nós: comunidades culturais, de sangue, de origem,
raça, e filiação; comunidades nacionais ou minoritárias, resistentes e
hegemônicas; comunidades de gênero, de práticas sexuais; comunidades
identitárias, religiosas, territoriais, periféricas, suburbanas, de bairro;
comunidades solidárias; comunidades são as favelas do Rio de Janeiro, em
nova vestimenta terminológica; comunidades são particularidades coletivas
dotadas de um ethos, prática, linguagem e gestual. Observa-se hoje a
centralidade da questão em campos disciplinares tão distintos quanto: as
ciências sociais (antropologia, etnografia, sociologia, serviços sociais); a
política, sobretudo em sua vertente contemporânea, multiculturalista e
identitária; as novas práticas de intervenção local definidas por
estratégias alternativas de “discriminação positiva”, exteriores ou em
combinações complexas com os mecanismos do estado no contexto das políticas
solidárias; a crítica e prática literária, no impasse entre valor estético e
cultura, e na crise do paradigma nacional (de estado), como paradigma
privilegiado para o entendimento da literatura contemporânea.


Programa:

Dia 1º de setembro:

Abertura – 9:30 h - Eleonora Ziller Camenietzki  (Diretora da Faculdade
de Letras).

1) 10:00 h - Márcio Seligmann-Silva (UNICAMP) - “Toda comunidade é
fascista. Um elogio do nomadismo”.

2) 10:30 h - Karl Erik Schollhammer (PUC/RJ) – “Pode a literatura
formar uma comunidade estética?”

Mediação: João Camillo Penna (UFRJ).

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3) 11:30 h - Eduardo Sterzi (UNICAMP) - "A comunidade antropófaga".

4) 12:00 h - Denilson Lopes (UFRJ) – “Encenações Minimalistas e
Pós-Dramáticas do Comum”.
Mediação: Ângela Maria Dias (UFF).

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5) 15:00 h - Ângela Dias (UFF) – “Nostalgia da presença e comunidades
infundadas”.

6) 15:30 h - Paula Glenadel (UFF) – “Comunidades poéticas”.

Mediação: Ana Alencar (UFRJ).

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7) 16:30 h - Eliane Robert Moraes (USP) - "Sobreviver junto".

8) 17:00 h - Susana Scramim (UFSC)- “Agamben, a poesia e a comunidade
que vem”.

Mediação: Alberto Pucheu (UFRJ).

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9) 18:00 h - Edson Rosa (UFRJ) – “A obra de arte: resistência e
insubmissão".

10) 18:30 h - Rosana Kohl Bines (PUC-RJ) - “"Formas de partilha estética”.

Mediação: Marcelo Diniz (UFRJ).

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Dia 2 de setembro

11) 9:30 h - Francisco Foot-Hardman (UNICAMP) - “Contra Estado, Contra
Sociedade: a comunidade dos sem-pátria e os dilemas do novo anarquismo
global”.

12) 10:00 h - Roberto Vecchi (Universita degli Studi de Bologna) -
"Imperfeições, vácuos e potências do ser-em-comum: as incompletudes da
comunidade e a força literária".

Mediação: Danielle Corpas (UFRJ).
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13) 11:00 h - Raul Antelo (UFSC)– «Comunidade acéfala ».

14) 11:30 h - Ettore Finazzi Agrò (UNIROMA)- “Munus e communitas: a
identidade negociada e a comunidade ausente na Modernidade brasileira”.

Mediação: Ricardo Pinto (UFRJ).
 
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15) 14:30 h - Julio Ramos (UC Berkeley) - "Arte, trabajo y comunidad en los
murales fordistas de Diego Rivera en Detroit".

16) 15:00 h - Cláudio Oliveira (UFF) – “Comunidade que vem e política não
estatal em Giorgio Agamben”.

Mediação: Francisco Foot-Hardman (UNICAMP).

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17) 16:00 h - Roberto Zular (USP) – "Comunhão de bocas vazias ou a poesia
como potência de enunciação".

18) 16:30 h - João Camillo Penna (UFRJ) – “Comunidade autoimune”.

Mediação: Flávia Trocoli (UFRJ).

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19) 17:30 h - Ana Kiffer (PUC-RJ) – “Da comunidade, entre o intruso e o
corpo”;

20) 18:00 h - Marcelo Jacques de Moraes (UFRJ) - "A poesia: lugar comum,
lugar sem fim".

Mediação: Ângela Maria Dias (UFF).

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Informações:
Setor Cultural da Faculdade de Letras/UFRJ
Final do Bloco D- térreo
Tel. 2598-9732

Serão conferidos certificados a ouvintes que tiverem pelo menos 50% de
presença. Para se inscrever, contactar o Setor Cultural da Faculdade de
Letras.


Arte, política, literatura, filosofia


8/19/2011

Mais além dos direitos do homem




Por Giorgio Agamben

Editor do blog A navalha de Dalí

1. Em 1943, Hannah Arendt publicava em uma pequena revista hebraica em língua inglesa, “The Menorah Journal”, um artigo intitulado We refugees, “Nós, refugiados”. Ao final desse breve, mas significativo, escrito, depois de ter polemicamente esboçado o retrato de Mr. Cohn, o hebreu assimilado que, depois de ter sido 150% alemão, 150% vienense, 150% francês, ao cabo, deve dar-se conta, amargamente, de que on ne parvient pas deux fois, essa invertida condição de refugiado e de apátrida que se encontrava vivendo, para propô-la como paradigma de uma nova consciência histórica. O refugiado que perdeu todo direito e cessa, porém, de querer-se assimilar a qualquer preço a uma nova identidade nacional para contemplar lucidamente a sua condição, recebe, em troca de uma segura impopularidade, uma vantagem inestimável: “a história não é mais, para ele, um livro fechado, e a política deixa de ser privilégio dos Gentios. Ele sabe que o banimento do povo hebraico na Europa foi seguida imediatamente do banimento da maior parte dos povos europeus. Os refugiados expulsos de país em país representam a vanguarda de seus povos”.

