4/12/2012

SOBRE FOTOGRAFIA, FILOSOFIA E POESIA: aprender a olhar é aprender a morrer



Foto da exposição "Para se ter de onde se ir"

Por Edilson Pantoja

Existir é errar. Não necessariamente no sentido de quem, a dispor previamente do que é certo, opta pelo errado. Certezas são ficções temporárias de quem é trânsito. De quem é abertura, de quem, sendo, abre-se necessariamente à temporalidade. Para o homem, único existente entre todos os que vivem, a errância é condição. Ek-sistir quer dizer: deslocar-se, pôr-se para fora, abrir-se rumo a seus possíveis. Pelo que se poderá entender, noutra luz, o dito popular segundo o qual “errar é humano”.

A reflexão vem a propósito de “Para se ter de onde se ir”, exposição fotográfica de Miguel Chikaoka, fundador da Associação Fotoativa, referência em experimentação e educação, há quase trinta anos, para as gerações que, desde então, em Belém, e daqui para fronteiras mais distantes, transitam ou constituem a cena fotográfica. O título, sugerido pelo curador Mariano Klautau Filho, e prontamente aceito pelo fotógrafo, evoca A Cabana, poema de Max Martins (1926-2009):

É preciso dizer-lhe que tua casa é segura

Que há força interior nas vigas do telhado

E que atravessarás o pântano penetrante e etéreo

E que tens uma esteira

E que tua casa não é lugar de ficar

Mas de ter de onde se ir

Assim, título, e por extensão, poema, dão a primeira direção semântica, tanto para a seleção da curadoria no vasto acervo, quanto para a recepção do público, embora, como é de se supor, em se tratando de experiência estética, sempre singular, esta não se limite, em cada observador, à mera associação entre as fotografias expostas e os títulos – o da exposição e os de cada obra particular (fixados, como de praxe, em discretas plaquetas), que tanto podem ser referência direta a elementos da imagem, como ao lugar em que foram captadas. Todas as que têm título ou referência ao lugar trazem também a data de realização. Tempo e espaço verbalmente enunciados têm por finalidade imediata informar sobre as imagens: mediatamente, porém, indicam o “em trânsito”, o a caminho de, a errância do fotógrafo desde os anos de juventude.

Mas nem todas as fotografias têm referências verbais: apenas as expostas nos dois salões de entrada do museu. A maioria em preto e branco. Após estes, num terceiro ambiente, uma sala cujas dimensões contíguas, associadas ao tema das fotografias ali presentes (lar, casa, ambiente familiar), denotam intimidade, sugerem a aposta semiótica da curadoria: agora é apenas o conjunto aleatório de índices e ícones, signos não-verbais, quem informa o espectador. Este já se encontra no coração da exposição, onde um retrato de Chikaoka jovem, cabeludo e com roupa algo extravagante, “rebelde”?, o transporta até o passado, e dado o reforço semiótico das demais imagens, o espectador percebe estar no interior da casa habitada pelo jovem: a casa dos pais, onde, porém, como nas “fotos de Paris”, de Eugène Atget, apenas móveis, objetos, utensílios, coisas, enunciam a presença humana, como o faz um retrato em moldura circular, pequeno, distante, a pairar, desde a parede de um quarto, sobre o ambiente, a observar ninguém. Ele próprio a quase desaparecer no vazio. Todos teriam partido? Teria sido dali que o jovem, em busca de “para ter de onde se ir”, também partiu? E é a ausência, consequência da partida, que o rosto, tornado imagem pela ausência do verbo que o identifique, observa? Embora flou, percebem-se nele traços asiáticos e marcas do tempo já vivido pelo retratado (a), um dos pais? A mãe, talvez? Quem seja, também já não está fisicamente ali. A imagem é toda ausência, a reforçar, no olhar que paira sobre camas, paredes, a fisionomia da casa, e a marcar, assim, na sugestão do “trânsito”, do “ter ido para onde”, a esvaída presença humana.

