5/20/2014

Resenha | Métaphysiques cannibales - de Eduardo Viveiros de Castro



Por Bruno Cava
http://www.quadradodosloucos.com.br




































EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO. 
Métaphysiques cannibales; lignes d´anthropologie post-structurale. 
Trad. Oiara Bonilla. Paris: PUF, 2009.



O livro propõe uma antropologia pós-estruturalista. Se o cerne da antropologia está no conceito de relação, o livro quer um novo conceito de relação. As referências principais são, pela antropologia, C. Lévi-Strauss, pela filosofia, G. Deleuze e F. Guattari. Transitando por paisagens fartamente povoadas de conceitos, Eduardo vai congeminar os trabalhos de gerações de etnógrafos americanistas das terras baixas, inclusive o próprio, com os arauetés. É um livro de chegada, na montagem de uma complexa maquinaria de diagonais, homologias, paralelismos, arroubos, refinamentos, espirais conceituais e interferências mútuas entre universos heteróclitos.

Num primeiro momento, a retórica antidicotômica parece de todo inconciliável ante a multiplicação de pares e dualismos ao longo dos capítulos, porém o modo de proceder é deleuziano. O dois é apenas um caso particular do múltiplo e o dualismo, método para ulteriormente dissimetrizar o real e assim restaurar diferenças qualitativas onde se apresentem apenas termos de comparação, equivalências de medida e integrações vetoriais de forças (contrárias ou coincidentes). A sociedade, o estado, o capital — todas essas figuras molares da ordem são resultado da aplicação sobreposta de processos históricos de equilíbrio progressivo e estabilização, ao passo que a proposta de uma antropologia pós-estruturalista será virar essas figuras da ordem pelo avesso, segundo uma teoria rigorosamente relacional do desequilíbrio, da desmedida, da hibridação, da monstruosidade.

É nesse propósito que, no livro, são desdobrados dois dípticos articulados entre si. A dobradiça se situa, no caso de Lévi-Strauss, entre As estruturas elementares do parentesco (1949) e Mitológicas (1964-71); no de Deleuze e Guattari, entre Anti-Édipo (1972) e Mil platôs (1980).

No primeiro caso, Eduardo apresenta a tese dos dois estruturalismos. Inicialmente vinculado ao Grande Divisor entre natureza e cultura, — alfa e ômega da dominação ocidental sobre os povos ditos “primitivos”, — num segundo momento da obra Lévi-Strauss se deixa afetar pela potência do pensamento ameríndio. Daí a passagem de uma concepção de gradual transcendência do homem em relação ao natural/animal, operada originariamente pela proibição do incesto; para, nas Mitológicas e além, retomar o mito como imanência entre natureza e cultura, de onde se borram as continuidades estritas entre os seres, centuplicando os híbridos e vazando as estruturas sociais de fluxos semióticos, materiais e rapsódicos. Lévi-Strauss traz na barriga um mundo novo, um devir-índio, um pós-estruturalismo em estado nascente, que termina por sobrepor e se redobrar com o estruturalismo tão mecanicamente anotado pelos comentaristas.

Já o díptico deleuziano é aberto para assinalar a passagem da primazia do conceito de produção para o de devir. No Anti-Édipo, a produção desejante baseia a imanência entre natureza e cultura. A própria natureza é processo de produção, ou natureza naturante — e não apenas algo produzido, ou natureza naturada. Antes da codificação dos fluxos produtivos pela ordem social, isto é, antes da separação entre desejo e lei; não pode haver sentido em falar no humano (na cultura, no estado) como se destacando de um fundo natural (da imoralidade dos fins, do estado hobbesiano de natureza). Como não tem vida própria, o capitalismo drena-a da produção desejante, codificando os fluxos segundo uma estruturação particular própria. No entanto, a produção desejante pode se auto-organizar, em sua imanência mesma, para exceder essa estruturação, motivo pelo qual o capital tem de elaborar o maior problema político: como favorecer o desejo que ele precisa necessariamente parasitar sem, no entanto, propiciar as condições para que o desejo escape do controle, libertando as forças produtivas nele atuantes e, em consequência, maquinando as relações de outro modo, não-capitalista?