Convém refletir no sentido dessa análise que, hoje, cinquenta anos distante, não perdera nada de sua atualidade. Não apenas o problema se apresenta na Europa e fora dela com igual urgência, mas, no declínio do Estado-Nação, atualmente impossível de deter, e na corrosão geral das categorias jurídico-políticas tradicionais, o refugiado é, talvez, a única figura do povo pensável em nosso tempo e, ao menos até nos aproximarmos da complementação do processo de dissolução do Estado-Nação e de sua soberania, a única categoria na qual, hoje, consentimos vislumbrar as formas e limites de uma comunidade política que vem. É possível, assim, que se quisermos estar à altura do trabalho absolutamente novo que temos à frente, devemos decidir abandonar sem reserva os conceitos fundamentais com que até então representamos os sujeitos do político (o homem e o cidadão com seus direitos, mas também o povo soberano, os trabalhadores etc.) e reconstruir nossa filosofia política a partir dessa única figura.

2. A primeira aparição dos refugiados como fenômeno de massa tem lugar no fim da primeira guerra mundial, quando a queda do Império russo, austro-húngaro e otomano e a nova ordem criada por tratados de paz perturba profundamente a ordem demográfica e territorial da Europa centro-oriental. Em pouco tempo, mudam-se de seus países 1.500.000 russos brancos, 700.000 armênios, 500.000 búlgaros, 1.000.000 de gregos, centenas de milhares de alemães, húngaros e romenos. A essa massa em movimento, vai aderida a situação explosiva determinada pelo fato de que cerca de 30% das populações dos novos organismos estatais criados por tratados de paz sob o modelo do Estado-Nação (por exemplo, na Iugoslávia e na Tchecoslováquia) constituíam minorias que deveriam ser tuteladas por meio de uma série de tratados internacionais (isto é, Minority Treaties), que remanesceram, grande parte, letra morta. Alguns anos mais tarde, a lei racial na Alemanha e a guerra civil na Espanha disseminaram pela Europa um novo e importante contingente de refugiados.
Nós estamos habituados a distinguir entre apátridas e refugiados, mas nem então, nem hoje, a distinção é simples como pode parecer à primeira vista. Desde o início, muitos refugiados, que não eram tecnicamente apátridas, preferiram tornar-se a retornar à pátria (é o caso dos hebreus polacos e romenos que se encontravam em França ou na Alemanha no fim da guerra e, hoje, dos perseguidos políticos e daqueles para os quais o retorno à pátria significa a impossibilidade de sobreviver). De outra parte, os refugiados russos, armênios e húngaros foram prontamente desnacionalizados pelo novo governo soviético, turco etc. É importante notar como, a partir da primeira guerra mundial, muitos Estados europeus começaram a introduzir leis que permitiam a desnaturalização e a desnacionalização dos próprios cidadãos: primeiro a França, em 1915, em relação a cidadãos naturalizados de origem “inimiga”; em 1922, o exemplo foi seguido pela Bélgica, que revogou a naturalização dos cidadãos que haviam cometido atos “antinacionais” durante a guerra; em 1926, o regime fascista editou uma lei análoga com respeito aos cidadãos que se mostravam “indignos da cidadania italiana”; em 1933, foi a vez da Áustria e, dessa maneira, até 1935, quando a Lei de Nuremberg divisara os cidadãos alemães de pleno direito e cidadãos sem direitos políticos. Essa lei – e a apatrídia de massa em que resultou – marcam uma reviravolta decisiva na vida do Estrado-nação moderno e a sua definitiva emancipação das noções ingênuas de povo e de cidadão.

Não é este o lugar para refazer a história dos diversos comitês internacionais por meio dos quais os Estados, a Sociedade de Nações e, mais tarde, a ONU procuraram fazer frente ao problema dos refugiados, desde o Bureau Nansen para os refugiados russos e armênios (1921), ao Alto Comissariado para os refugiados da Alemanha (1936), ou do Comitê intergovernamental para os refugiados (1938), passando pela International Refugee Organization da ONU (1946), até chegar ao atual Alto Comissariado para os refugiados (1951), cuja atividade não possui, segundo o estatuto, caráter político, mas apenas “humanitário e social”. O essencial é que, uma vez que os refugiados não representam mais casos isolados, mas um fenômeno de massa (como ocorre entre as duas guerras, e novamente agora), tanto essas organizações quanto os próprios Estados, malgrado a solene invocação dos direitos inalienáveis do homem, mostram-se absolutamente incapazes não apenas de resolver o problema, mas também, simplesmente, de enfrentá-lo de maneira adequada. A inteira questão fora, dessarte, transferida às mãos da polícia e das organizações humanitárias.

3. As razões dessa impotência não estão apenas no egoísmo e na limitação dos aparatos burocráticos, mas na ambiguidade das próprias noções fundamentais que regulam a inscrição do nativo (isto é, da vida) no ordenamento jurídico do Estado-nação. H. Arendt intitulara o capítulo quinto do livro sobre o Imperialismo, dedicado ao problema dos refugiados, O declínio do Estado-nação e o fim dos direitos do homem. Necessário tentar levar a sério essa formulação, que vincula indissoluvelmente as sortes dos direitos do homem e do Estado nacional moderno, de modo que o ocaso deste implica necessariamente a obsolescência daqueles. O paradoxo é aquele em que a própria figura – o refugiado – que deveria encarnar por excelência os direitos do homem marca, ao contrário, a crise radical desse conceito. “A concessão dos direitos do homem”, escreve H. Arendt, “baseada sobre a suposta existência de um ser humano como tal, arruína não apenas aqueles que a professavam, mas se encontraram, pela primeira vez, defronte a homens que haviam verdadeiramente perdido qualquer outra qualidade e relação específica, exceto o puro fato de serem humanos”. No sistema do Estado-nação, os assim chamados direitos sagrados e inalienáveis do homem mostram-se desprovidos de qualquer tutela no momento em que não é mais possível configurá-los como direitos dos cidadãos de um Estado. Isso está implícito, se bem se reflete, na ambiguidade do próprio título da declaração de 1789: Declaração dos direitos do homem e do cidadão, em que não é claro se os dois termos nomeiam duas realidades distintas, ou formam, ao revés, uma díade na qual o primeiro termo é, em verdade, sempre, e desde logo, conteúdo do segundo.