Foto da exposição "Para se ter de onde se ir"
No mesmo espaço outro retrato se destaca: um homem negro, close do rosto também bastante marcado pela idade, reivindica atenção. Quem pode ser? Seguem-se ambientes domésticos, móveis, poltronas, violoncelo, violão, o verbo ausente, salvo, em alguns casos, como integrantes de fotografias, onde se lêem avisos sobre aulas, anúncios, recomendações a alunos, o endereço e nome do professor de música: Tó Teixeira. Ora, o nome que batiza a lei municipal de incentivo à cultura! E o espectador, que só dispunha do nome, agora se vê diante dos traços, do rosto do homem que o carregou pela vida e que com ele se identificava, a quem Chikaoka ainda encontrou quando chegou a Belém. Sim, os lugares, as “cabanas” se misturam, como também se misturam diversas fotografias dispostas sobre uma mesa, separadas em quatro grupos, para que o espectador possa manusear. O manuseio as misturou, e agora as duas casas, os dois lugares, o de partida (Registro, no interior de São Paulo) e o de chegada (a Belém do início dos anos oitenta), onde o fotógrafo fincou moradia – o que não quer dizer, em absoluto, que se estabeleceu, isto é, que deixou de “transitar”. Tais informações, porém, já são depreendidas de tudo o que, bastante emocionado, o fotógrafo enunciou por ocasião de “Conversas com Miguel Chikaoka – Trajetórias do Fotográfico”, proferida na noite de sexta, 05, no Museu de Arte da Universidade Federal do Pará, que abriga a exposição.

Frente à platéia que lota o salão, Chikaoka, artista convidado do Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia, um acontecimento de alcance nacional, agora em sua terceira edição, fala, às vezes com dificuldade para esconder a emoção, de sua infância em Registro, da educação tradicional familiar recebida na comunidade japonesa formada por imigrantes, da importância do cinema japonês, dos filmes de samurais, figuras heróicas para o menino, exibidos no cinema da comunidade, da referência paterna, de onde o princípio do servir, compartilhar, dividir, que fundamentam a Fotoativa em sua atuação formativa. Aborda os anos de juventude, quando vai para Campinas cursar engenharia e onde tem contato com certo filme de Kurosawa, filme crítico da imagem de correção da família japonesa: “Não sei dizer se, à época, gostei ou desgostei do filme”. Mas começava aí um processo de abertura, de estranhamento, de experiências importantes no campo do pensamento e da estética que marcariam definitivamente o fotógrafo. Seguem os anos na França, o contato com a literatura: Clarice Lispector, Hermann Hesse, entre outros, cujas capas de livros são brevemente mostradas no slide, conforme se dá a interação com Mariano Klautau Filho, com Joaquim Marçal Ferreira de Andrade, pesquisador da Divisão de Iconografia da Biblioteca Nacional, que fazem a mediação, e com o público, que lhe dirige diversas perguntas. Morando em Nancy, onde estudava, Chikaoka relata ir a Paris todos os meses para visitar exposições fotográficas, e se envolve com grupos em torno da fotografia, a experimentar relações solidárias. É com tal bagagem, profundamente arraigada a sua visão de mundo, que Chikaoka vem para Belém, início da década de oitenta e final dos “anos de chumbo”, onde logo se envolve com grupos de artistas, fotógrafos, estudantes, intelectuais em luta pelos Direitos Humanos e contra a ditadura. Miguel monta oficinas de fotografia, mediante as quais põe em ação a concepção filosófica colhida ao longo da formação, e tudo por aqui começa – a errância paradoxal continua em busca de “para se ter de onde se ir”.