Para Eduardo, isso ainda é pouco. A libertação das forças produtivas do desejo ainda parece demais com a teleologia hegeliana do trabalho, extraída da recepção francesa do pós-guerra da Fenomenologia do espírito. Na narrativa de Hegel, um Sujeito desejante peregrina impávido devorando o mundo objetivo para ultimar-se como história universal. Uma filosofia da história sob medida aos projetos civilizatórios ocidentais e sua antropologia rastaquera, à direita ou à esquerda, ante o que o outro é sempre um bicho a ser domesticado e escravizado para o seu próprio bem. Além disso, embora o Anti-Édipo elabore uma matriz do ser que é maquínica, que procede por concatenamentos imprevisíveis e inconscientes, compenetrações ilícitas e heterogêneses por todo lado, para o autor das Metafísicas canibais falta-lhe tirar do núcleo do sistema o conceito de produção como geração. É preciso abandonar a concepção demasiado digestiva e produtivista com que são pensadas as lutas libertadoras no Anti-Édipo, tributário que é das noções de “natureza naturante” em Spinoza e “trabalho vivo” no Marx dos Grundrisse.

É nesse sentido que Mil platôs é convocado na outra face do díptico. Para operar a travessia da produção ao devir. Diferentemente da produção, o devir não é essencialmente produtivo e gerativo. Pode ser, também, contraprodutivo. Não confundir com a “antiprodução” que, na lógica do Anti-Édipo, participa da estratégia do capital em modular e canalizar a produção desejante, distendendo indefinidamente o colapso esquizofrênico do corpo social e o pavor burguês que acompanha essa ideia de fim do mundo, desarmando também as maquinações desejantes comunistas. O devir pode ser abortivo, pode provocar estorvos, híbridos estéreis, criaturas inviáveis. O devir é contranatural, se colocando além da “natureza naturante”, radicalizando a dobra do Anti-Édipo de humano e natural no cadinho das forças produtivas. Em Mil platôs, estaríamos além de Spinoza e Marx. Se, na primeira face, o desejo é real e produtivo; na segunda, o devir é relacional e intensivo.

Eis o andamento de uma crítica pós-kantiana da economia política do desejo para uma afirmação cosmopolítica do devir.



***



A contribuição do livro aparece na apresentação do conceito de “aliança intensiva”, resultante da cooptação lateral operada entre os dois dípticos.

Lévi-Strauss explica a formação das sociedades mediante um esquema intrincado de relações de dois tipos: de “filiação”, mais verticais, definidas pela consanguinidade, como pai e filho; e de “aliança”, mais horizontais, por meio de acordos matrimoniais entre famílias distintas, que faz as mulheres das tribos circularem. Na origem do social, a proibição do incesto induz uma escassez. Esta define um mercado de trocas como cimento social das diversas negociações, definindo destarte uma mediação necessária para comensurar os incomensuráveis (as mulheres).

Deleuze e Guattari, no Anti-Édipo, inscrevem essa explicação em sua própria bricolagem. Chamam a produção desejante originária de “filiação intensiva”, uma espécie de caldo (pré-)cósmico originário, um manancial de forças produtivas descontroladas. A proibição do incesto é então reconfigurada como edipianismo, contra o que o livro se insurge e que vai ser imputado não só ao estruturalismo, mas a toda a ciência ao redor da economia política, do fenômeno jurídico e do familismo psicanalítico. O edipianismo ocidental sobredetermina os fluxos selvagens do Uno Primordial para causar a “filiação extensiva”, quer dizer, a sociedade ordenada pelo princípio da escassez, pelo mercado, pelo valor de troca/uso. Uma ordem social estruturada por uma matriz antropológica verticalizante e organicista, — numa palavra: o estado. O sistema de alianças “extensivas”, portanto, bane os contágios perigosos, proscreve a peste e assegura a reprodução social controlada, “sadia”, de que o capital tanto precisa, dentro do esquadro das filiações extensivas: identidades, totalidades, indivíduos, coletivos, hierarquias políticas várias, de raça, gênero, sexualidade. A aliança extensiva garante a relação social do capital, no vértice econômico-político do processo de hominização.