Que algo como o puro homem em si não possua, no ordenamento político do Estado-nação, qualquer espaço autônomo, isso é evidente ao menos pelo fato de que o estatuto do refugiado fora sempre considerado, ainda que no melhor dos casos, como uma condição provisória que deve conduzir ou à naturalização ou à repatriação. Um estatuto estável do homem em si é inconcebível no direito do Estado-nação.

4. É tempo de deixar de olhar a Declaração dos direitos de 1789 até hoje como proclamação de valores eternos, meta-jurídicos, tendentes a vincular o legislador a seu respeito, e de considerá-la segundo aquela que é a sua função real no Estado Moderno. Os direitos do homem representam, em verdade, sobretudo a figura originária da inscrição da vida nua natural na ordem jurídico-política do Estado-nação. Aquela vida nua (a criatura humana) que, no Ancien Régime, pertencia a Deus e, no mundo clássico, era claramente distinta (como zoé) da vida política (bios), entra agora em primeiro plano no controle do Estado e se torna, por assim dizer, o seu fundamento terreno. Estado-nação significa: Estado que faz da natividade, do nascimento (isto é, da vida nua humana) o fundamento da própria soberania. Este é o sentido (sequer demasiadamente oculto) dos primeiros três artigos da Declaração de 1789: somente porque se inscrevera (arts. 1º e 2º) o elemento nativo no coração de toda associação política, essa pode unir inextricavelmente (art. 3º) o princípio da soberania à nação (em conformidade com o étimo, natio significa, na origem, simplesmente “nascimento”).

As Declarações de direitos serão agora vistas como lugar em que se efetua a passagem da soberania régia de origem divina à soberania nacional. Essas asseguram a inserção da vida na nova ordem estatal que deverá suceder à queda do Ancien Régime. Que, por meio disso, o súdito se transforme em cidadão, significa que o nascimento – isto é, a vida nua natural – torna-se, aqui, pela primeira vez (com uma transformação cujas consequências biopolíticas apenas agora somos capazes de começar a mensurar) o portador imediato da soberania. O princípio de natividade e o princípio de soberania, separados no Ancien Régime, unem-se a partir de agora irrevogavelmente, a fim de constituir o fundamento do novo Estado-nação. O engodo implícito é que o nascimento torna-se imediatamente nação, de modo que não possa haver qualquer intervalo entre os dois momentos. Os direitos são, pois, atribuídos ao homem apenas na medida em que ele é pressuposto imediatamente evanescente (ainda que não deva vir a lume como tal) do cidadão.

5. Se o refugiado representa, no ordenamento do Estado-nação, um elemento de tal sorte inquietante é, sobretudo, porque ao estilhaçar a identidade entre homem e cidadão, entre natividade e nacionalidade, coloca-se em crise a invenção originária da soberania. Singulares exceções a esse princípio, naturalmente, sempre existiram: a novidade do nosso tempo, que ameaça o Estado-Nação em seu próprio fundamento, é que porções crescentes da humanidade não são mais representáveis em seu interior. Por isso, ao passo em que é destruída a velha trindade Estado-Nação-Território, o refugiado, essa figura aparentemente marginal, merece ser, ao revés, considerado como a figura central de nossa história política. É bom não esquecer que os primeiros campos foram constituídos na Europa como espaço de controle para os refugiados, e que a sucessão campo de internação-campo de concentração-campo de extermínio representa uma filiação perfeitamente real. Uma das poucas regras a que os nazistas se ativeram no curso da “solução final” era a de que apenas depois de terem sido completamente desnacionalizados (mesmo daquela cidadania de segunda classe que os aguardava logo depois da lei de Nuremberg), os hebreus e os ciganos podiam ser enviados aos campos de extermínio. Quando os seus direitos não são mais direitos do cidadão, agora o homem é verdadeiramente sacro, no sentido que esse termo tem no direito romano arcaico: entregue à morte.

6. Necessário libertar resolutamente o conceito de refugiado daquele de direitos do homem, e cessar de considerar o direito de asilo (de resto, hoje em vias de drástica contração nas legislações dos Estados europeus) como a categoria conceitual na qual se inscreve o fenômeno (um olhar sobre o recente Tesi sul diritto d’asilo de A. Heller mostra que, hoje, isso não pode senão conduzir a confusões inoportunas). O refugiado é considerado por aquilo que é, ou seja, nada menos que um conceito-limite que põe em radical crise os princípios do Estado-nação e, conjuntamente, permite conduzir o campo a uma renovação categorial contemporaneamente inadiável.

No entretempo, em verdade, o fenômeno da assim chamada imigração ilegal nos países da Comunidade Européia assumira (e assumirá cada vez mais nos próximos anos, com os previstos 20 milhões de imigrantes dos países da Europa Central) caracteres e proporções tais a justificar plenamente esse deslocamento de perspectiva. Tanto que os Estados industrializados estão, hoje, defronte a uma massa estavelmente residente de não-cidadãos, que não podem nem querem ser naturalizados ou repatriados. Esses não-cidadãos adensaram uma nacionalidade de origem, mas enquanto preferem não usufruir da proteção de seu Estado, vêm a encontrar-se, como os refugiados, na condição de “apátrida de fato”. T. Hammar propusera usar, para esses residentes não-cidadãos, o termodenizens, que tem o mérito de mostrar como o conceito citizen pode ser desde logo inadequado para descrever a realidade político-social dos Estados modernos. De outra parte, os cidadãos dos Estados industriais avançados (tanto nos Estados Unidos como na Europa) manifestam, através de uma crescente deserção em face das instâncias codificadas de participação política, uma propensão evidente a transformarem-se em denizensb imiscuindo-se, ao menos em certas faixas sociais, em uma zona de potencial indistinção. Paralelamente, em conformidade com o conhecido princípio segundo o qual a assimilação substancial em presença de diferenças formais exaspera o ódio e a intolerância, crescem as reações xenófobas e a mobilização defensiva.