Miguel vê na fotografia muito mais que captura de imagens físico-químicas. Vê nela possibilidades de encontros, de caminhar junto, de ser-com, de servir. Vê na experiência com a luz, com o tempo, ocasiões de pensamento. Por exemplo, quando aborda sua experiência com a pinhole, câmera artesanal objeto de oficinas que ainda hoje ministra, em que a luz penetra por pequeno furo de agulha (daí o nome), vindo a gravar imagens nítidas, conforme determinações naturais óticas, físicas, e faz analogia, por contraste, entre a pequena abertura, filtro do excesso de luz e responsável pela invariável experiência de espanto dos alunos frente à simplicidade do processo natural, e a vivência do homem contemporâneo, a receber informações em excesso, artifícios que não dá conta de filtrar, processar, experimentar. A pinhole, diz o fotógrafo, é oportunidade para a surpresa, para o espanto, para o deslocamento desde o fluxo excessivo, cotidiano, e, daí, para a reflexão. Ora, o espanto, a admiração e a surpresa também eram reconhecidos por filósofos como Platão e Aristóteles como elementos desencadeadores da experiência de pensamento. Da reflexão crítica.

Foto da exposição "Para se ter de onde se ir"

O fotógrafo defende então que todas as escolas deveriam ter câmaras obscuras e pinholes, além de um espaço físico, uma sala, para experiências desse tipo com os alunos. E perguntado se nas oficinas ministradas pelo Brasil e mundo afora – Europa, Estados Unidos, Japão, percebeu diferença nesse quesito educativo, diz que o panorama não é diferente. E relata que mesmo entre fotógrafos profissionais, munidos de máquinas tecnologicamente avançadas, viu não serem raros os que desconhecem a experiência direta com a luz, como se tem, por exemplo, nas simples câmaras obscuras feitas de papel cartão, onde a imagem, sem as lentes e espelhos que imitam órgãos internos da visão e a reposicionam, aparece como é gerada: de ponta-cabeça. Experiências de estranhamento.

E, por falar nisso, num dado momento, após o slide exibir a fotografia acima, vencedora de uma das edições do Salão Arte-Pará, e que não faz parte da exposição, esta constituída apenas de imagens nunca apresentadas ao público, alguém pediu para o fotógrafo falar sobre a imagem, o contexto de produção, ao que este, sob nova emoção, relatou íntima e dolorosa experiência de perda – mas também de aprendizado, corrigiu, ao que acrescentou ser a vida um apreender a morrer, aprendizado que a fotografia, enquanto aprender a olhar, auxilia, nisto outra vez aproximando-se, em minha recepção, de certos pensadores gregos que defendiam o mesmo princípio em filosofia.

Bem, muito mais foi visto e ouvido, mas creio já ter atingido o ponto que o texto ansiava – esta referência à morte, “pântano penetrante e etéreo”, destino último de todo ir, de toda errância; razão originária, e nisto abissal, de todo buscar um “Para se ter de onde se ir”; “possibilidade da impossibilidade”; mola propulsora de todo criar, de todo produzir, de todo imaginar; causa fundamental de todo pensar; deserto palmilhado de fantasmagorias, que são os significados humanos; “Não” absoluto, fonte enviesada, (à ponta-cabeça como as imagens da câmara obscura), de toda e qualquer tentativa de “sim”, que é como nomeio cada um desses significados produzidos pelo homem – e julgo que fora desses não há mais, a concordar com um poeta que, a denunciar todas as fantasmagorias iludidas com a esperança de não o serem, pergunta a seus criadores: “o que é tudo senão o que pensamos de tudo?”, o mesmo poeta que noutra ocasião também diz:

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.

Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto

Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.

Toneladas de pedras e tijolos: significados, fantasmagorias, ilusão de ótica!
E o fotógrafo, com ele os poetas, nos convida a aprender a olhar, a re-conhecer que nossas imagens não são senão produto (poiesis) de nossa solidão e de nosso desamparo, das vertigens decorrentes de nossa queda no tempo, este abismo de cujas entranhas ela, a morte, nos espreita. Abismo, que, outra figura do deserto e da morte, é nosso único quinhão. Resta encará-lo de frente e “dizer-lhe que tua casa é segura, que há força interior nas vigas do telhado”, e que, contudo, “tua casa”, tua habitação, “não é lugar de ficar”, “mas de ter de onde se ir”. Ir para onde, afinal? Para “lá!” Ora, o que é propriamente esta segurança e esta força interior, esta decisão, enfim, de que fala Max Martins? Penso ser aquilo mesmo que a filosofia, seja com Nietzsche, quando propõe “amar o destino”, seja com Heidegger, quando fala da propriedade, do ser próprio, por exemplo, no parágrafo 50 de “Ser e Tempo”:

A morte é uma possibilidade de ser que o Dasein tem, a cada instante, de assumir ele próprio. Com a morte, o Dasein encontra-se consigo mesmo no seu poder-ser mais próprio (autêntico). Nesta possibilidade, trata-se pura e simplesmente para o Dasein do seu ser-no-mundo. A sua morte é a possibilidade de já não ser Dasein. [1]

Eis então como vejo, como recebo a exposição, as “Conversas com Miguel Chikaoka – Trajetórias do Fotográfico”, as figuras da errância, das “Cabanas” de Max Martins, Tó Teixeira e do jovem Miguel: uma referência ao “habitar”, ao existir, à Poesia, em sentido existencial, como modo de produzir (poiesis) sentido. A propósito, dois outros textos de Heidegger me parecem fundamentais para aprofundar e esclarecer o que aqui penso da relação entre Poesia, construir, habitar, existência e morte, que são: “Construir, habitar, pensar” e “… poeticamente o homem habita…”, nos quais a linguagem desponta como via de acesso à mencionada relação. Neste último, inspirado no poema “In Lieblicher Bläue…(No azul sereno…)”, de Höderlin, Heidegger, comenta (p. 167):

Fotógrafo Miguel Chikaoka  

Quando Höderlin fala do habitar, ele vislumbra o traço fundamental da presença humana. Ele vê o “poético” a partir da relação com esse habitar, compreendido nesse modo vigoroso e essencial.
Isso decerto não diz que o poético seja apenas um adorno e acréscimo ao habitar. O poético do habitar também não significa apenas que o poético anteceda de alguma maneira o habitar. As palavras “…poeticamente o homem habita…” dizem muito mais. Dizem que é a poesia que permite ao habitar ser um habitar. Poesia é deixar-habitar, em sentido próprio. Mas como encontramos habitação? Mediante um construir. Entendida como deixar-habitar, poesia é um construir.

Desse modo, vemo-nos agora diante de uma dupla imposição: de um lado, cabe pensar, a partir da essência do habitar, o que se designa por existência humana; de outro, cabe pensar a essência da poesia, no sentido de um deixar-habitar, como o construir por excelência. Buscando o vigor essencial da poesia na perspectiva mencionada haveremos de adentrar a essência do habitar.

E mais à frente (173):

No sentido rigoroso da palavra, poesia é uma tomada de medida, somente pela qual o homem recebe a medida para a vastidão de sua essência. O homem se essencializa como mortal. Assim se chama porque pode morrer. Poder morrer significa: ser capaz de morte como morte. Somente o homem morre – e, na verdade, continuamente, enquanto se demora sobre esta terra, enquanto a habita. Seu habitar se sustenta, porém, no poético.

E, para encerrar, cito o primeiro dos textos, que afinal se complementam. Nele, Heidegger, a recorrer, como de costume, às etimologias, aproxima ainda mais, neste recurso à linguagem, a relação daqueles elementos. Diz ele (127):

Construir significa originalmente habitar. Quando a palavra Bauen, construir, ainda fala de maneira originária, diz, ao mesmo tempo, que amplitude alcança o vigor essencial do habitar. Bauen, buan, bhu, beo é, na verdade, a mesma palavra alemã “bin”, eu sou nas conjugações ich bin, du bist eu sou, tu és, nas formas imperativas bis, sei, sê, sede. O que diz então: eu sou? A antiga palavra bauen (construir) a que pertence “bin”, “sou”, responde: “ich bin”, “du bist” (eu sou, tu és) significa: eu habito, tu habitas. A maneira como tu és, eu sou, o modo segundo o qual somos homens sobre a terra é o Buan, o habitar. Ser homem diz: ser como um mortal sobre essa terra. Diz: habitar.