Diferente é a “aliança intensiva”, que o devir propicia. Nisso, atua a tradição etnográfica americanista, comparecendo inclusive Pierre Clastres (A sociedade contra o estado), com sua permanente conjuração do estado, com lateralidades precárias e desativações táticas do poder. O pensamento ameríndio causa as dobradiças em Lévi-Strauss e Deleuze, que Eduardo atualiza com a “aliança intensiva”. Esta se coloca além do estado e do mercado, destoa de qualquer produtivismo ou teleologia, para promover redes abertas de multiplicidades, multidões de eixos transversais e miriateísmo generalizado. A “aliança intensiva” é do tipo abominável, da ordem do roubo, das guerrilhas, das uniões clandestinas e antinaturais. Ela povoa o mundo de criaturas, deforma a sociedade, faz irromper forças transformadoras e perigosas, dissemina furores e imagens proibidas, liquefaz a ordem social, destitui o controlato. [Sobre monstruações, ver os livros dessas duas autoras pós-estruturalistas: Contract & Contagion, de Angela Mitropoulos, e Outros monstros possíveis, de Bárbara Szaniecki]

O problema das lutas pela libertação continua sendo, aliás, como enfrentar um inimigo estruturado de filiações e alianças extensivas que conformam até mesmo a nós próprios, enquanto sujeitos dessa sociedade. Como transformar essas relações sociais, — heteropatriarcado, racismo, classismo, tudo isso integrado na relação do capital, — segundo a relação de tipo novo, de que a “aliança intensiva” é conceito. A antropologia pós-estruturalista não será nada senão utopismo, descolado das forças vivas e devires agentes, se não estiver calcada na capacidade real de reorganização do existente. Dos sujeitos reais, as subjetividades do futuro presente. Organizar o conflito na imanência sem ser capturado e rendido continua sendo o problema.


Mas se o inimigo é imanente, e aí temos a subversão derradeira da filosofia ocidental e suas taras fatais, Marx talvez não estivesse tão errado assim, quando dizia que o antagonismo comunista é “dentro e contra” as relações capitalistas, tendo escrito uma obra fiel ao adágio que não é possível isolar-se em solidões guerreiras por muito tempo. Nem Deleuze e Guattari, para quem o proletariado sempre foi força de nomadização e a luta de classe imediatamente uma tarefa de hibridação selvagem, poliqueer, heterogenética. Nem Spinoza, com sua ética democrática dos afetos, a partir do livro III da Ética, — talvez estranhamente afetado pelo pensamento ameríndio quando, em 1664, sonhou com certo “negro brasileiro” (o índio era chamado de “negro da terra”). Sem aliança com essas forças demoníacas, genuína mitologia menor na modernidade globalizada, a antropologia pós-estruturalista não existe.



Fonte: http://www.quadradodosloucos.com.br/4243/a-alianca-pos-estruturalista-de-antropologia-e-marxismo/

























5/17/2014

MANEIRAS DA ESCRITA CONTEMPORÂNEA | COM VIRNA TEIXEIRA




Encontros + Conversações + Recital + Lançamentos
MANEIRAS DA ESCRITA CONTEMPORÂNEA