7. Antes que reabramos na Europa os campos de extermínio (o que está começando a ocorrer), é necessário que os Estados-nações encontrem coragem para colocar em questão o próprio princípio de inscrição da natividade e a trindade Estado-nação-território em que isso se funda. Não é fácil indicar desde logo os modos pelos quais isso poderá concretamente advir. Basta, aqui, sugerir uma possível direção. É sabido que uma das opções examinadas pela solução do problema de Jerusalém é que essa se torna, contemporaneamente, e sem repartição territorial, capital de dois diferentes organismos estatais. A condição paradoxal de recíproca extraterritorialidade (ou melhor, de aterritorialidade) que isso implica poderia ser generalizada como o modelo de novas relações políticas internacionais. Ao invés de dois Estados nacionais separados por incertas e ameaçadas fronteiras, seria possível imaginar duas comunidades políticas insistentes sobre uma mesma região, e ambas em êxodo, articuladas entre si por uma série de recíproca extraterritorialidade, na qual o conceito-chave não seria mais o ius do cidadão, mas o refugium do indivíduo. Em sentido análogo, podemos ver a Europa não como uma impossível “Europa das nações”, na qual já se entrevê a catástrofe a curto prazo, mas como um espaço aterritorial, ou extraterritorial, no qual todos os residentes dos Estados europeus (cidadãos e não-cidadãos) estariam em posição de êxodo ou de refúgio, e o estatuto de europeu significaria o estar-em-êxodo (obviamente ainda imóvel) do cidadão. O espaço europeu demarca, assim, um intervalo irredutível entre o nascimento e a nação, no qual o velho conceito de povo (que, como sabido, é sempre minoria) poderia reencontrar um sentido político, contrapondo-se decisivamente àquele de nação (que, até então, o teria indevidamente usurpado).

Esse espaço não coincide com qualquer território nacional homogêneo, nem com a resultante topográfica, mas age sobre eles, perfurando-os e articulando-os topologicamente, como uma garrafa de Leyden ou uma banda de Moebius, em que externo e interno se indeterminam. Nesse novo espaço, a cidade européia, entrando em relação de recíproca extraterritorialidade, reencontraria a sua antiga vocação de cidade do mundo.

Em uma espécie de terra de ninguém entre o Líbano e Israel, encontram-se, hoje, quatrocentos e vinte e cinco palestinos expulsos do Estado de Israel. Esses homens constituem certamente, segundo a sugestão de H. Arendt, “a vanguarda de seu povo”. Porém, não necessariamente, ou não apenas, no sentido segundo o qual esses formariam o núcleo originário de um futuro Estado nacional que resolveria o problema palestino provavelmente de modo tão insuficiente quanto Israel resolvera a questão hebraica. Ao contrário, a terra de ninguém em que esses são refugiados retroagira, já, sobre o território do Estado de Israel, perfurando-o e alterando-o de maneira que a imagem daquela pequena montanha coberta de neve é tornada mais interior que qualquer outra região de Heretz Israel. Apenas em uma terra em que os espaços dos Estados serão estados desse modo perfurados e topologicamente deformados, e nos quais o cidadão terá sabido reconhecer o refugiado que ele mesmo é, é pensável, hoje, a sobrevivência política dos homens.


Tradução do original, em italiano, AGAMBEN, Giorgio. Al di là dei diritti dell’uomo. In: Mezzi senza fine: notte sulla politica. Torino: Bolatti Boringhieri, 1998, p. 20-29.

·· Professor do Curso de Direito do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas da Fundação de Estudos Sociais do Paraná (CCSA/FESP) e advogado. Mestre em Filosofia e Teoria do Direito pelo Curso de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal de Santa Catarina (CPGD/UFSC). Graduado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná (FD/UFPR).

8/18/2011

A palavra nua de Foucault





Entrevista de Michel Foucault publicada em 1966, no Le Monde (concedida a Claude Bonnefoy), após a publicação de As Palavras e as Coisas. 


Essa entrevista foi reproduzida em 21 de novembro de 2004 por Clara Allain na Folha de SP.


O sr. poderia explicar como abordou a escrita? 


Uma de minhas lembranças mais constantes -certamente não a mais antiga, mas a mais obstinada- é a das dificuldades que tive para escrever bem. Escrever bem no sentido em que se entende o termo na escola primária, ou seja, criar páginas de escrita bem legíveis. Acredito -na verdade, tenho certeza- que, em minha classe e minha escola, eu era o mais ilegível. Isso continuou por muito tempo, até os primeiros anos do ensino secundário.
Assim, minha relação com a escrita era um pouco complicada, um pouco sobrecarregada. Mas existe outra recordação, bem mais recente. É o fato de que, no fundo, eu nunca levei muito a sério a escrita, o ato de escrever. O desejo de escrever só surgiu forte em mim quando eu tinha cerca de 30 anos. Para chegar a descobrir o prazer possível da escrita, foi preciso estar no exterior.

Eu estava vivendo na Suécia e me via obrigado a falar ou o sueco, que conhecia muito mal, ou o inglês, que praticava com muita dificuldade. Meu conhecimento fraco dessas línguas me impediu de dizer o que eu realmente queria durante semanas, meses, até mesmo anos.
Eu via as palavras que queria dizer sendo travestidas, simplificadas, tornando-se como pequenas marionetes irrisórias à minha frente, assim que as pronunciava.

Nessa impossibilidade de usar minha língua própria, percebi, em primeiro lugar, que esta possuía uma espessura, uma consistência, que ela não era simplesmente como o ar que respiramos, uma transparência absolutamente insensível, mas que tinha suas leis próprias, seus corredores, suas linhas, seus declives, suas costas, suas irregularidades -em suma, que tinha uma fisionomia e que formava uma paisagem na qual podíamos caminhar e descobrir em volta das palavras, das frases, de repente, pontos de vista que não apareciam até então.