Poesia é, pois, habitar; habitar é ser; ser é construir; construir é aprender a morrer. Tal aprendizado, tal mudança de perspectiva se completará se nós, no curso da errância, mas firmes e produtivos, satisfeitos por finalmente havermos desmascarado nossas ilusões, e já reconciliados com o Destino, e de peito aberto ao trágico, pudermos, fortes, dizer, a exemplo do filósofo do “amor fati” e daquele já citado poeta:

Vem, noite antiqüíssima e idêntica,

Noite Rainha nascida destronada,

Noite igual por dentro ao silêncio. Noite

Com as estrelas lantejoulas rápidas

No teu vestido franjado de infinito.

Amar o destino, ser propriamente não significa desejar ou provocar a própria morte, como ocorre a quem vê na vida um fardo insuportável, e, por amá-la, mas, contudo, sem aceitá-la em seu assim, decide morrer, já dizia com quase as mesmas palavras, Schopenhauer; significa fortalecer-se justamente no reconhecimento de que é assim, e, apesar de tudo, vibrar com o assim.

Poesia é, pois, errância. Mas errância não é necessariamente desvio. Este caracteriza toda tentativa de fuga ou mascaramento do assim. Permanecer na simples errância, e não desaguar no desvio, significa abrigar-se na segurança da busca paradoxal, como disse o poeta evocado na exposição: significa buscar, não “ter aonde ir”, mas justamente um: “ter de onde se ir”. Este “de onde” revela a consciência sobre a natureza do Habitar, que, como dito, quer dizer simplesmente errância, trânsito; razão de ser de toda “Cabana”, habitação provisória – e por isto definitiva. Ou seja: Assim. Poesia!

Enfim:

Tua casa não é lugar de ficar

Mas de ter de onde se ir


***

Texto publicado originalmente so site MUSA RARA

*

Edilson Pantoja é escritor & filosofo, autor dos romances Albergue Noturno (Belém: Edições IAP, 2005), com o qual ganhou em 2005 o cobiçado “Prêmio IAP de Literatura”, promovido pelo Instituto de Artes do Pará, e A Pedra de Babel (São Paulo: Editora All Print, 2010)


REFERÊNCIAS:

HEIDEGGER, M. Construir, habitar, pensar. In: Ensaios e conferências. Petrópolis: Vozes, 2002,pp. 125 -141.
HEIDEGGER, M. “… poeticamente o homem habita…” In: Ensaios e conferências. Petrópolis: Vozes, 2002,pp. 165 -181.
HEIDEGGER, M. Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes, 1998.
MARTINS, Max. A Cabana. Consultado em:
NIETZSCHE, F. Ecce Homo. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
PASQUA, Hervé. Introdução à leitura de Ser e Tempo de Martin Heidegger. Lisboa: Instituto Piaget, 1997.
PESSOA, Fernando. Poemas diversos. Trechos pinçados na ordem em que aparecem desde os respectivos sites:

Matéria de jornal em:

Imagem:
CHIKAOKA, Miguel

4/04/2012

Gatos & Escritores

Para Bento, Nina & Kiki: sempre por perto









Ode ao gato
João Bosco Maia


Os animais foram
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça vôo.
O gato,
só o gato apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.

O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite até os seus olhos de ouro.

Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma coisa
só como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa de uma nave.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogar as moedas da noite .

Oh pequeno imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.

Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
certamente não há
enigma na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertences
ao habitante menos misterioso
talvez todos acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gato, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos do seu gato.

Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço o gato.
Tudo sei, a vida e o seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica
o gineceu com os seus extravios,
o pôr e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
os seus olhos têm números de ouro.




***






Cat - de Andréa Carvalho Gavita

Notar deles como os dois olhos se acendem no escuro e o jeito como que ondulam invisíveis. Estão sempre perguntando desde sua íris-de-espelhos. O mistério de que nada digam, só perguntem, é o que intriga e faz de um gato, mais que um dicionário novo, uma girafa, muito mais que uma tartaruga no cio.

Wilson Bueno (Manual de zoofilia)  


Cat - de Heleine Fernandes

A Fala do Gato



O gato siamês

tem uns vinte miados:

alguns são suaves,

outros exaltados;

há os miados graves

e há os engasgados.

É quase um idioma

que ainda não entendo

mas o gato bem sabe

o que está dizendo.

E até falou comigo

em linguagem de gente.

Disse: “meu amigo”,

assim de repente.



Então eu acordei

feliz e contente!

Era sonho, claro.

Mas, como se sabe,

é no sonho que ocorre

o que se deseja

e no mundo não cabe.

Ferreira Gullar


Benedito Nunes



Eu postulo que os gatos começaram como companheiros psíquicos, como Familiares, e nunca se afastaram dessa função.

William Burroughs



  L. F. Celine

Uma gentil e maníaca senhora tinha Um gato siamês. Era um bichinho de raça, criado como se fosse gente. Gato bonito, amigo, parecia um deus. Só faltava falar. Muito triste, a senhora passava duas horas por dia tentando ensinar o gatinho a falar. Repetia letras, sílabas, palavras. Tinha esperança que a qualquer hora aquele olhar inteligente se manifestaria.
Morava na mesma casa um outro animalzinho. Inferior ao gato, preso no poleiro de ferro, a pobre ave conversava. Até mais do que devia. Um papagaio que falava pelos poros! Se é que os tinha. Curiosa a natureza, pensava a mulher. Um gato quase humano, sem fala. E um papagaio cretino, a conversar. Foi então que teve a brilhante idéia. Matou o papagaio, depenou-o e o cozinhou. Pensou. Se o gato comer a carne do papagaio, ele, certamente, falará.
Só que o gato não quis comer o amigo. Até apanhar o gatinho apanhou. Não conseguia imaginar o companheiro cozido, na panela. Mais tarde, vencido pela fome, o gato engoliu todo o papagaio da panela.
Imediatamente, sua dona pulou de alegria! Enfim, o gato falaria! O gato, sentindo-se mal, começou a gritar, dizendo que fugisse pois, o prédio estava prestes a cair.
Ela, rindo e chorando por causa do milagre, nem ouviu o que dizia. O gato insistia. Pulou para a rua, insistindo. Sua dona deveria sair do prédio. Bem rápido.
Mas não deu tempo de mais nada. Um estrondo, e o prédio caiu, desmoronou-se. Sua dona ficou no meio dos escombros. Talvez estivesse ainda com um sorriso nos lábios. Afinal, seu gatinho falara! O bichano, assustado, comentou melancolicamente com um gato mais pobre do terreno ao lado. Sua dona preocupou-se tanto com a sua fala! E no momento que falou, ela não prestou atenção! E o artista não acredita mesmo na sua criação!

Millor Fernandes

Albert Camus


O gato dorme a tarde inteira no jardim. Sonha (?) tigres enviesados a chamá-lo para a fraternidade no jardim. Gato sonhando, talvez sonho de homem? Continua dormindo, enquanto ignoro a natureza e o limite do seu sonho e por minha vez também me sonho (inveja) gato no jardim.

Carlos Drummond de Andrade


Samuel Beckett


Se digo “é um gato real” que me vê nu, é para assinalar sua insubstituível singularidade. Quando ele responde ao seu nome (seja lá o que queira dizer “responder”, e esta será pois nossa questão), ele não o faz como um exemplar da espécie “gato”, ainda menos de um gênero ou de um reino “animal”. É verdade que eu o identifico como um gato ou uma gata. Porém, antes mesmo dessa identificação, ele vem a mim como este vivente insubstituível que entra um dia no meu espaço, nesse lugar onde ele pôde me encontrar, me ver, e até me ver nu.
Jacques Derrida (O animal que logo sou) 



Foucault

O homem gostaria de ser peixe ou pássaro,
a serpente gostaria de ter asas, o cão é um leão confuso...
Mas o gato quer ser somente gato,
e todo gato é um puro gato
desde o bigode ao rabo

Pablo Neruda



Ezra Pound

O GATO

Na minha casa desejo ter
Uma mulher que imponha a sua razão
Um gato passeando por entre os livros
E porque sem eles não posso viver
Amigos seja qual for a estação

GUILLAUME APOLLINAIRE  (Bestiário)


Jacques Prévert

“O gato não oferece serviços. Ele se oferece. Claro que ele quer carinho e abrigo. O amor não é de graça. Como todas as criaturas puras, os gatos são pragmáticos.”