Nessa Suécia em que tinha que falar uma língua que me era estranha, compreendi que podia habitar minha língua, com sua fisionomia repentina   particular, como o lugar mais secreto, mas mais seguro, de minha residência   nesse lugar sem lugar que é o país estrangeiro no qual nos encontramos.

Quando o sr. começou a escrever, houve uma reviravolta, então, com relação a essa concepção primeira   e desvalorizadora da escrita? 
A reviravolta veio, evidentemente, de mais longe. Mas cairíamos numa autobiografia ao mesmo tempo anedótica demais e banal demais para que fosse interessante falarmos dela. Digamos que foi por meio de um trabalho longo que eu finalmente conferi a essa palavra tão profundamente desvalorizada um certo valor e um certo modo de existência.
Hoje, o problema que me preocupa -e que, na realidade, não pára de me preocupar há dez anos- é o seguinte: em uma cultura como a nossa, em uma sociedade como a nossa, o que significa a existência das palavras, da   escrita, do discurso? Me pareceu que nunca atribuímos importância tão grande ao fato de que, ao final de tudo, o discurso existe.

Os discursos não são apenas uma espécie de película transparente através da qual e graças à qual enxergamos as coisas, eles não são simplesmente o espelho do que é e do que pensamos. O discurso possui uma consistência própria, sua espessura, sua densidade, seu funcionamento. As leis do discurso existem do mesmo modo que as leis econômicas existem.
É claro que ela marca uma conversão total com relação àquilo que, para mim, era a desvalorização absoluta da palavra quando eu era criança. Me parece - creio que consiste nisso a ilusão de todos aqueles que acreditam descobrir alguma coisa- que meus contemporâneos são vítimas das mesmas miragens de minha infância. Também eles crêem facilmente demais, como eu fazia no passado, como se acreditava em minha família, que o discurso, a linguagem, não é grande coisa, no fundo.

Os lingüistas, eu sei, descobriram que a linguagem é muito importante porque ela obedece a leis, mas eles insistiram sobretudo na estrutura da linguagem, ou seja, na estrutura do discurso possível.
Mas eu me pergunto é sobre o modo de surgimento e funcionamento do discurso real, sobre as coisas que foram efetivamente ditas. Trata-se de uma análise das coisas ditas, na medida em que são coisas. É isso que é o oposto do que eu pensava quando era criança.

Sinto uma impressão de veludo quando escrevo. Para mim, a idéia de uma escrita aveludada é como um tema familiar, no limite do afetivo e do perceptivo, que não pára de assombrar meu projeto de escrever, não pára de guiar minha escrita quando estou escrevendo, que me permite a cada momento escolher as expressões que quero utilizar. A doçura é uma espécie de impressão normativa para minha escrita. Assim, fico muito espantado ao constatar que as pessoas tendem a enxergar em mim alguém cuja escrita é seca e mordaz.

Refletindo sobre isso, acho que são elas que têm razão. Imagino que deve   existir, em minha caneta, uma velha herança do bisturi. Talvez, afinal, eu trace sobre a brancura do papel os mesmos sinais agressivos que meu pai traçava sobre os corpos dos outros que ele operava. Transformei o bisturi em caneta. Passei da eficácia da cura à ineficácia da livre proposta, substituí a cicatriz sobre o corpo pela grafitagem sobre o papel, substituí o inapagável da cicatriz pelo sinal perfeitamente apagável e rasurável da   escrita. Talvez seja mesmo o caso de ir mais longe ainda. A folha de papel,   para mim, talvez seja como os corpos dos outros.

O que é certo, o que eu senti imediatamente quando, perto dos 30 anos de idade, comecei a sentir o prazer de escrever, é que esse prazer de escrever sempre guardou um pouco de relação com a morte dos outros, com a morte de modo geral. Essa relação entre escrita e morte é algo do qual mal ouso falar, pois sei quanto alguém como [Maurice] Blanchot já falou sobre coisas muito mais essenciais, gerais, profundas e decisivas do que o que eu possa dizer   agora.

Eu diria que a escrita, para mim, está ligada à morte, talvez essencialmente   à morte dos outros, mas isso não significa que escrever seria como assassinar os outros e realizar contra eles, contra sua existência, um gesto definitivamente mortífero que os expulsaria da presença, que abriria um espaço soberano e livre à minha frente. De maneira nenhuma. Para mim, escrever significa lidar com a morte dos outros, sim, mas, essencialmente, significa lidar com os outros na medida em que já estão mortos. De certa maneira, falo sobre o cadáver dos outros. Devo confessar que, até certo ponto, eu postulo sua morte. Falando deles, me vejo na situação do anatomista que faz uma autópsia.

Com minha escrita, eu percorro o corpo do outro, faço incisões nele, levanto os tegumentos e as peles, procuro trazer os órgãos à tona e, com isso, fazer aparecer finalmente o local da lesão, o local onde reside o mal, esse algo que caracterizou sua vida, seu pensamento e que, em sua negatividade, acabou por organizar tudo o que eles foram. Esse coração venenoso das coisas e dos homens -é isso, no fundo, o que eu sempre procurei trazer à tona.

Eu compreendo, também, porque as pessoas sentem minha escrita como uma agressão. Elas sentem que existe nela alguma coisa que as condena à morte. Na realidade, sou bem mais ingênuo do que isso. Eu não as condeno à morte. Simplesmente suponho que já estejam mortas. É por isso que me surpreendo quando as ouço gritar. Fico tão espantado quanto o anatomista que sentisse redespertar de repente, sob a ação de seu bisturi, o homem sobre o qual pretendia fazer uma demonstração. Bruscamente, os olhos se abrem, a boca se mete a gritar, o corpo a se retorcer, e o anatomista se espanta: "Então ele não estava morto!".
Acho que é isso o que acontece comigo em relação àqueles que me criticam ou gritam contra mim, depois de me haver lido. Sempre é muito difícil para mim responder a eles, exceto por uma desculpa, desculpa que eles talvez interpretem como ironia, mas que, na realidade, é a expressão de meu espanto: "Então eles não estavam mortos!".