William Burroughs (O gato por dentro)


Truman Capote

Se eu prefiro os gatos aos cães é porque não existem gatos policiais.
                     Jean Cocteau


Georges Perec

O pêlo do gato para alisar. Limpinho, o quente contato da mão no dorso, corcoveante e nodoso à carícia. O lânguido sono de morfinômano. O marzinho de leite no pires e a língua secreta, ágil. A ninhada de gatos, os vacilantes filhotes de olhos cerrados. O novelo, a bola de papel — o menino e o gato brincando. Gato lúdico. O gatorro, mais felino do que o cachorro é canino. Gato persa, gatochim — o espirro do gato de olhos orientais. Gato de botas, as aristocráticas pantufas do gato. A manha do gato, gatimanha: teve uma gata miolenta em segredo chamada Alemanha. 

Otto Lara Resende (Gato gato gato)


William Burroughs

Em cima do muro, indiferente aos cacos de vidro, um gato — outro gato, o sempre gato — transportava para a casa vizinha o tédio de um mundo impenetrável.

Otto Lara Resende  (Gato gato gato)



Jack kerouac

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.
És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.

Fernando Pessoa (1-1931)



Hermann Hesse

“Indícios apontam que os gatos foram domesticados pela primeira vez no Egito. Os egípicios armazenavam grãos, que atraíam roedores, que atraíam gatos. (Não há prova de que isso tenha acontecido com os maias, apesar de haver um grande número de gatos selvagens nativos na área.) Não acho que isso seja exato. Sem dúvida não é a história toda. Gatos não começaram como caçadores de ratos. Doninhas, cobras e cães são mais eficientes como agentes de controle de roedores. Eu postulo que os gatos começaram como companheiros psíquicos, como Familiares, e nunca se afastaram dessa função.”

William Burroughs (O gato por dentro)



Jean-Paul Sartre



Nos últimos anos, tornei-me um dedicado amante de gatos, e agora reconheço a criatura claramente como um espírito felino, um Familiar. Sem dúvida compartilha coisas com o gato, e também com outros animais: raposas voadoras, lêmures ai-ais, lêmures-voadores com olhos amarelos enormes que vivem em árvores e são indefesos no chão, lêmures de cauda anelada e os pequeninos lêmures microcebos, martas, guaxinins, minks, lontras, gambás e raposas da areia.”
William Burroughs (O gato por dentro)

Jean Cocteau

Ao ver Alice, o Gato só sorriu. Parecia amigável, ela pensou;

ainda assim, tinha garras muito longas e um número enorme

de dentes, de modo que achou que devia tratá-lo com respeito.
“Bichano de Cheshire”, começou, muito tímida, pois não

estava nada certa de que esse nome iria agradá-lo; mas ele só

abriu um pouco mais o sorriso. “Bom, até agora ele está

satisfeito”, pensou e continuou: “Poderia me dizer, por favor,

que caminho devo tomar para ir embora daqui?”
“Depende bastante de para onde quer ir”, respondeu o Gato.
“Não me importa muito para onde”, disse Alice.
“Então não importa que caminho tome”, disse o Gato.
“Contanto que eu chegue a algum lugar”, Alice acrescentou à

guisa de explicação.
“Oh, isso certamente você vai conseguir”, afirmou o Gato,

“desde que ande o bastante.”
Lewis Carrol (Aventuras de Alice no país das maravilhas & Através do espelho)

John Cage


É no meu cérebro que se passeia,
Como no seu apartamento,
Um gato doce e atraente.
Mal o consigo ouvir, se mia,

Porque o seu timbre é tão discreto;
Mas a voz, calma ou iracunda,
É sempre rica e bem profunda.
É o seu encanto e o seu segredo.