Tradução de Clara Allain.


Capitalismo Global e as Biolutas!









DA CRISE DO CAPITALISMO GLOBAL À CONSTITUIÇÃO DO COMUM
Seminário Internacional revolução 2.0

24 DE AGOSTO
14:00 Sessão de abertura
Sarita Albagli, Giuseppe Cocco

14:30 Mesa 1: Entre a Crise do Capitalismo Global
e a Democracia em Rede
Peter Pal Pelbart – PUC-São Paulo
Giuseppe Cocco – ECO/UFRJ e PPGCI/IBICT - UFRJ
Raul Sanchez – Universidad Nómada, Madrid
Ivana Bentes – ECO - UFRJ
Coord: Sarita Albagli - IBICT

25 DE AGOSTO
9:00 Mesa 2: Cidade, Direitos Emergentes, MegaEventos
Tomas Herrero – Universitat Oberta de Catalunya
Alexandre Mendes – Defensor Público
Emilia de Souza - Associação dos Moradores do Horto (AMHOR)
Coordenação : Francisco Guimaraens -
Departamento de Direito - PUC-Rio

14:00 Mesa 3: Metropole: Crise da Governança e Novos Conflitos
Thierry Baudouin – CNRS França
Michele Collin – CNRS FRança
Jeroen Klink - UFABC
Gerardo Silva - UFABC
Coord.: Liz Rejane Issberner – IBICT

26 DE AGOSTO
9:00 Mesa 4: Produção Compartilhada, Inovação e Democracia
Gigi Roggero – Universidade de Bologna - Italia
Sergio Amadeu - UFABC
Vinicius Wu – Chefe de Gabinete do Governador Tarso Genro (RS)
Yann Moulier Boutang – UTC de Compiègne (França)
Coord : Maria Lucia Maciel - UFRJ

14:00 Mesa 5: Cultura Viva, Trabalho Vivo
Pedro Barbosa – Universidade Nômade
Barbara Szaniecki - ESDI - UERJ
Javier Toret – Movimento Democracia Real Ya (Barcelona – Espanha)
Leonora Corsini – LabTec - UFRJ
Coord: Clóvis Lima - IBICT

COORDENAÇÃO
Giuseppe Cocco, Sarita Albagli, Gerardo Silva, Leonora Corsini, Maria Lucia Maciel

LOCAL
Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas
Auditório Ministro João Alberto Lins de Barros
Rua Lauro Muller, 455 - Botafogo
Rio de Janeiro - RJ


REALIZAÇÃO
Laboratório Território e Comunicação - LABteC (PPGCO/UFRJ)
Laboratório Interdisciplinar sobre Informação e Conhecimento - Liinc (IBICT-UFRJ)
Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação – PPGCI (IBICT-UFRJ)
Rede Universidade Nômade

APOIO
CNPQ, CAPES, FAPERJ, IBICT, CBPF



8/09/2011

O Poeta Do Castelo / Manuel Bandeira.


Documentário de Joaquim Pedro de Andrade. 

Elenco: Manuel Bandeira.

Versos de Manuel Bandeira, lidos pelo poeta, acompanham e transfiguram os gestos banais de sua rotina em seu pequeno apartamento no centro do Rio; a modéstia do seu lar, a solidão, o encontro provocado por um telefonema, o passeio matinal pelas ruas de seu bairro.


8/04/2011

Carta a D. História de um amor




História de um amor



 Por Juan Forn
Olhem o casal da foto, projetem-na para o futuro e imprimam, sobre ela, essas frases: “Você acabou de completar oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, só pesa quarenta e cinco quilos, mas segue sendo bela, elegante e desejável. Faz cinqüenta e oito anos que vivemos juntos e escrevo a você para compreender o que tenho vivido, o que temos vivido juntos, porque te amo mais do que nunca”. Agora imaginem que essas frases são o começo de uma carta, dele a ela, uma carta de cem páginas que ele irá escrevendo noite após noite, enquanto ela dorme no quarto de cima de uma casinha rodeada de árvores, nas proximidades do povoado de Vosnon, na região francesa do Ausbe. Menos de um ano depois, a polícia local fará esse trajeto, alertada por uma nota pregada na porta da casa: “Prévenir à la Gendarmerie”. A porta está aberta. Na cama matrimonial do quarto de cima jazem em paz André Gorz e sua esposa Dorine. De um lado, uma linhas escritas a mão, dirigidas à prefeita da cidade: “Querida amiga, sempre soubemos que queríamos terminar nossas vidas juntos. Perdoa a ingrata tarefa que te deixamos.”

Pouco antes, Gorz havia terminado de escrever aquela longa carta a sua esposa Dorine e a enviado ao seu editor de sempre, que a públicou com o título “Carta a D. História de um amor”. Na última página, diz Gorz: “À noite eu vejo, às vezes, a silhueta de um homem que, numa estrada vazia e numa paisagem deserta, anda atrás de um carro fúnebre. Não quero assistir a sua incineração, não quero receber um frasco com tuas cinzas. Vigio a sua respiração, minha mão acaricia a sua. Dissemo-nos sempre, por impossível que seja, que, se tivéssemos uma segunda vida, iríamos querer passá-la juntos”.
André Gorz era um judeu austríaco “completamente desprovido de interesse, não tem um centavo, escreve”: assim foi apresentado formalmente à inglesa Dorine, quando ela chegou a Suiça, em 1947, com um grupo de teatro vocacional. Ela esperava outro homem, na Inglaterra, para se casar. Mas, Dorine preferiu subir num trem com Gorz rumo a Paris. Ali trabalhou de modelo vivo, recolheu papel usado para vender por quilo, foi guia de uma escritora britânica que estava ficando cega, enquanto ela escrevia num sótão. Também aprendeu  alemão sozinha (ele se negou a lhe ensinar; havia jurada não voltar a usar essa língua quando correram com ele da Áustria), para ajudá-lo na vistoria da imprensa européia que ele fazia para uma agencia e que se converteria, com o tempo, em sua marca de estilo: o cruzamento entre filosofia e jornalismo de seus potentes ensaios breves. Antes, Gorz fracassou com um romance que pretendia ser um grande ensaio totalizador sobre a época e, até mereceu um prólogo de Sartre (O traidor). O romance levava ao paroxismo esse olhar-se o umbigo, firmemente, dos existencialistas franceses (“Enquanto indivíduo particular, ele não via relevância alguma em que alguém se lhe unisse como individuo particular. Não há relevância filosófica alguma na  pergunta Por Que Se Ama”). No restante de seus livros, Gorz é, exatamente, o oposto dessa voz: nunca impostou, nunca se pôs em primeiro plano, nunca se fixou no próprio umbigo ao teorizar, nunca escreveu outro romance, tampouco; é considerado o pai da ecologia política.  Saber-se-á o que significará isso dentro de alguns anos. Mas, mesmo assim, a obra de Gorz termina sendo apenas uma nota de rodapé desse tempo (o que vai da Guerra Fria e das guerras de libertação às crises do comunismo e a crise da política) que não caiu em nenhuma das armadilhas da inteligência. Essa foi sua virtude, sua forma de fazer filosofia e jornalismo ao mesmo tempo.
Naquela carta que escreveu a Dorine antes de morrer, Gorz lhe diz: “Nossas relação se transformou no filtro pelo qual passava minha relação com a realidade. Por momentos, necessitei mais de teu juízo do que do meu”. Não foi o único a valorizá-la dessa maneira. Sartre, Marcuse e Iván Illich se apaixonaram, em diferentes épocas, por essa mulher impenitentemente discreta. Mas ela preferia Gorz. Ele também a preferiu: duas vezes mudou literalmente de vida por influência de Dorine. A primeira foi aos quarenta anos, quando ela descobriu que havia contraído uma doença incurável por culpa de uma substância que lhe haviam injetado para lhe fazer radiografias: a medicina lavou as mãos sobre o caso e ela começou uma corrente de correspondência com outros afetados do mesmo mal, que não só lhe deu décadas de sobrevivência mas que levou Gorz a mudar o eixo de seu discurso; nas relações de Dorine viu os rudimentos essenciais daquilo que chamaria ecologia política (esse lugar onde se tocam o pensamento de Sartre com o de Marcuse, de Iván Illich e de Foucault). A segunda vez foi aos sessenta anos, quando decidiu se aposentar antes do tempo para se dedicar por completo a Dorine: para levar a mesma vida que ela primeiro e, depois, fazer para ela as coisas que ela já não podia fazer (“Lavro seu jardim. Você me assinala da janela do quarto de cima em que direção seguir, onde necessita mais trabalho”).
O suicídio a dois de Gorz e Dorine tem dois antecedentes sobre os quais correm rios de tinta: quando Stefan Zweig bebeu e deu de beber a sua jovem segunda esposa um frasco de barbitúricos diluído em limonada, num hotel de Petrópolis, Brasil, onde havia chegado fugindo da Segunda Guerra; e quando Arthur Koestler fez o mesmo com a sua esposa de sempre (e a seu cachorro de sempre, também), em sua casa de Londres, fugindo do Mal de Parkinson que o estava devorando. Em ambos os casos, houve nota de suicídio, em ambos os casos o papel da mulher foi tristemente passivo, em ambos os casos há uma atmosfera opressiva e amarga que a última cena de Gorz e Dorine consegue evitar quase por completo.
Naquela carta derradeira, Gorz fazia uma tremenda confissão a sua esposa: “Durante anos considerei uma fraqueza o apego que você me manifestava. Como diz Kafka, em seus diários, meu amor por você não se amava. Eu não sabia me amar por lhe amar. Você fez o mesmo para me ajudar a ser eu mesmo e assim lhe paguei”. Gorz havia visto uma vez Dorine dizer, com toda naturalidade, a Beauvoir: “Amar a um escritor implica amar o que escreve”. Dorine lhe havia dito o mesmo na noite em que conseguiu conquistá-la, na Suiça, em 1947: “Seremos o que faremos juntos”. Mas, recém tomou plena consciência do que diziam aquelas palavras quando terminou de escrever aquela carta, subiu pela última vez aquelas escadas e se encostou para sempre naquela cama, junto à mulher com quem havia partilhado, dia após dia, sessenta anos seguidos, desde aquela noite na Suiça. “Lá fora está escuro. Estou tão atento a sua presença como quando começamos. Vejo sua respiração, minha mão lhe acaricia. No caso de ter uma segunda vida, oxalá a passemos juntos”.



Tradução: Boca do Mangue



Fonte: 
texto extraído do blog Boca do Mangue:


Nota: O livro “Carta a D. História de um amor” foi publicado no Brasil, pelas editoras Anna Blume e Cosac Naify, em 2008. Este livro você encontra na Estante Virtual.


(Artigo de Juan Forn, no jornal argentino Pagina/12, em 15/07/2011.

8/01/2011

A força do anonimato| c i d a d e




A cidade anônima
Marina Garcés

Texto de Marina Garcés, professora de Filosofia da Universidade de Zaragoza e da UOC,  e integrante de Espai en Blanc, que introduziu o debate sobre “A cidade e o anonimato -  a crise do espaço público”, em Metrópolis – revista de información y pensamiento urbano, nº 79, verano 2010. Na seqüência, publicaremos alguns dos outros textos da série. Tradução do espanhol: Boca do Mangue.