A voz, que goteja e se infiltra
No meu fundo mais tenebroso,
Enche-me, qual verso copioso,
E satisfaz-me como um filtro.

Adormeço os males cruéis,
Ela contém todos os extâses;
E pra dizer as maiores frases
Não necessita de palavras.

Não, não exista arco que morda
O meu peito, raro instrumento,
E faça majestosamente
Cantar essa vibrante corda,

Como a tua voz, ó misterioso
Gato seráfico, tão estranho,
No qual tudo é, como num anjo,
Tão subtil como harmonioso!






Charles Baudelaire (1821-1867)

Ernest Hemingway 

Gatos não morrem: mais preciso - se somem - é dizer que foram rasgar sofás no paraíso e dormirão lá , depois do ônus de sete bem vividas vidas , seus setes merecidos sonos.


Nelson Ascher


Elizabeth Bishop





O nome de gato assegura minha vigília
e morde meu pulso distraído
finjo escrever gato, digo: pupilas, focinhos
e patas emergentes. Mas onde repousa
o nome, ataque e fingimento,
estou ameaçada e repetida
e antecipada pela espreita meio adormecida
do gato que riscaste por te preceder e
perder em traços a visão contígua
de coisa que surge aos saltos
no tempo, ameaçando de morte
a própria forma ameaçada do desenho
e o gato transcrito que antes era
marca do meu rosto, garra no meu seio.
Ana Cristina Cesar

Orides Fontela


Gato — leu no silêncio da própria boca. Na palavra não cabe o gato, toda a verdade de um gato. Aquele ali, ocioso, lento, emoliente — em cima do muro. As coisas aceitam a incompreensão de um nome que não está cheio delas. Mas bicho, carece nomear direito: como rinoceronte, ou girafa se tivesse mais uma sílaba para caber o pescoço comprido. Girafa, girafa. Gatimonha, gatimanho. Falta um nome completo, felinoso e peludo, ronronante de astúcias adormecidas. O pisa-macio, as duas bandas de um gato. Pezinhos de um lado, pezinhos de outro, leve, bem de leve para não machucar o silêncio de feltro nas mãos enluvadas.


Otto Lara Resende ( Gato gato gato)


Allen Ginsberg

O Gato e o Pássaro


Uma cidade escuta desolada
O canto de um pássaro ferido
É o único pássaro da cidade
E foi o único gato da cidade
Que o devorou pela metade
E o pássaro deixa de cantar
E o gato deixa de ronronar
E de lamber o focinho
E a cidade prepara para o pássaro
Funerais maravilhosos
E o gato que foi convidado
Segue o caixãozinho de palha
Em que deitado está o pássaro morto
Levado por uma menina
Que não pára de chorar
Se soubesse que você ia sofrer tanto
Lhe diz o gato
Teria comido ele todinho
E depois teria te dito
Que tinha visto ele voar
Voar até o fim do mundo
Lá onde o longe é tão longe
Que de lá não se volta mais
Você teria sofrido menos
Só tristeza e saudades


Jacques Prévert (O gato e o pássaro)



Aldous huxley


"...Uma última transformação fez dela uma lenta estátua nitidamente separada das demais, de mim que me aproximava indeciso buscando-lhe os olhos perdidos na tela. Vi que o gato era idêntico a Osíris e que mirava ao longe algo que o muro da janela não nos deixava ver. Imóvel em sua contemplação, parecia menos imóvel que a imobilidade de Alana. De alguma maneira senti que o triângulo se havia fechado, quando Alana voltava para mim a cabeça o triângulo já não existia, ela havia ido ao quadro mas não estava de volta, continuava ao lado do gato olhando para além da janela onde ninguém podia ver o que eles viam, o que somente Alana e Osíris viam cada vez que me olhavam de frente".
Julio Cortázar (A orientação dos Gatos) 

Julio Cortázar

  
Hermann Hesse




D.H. Auden