Na cidade cinzenta e disciplinada do capitalismo industrial, o anonimato era sinônimo de homogeneidade, padronização das formas de vida, silenciamento da dissidência, repressão da diferença… O anonimato apontava para uma indeterminação e para uma invisibilidade que representava uma promessa de liberdade em relação às comunidades fechadas tradicionais, mas também uma nova forma de controle social. Hoje em dia, as metrópoles contemporâneas já não são governadas através da padronização de todas as formas de vida, mas, ao contrário, através de uma gestão pormenorizada das diferenças (culturais, raciais, econômicas, pessoais). A vida tem sido privatizada até o extremo em que cada pessoa vê seu próprio “eu” convertido numa marca que deve administrar e, portanto, visibilizar a partir daquilo que a distingue e singulariza. O anonimato, então, se converte em tudo aquilo que não cabe e que escapa a essa estratégia de miniaturização seletiva do controle. Assim, o anonimato adquire novos sentidos. Falar da cidade anônima, em nosso contexto metropolitano atual, implica um deslocamento decisivo: da cidade cinzenta para uma realidade social opaca, do padrão ao difuso, do silêncio ao rumor, da vida intercambiável à vida irredutível. Em definitivo, é o deslocamento do anonimato como forma de submissão ao anonimato como forma de resistência.
Nessas páginas, queremos recorrer aos distintos sentidos desse anonimato que resiste. Em continuidade ao trabalho sobre A força do anonimato que Espai em Blanc desenvolveu em 2008-2009, nos propomos dar um passo mais além e oferecer um olhar caleidoscópico sobre as distintas práticas que conformam esse novo anonimato: deserção, desafeto e abstenção, mas também rebelião, picaresco e apoio mútuo. O anonimato encontra hoje sua força, muitas vezes ambivalente, no silêncio do cidadão descrente, na mobilidade dos migrantes para além das diferentes formas de captura de sua identidade, na cooperação uma a uma das redes peer-to-peer e da Web 2.0, nas redes afetivas de um novo picaresco urbano ou no fogo sem palavras de uma periferia em chamas, para nomear alguns exemplos.
Não queremos cair na armadilha de formular a pergunta sociológica ou policial sobre os novos anônimos (quem são?) para tratar de identificá-los, mas queremos nos situar precisamente onde essa pergunta deixa de funcionar. O que ocorre, então? Que possibilidades se abrem? De que maneira o anonimato pode ser a expressão da heterogeneidade mais radical e de um desafio aos atuais dispositivos de poder?
Partimos da hipótese de que as transformações metropolitanas que acabamos de descrever não são a expressão de metamorfoses superficiais das formas de vida, mas implicam numa mudança radical do espaço político moderno. Suas formas de visibilidade e de representação já não funcionam, ainda que sigam se impondo como formas ocas de reprodução do que há. Encontramo-nos numa realidade pós-política na qual a pergunta pelo comum já não passa pelas instituições que conhecemos até hoje. O espaço político, saturado de palavras e de imagens capturadas (pelo mercado, pela publicidade, pela comunicação) está recorrido em seus porões e em suas margens por uma vitalidade que se lhe escapa. A cidade anônima é o nome que damos a esse outro mapa, composto de afetos e desafetos que não se correspondem com os indicadores sociais mais reconhecidos: participação política, coesão social e crescimento econômico. Por isso, podemos dizer que a cidade anônima é a cidade que cresce quando as coordenadas do espaço político moderno se desarticulam. Mais especificamente, a cidade anônima emerge na implosão do consenso, no esgotamento do sujeito político e, como dizíamos, na crise do espaço público. Vejamos mais detalhadamente.
Em primeiro lugar, a cidade anônima é o rumor de fundo que implode o consenso que fundamentou uma determinada configuração política e social, nascida nas cidades ocidentais após a Segunda Guerra Mundial. O mundo globalizado não é um mundo unificado. É um mundo que expulsa, condena, maltrata grande parte da população, dentro e fora do primeiro mundo. O consenso tácito sobre o progresso, as conquistas sociais e o desenvolvimento, compartilhado por opções políticas diversas, se quebrou. Quem espera de quê?  Não sabemos de que estão feitas hoje as esperanças nem os mal-estares. A cidade anônima é o cenário de uma nova questão social.
Em segundo lugar, o anonimato emerge como potência política após o esgotamento do sujeito moderno, em suas diferentes figuras: o proletariado já não existe, nem como consciência nem como horizonte de luta, e a cidadania se transformou numa soma agônica de indivíduos privatizados, de “eus-marca” competindo no cenário do mercado global. Poder se esfumar, desertar, apagar-se, desaparecer e, ao mesmo tempo, poder cooperar, ressoar e se aliar sem se tornar prisioneiro de uma nova captura identitária ou corporativa é a dupla potencia desse anonimato resistente que transborda as capacidades conhecidas do sujeito político moderno.
Finalmente, a cidade anônima é o mapa humano (material, urbano, social e político) que se impõe na crise do espaço público, como miragem da palavra e da visibilidade auto-transparentes. Hoje, poderíamos dizer, parafraseando a conhecida sentença de Spinoza: não sabemos o que pode uma cidade. Dentro de uma mesma cidade, vivemos vidas e falamos linguagens intraduzíveis, padronizadas unicamente pelos ritmos do consumo. Mas, frente a isso, nossa pergunta não é: como reduzir essa disparidade a códigos visíveis e interpretáveis?, e, sim, como torná-la mais opaca, mais resistente e mais criativa? É evidente que essa fragmentação favorece em muitas ocasiões a guetização, a auto-referência, a polarização, a desigualdade, inclusive aos enfrentamentos. Mas, a cidade anônima é precisamente o anúncio de novas respostas que já não aceitam o ou dentro ou fora, o comigo ou contra mim como código de comportamento. Dentro, porém, à margem, a cidade anônima não aspira simplesmente ao acesso, à inclusão e à representação. Pode usar ou reclamar taticamente seus direitos, mas, sobretudo, move-a o desejo de criar espaços de vida habitável. Nas páginas que seguem nos propomos explorar os sentidos e as possibilidades de alguns desses espaços, com todas as sombras e ambigüidades que possam implicar.
Publicado em 06/05/2011 por Boca do Mangue