Trata-se de uma movimentação na direção das escritas em efetuação. Um encontro entre escritas para tornar perceptível o que acontece no âmbito das experiências do escrever. Não se trata, portanto, de uma composição geracional, do tipo “a escrita da geração tal”, tão pouco de um mapeamento literário. De outra maneira, a aposta consiste em perceber, mais que os pontos ou a identidade de um fazer literário, as fissuras, os deslocamentos ou os fluxos das grafias contemporâneas, lançando a vista para o que se dobra e se redobra desde o presente, ao que acontece no mais diverso das linhas, inclusive as imperceptíveis, cujos laços são articulados de modo singular/individuado. MANEIRAS DA ESCRITA CONTEMPORÂNEA é uma aposta (uma experiência em curso) que objetiva perceber as errâncias e derivações das escritas que se movem pela superfície do presente. Acontecerá a partir de conversações, leituras, recitais, envolvendo escritores, poetas, prosadores, escrevedores, artistas, os quais, através das suas maneiras de escrever, expressam suas estratégias de vida. É organizado pela Revista Polichinello e acontecerá mensalmente.

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Virna Teixeira




MANEIRAS DA ESCRITA CONTEMPORÂNEA |
COM  VIRNA TEIXEIRA

VIRNA TEIXEIRA é poeta, tradutora. Tem 3 livros de poemas publicados: VISITA (2000) e DISTÂNCIA (2005) pela editora 7 letras e TRÂNSITOS (2009) pela Lumme Editor. VISITA foi reeditado pela editora carioca Multifoco em 2010. Publicou também 3 plaquetes de poemas: COMO SUTURAR LEMBRANÇAS, ATLÂNTICO e MAR MORTO pela Arqueria Editorial .

Títulos editados na área de tradução: NA ESTAÇÃO CENTRAL, do poeta escocês Edwin Morgan (Editora UnB, 2006); a antologia de poesia escocesa OVELHA NEGRA (Lumme, 2007); LIBRO UNIVERSAl, do poeta chileno Héctor Hérnandéz Montecinos, em parceria com o tradutor Vanderley Mendonça (Demônio Negro, 2008) e CARTAS DE ONTEM, do britânico Richard Price (2009). Tem participado em diversas antologias de poesia no Brasil e exterior.

Seu livro DISTÂNCIA foi traduzido e editado no México (Lunarena, 2007) e também teve um livro publicado na Argentina (Fin de siècle, Coleção Chicas de Bolsillo, Universidad de La Plata). Organizou vários encontros nacionais e internacionais de poesia e atualmente é responsável pela Arqueria Edito
rial, que edita plaquetes artesanais.


5/12/2014

Edmond Jabès - Fragmento de "O Livro das Margens"


Roger Caillois
Edmond Jabès


















F R A G M E N T O  D E 
"O LIVRO DAS MARGENS" | Edmond Jabès






A eternidade das pedras



         

      «Aprendi que, o quer que eu empreenda, jamais farei senão perseverar.»                          
Roger Caillois
               (Aproximações do imaginário)

     


      A pedra é, provavelmente, a menos eloquente, mas certamente a mais identificável das formas da eternidade.
      Sobre ela, elevam-se nossos edifícios, estrondam nossas tempestades.


      Quando a pedra se faz transparente ou, antes, quando a transparência se faz pedra, todos os sonhos da terra se dão a ler.


      A eternidade joga com a eternidade, na limpidez de seus grandes espelhos imóveis.


      ... rastejantes clausuras.


      E se a tempestade estivesse também no cristal?

         




«PEDRAS»
de
Roger Caillois




      «Falo das pedras mais idosas que a vida e que permanecem depois dela sobre os planetas resfriados, quando ela tivera a fortuna de neles eclodir. Falo das pedras que nem mesmo têm que esperar a morte e que não têm nada a fazer senão deixar deslizar sobre sua superfície a areia, a enxurrada ou a ressaca, a tempestade, o tempo.
      
   «O homem lhes inveja a duração, a dureza, a intransigência e o fulgor, por serem lisas e impenetráveis, e inteiras mesmo partidas. Elas são o fogo e a água na mesma transparência imortal, visitada, por vezes, pela íris e, por vezes, por um vapor. Elas lhe trazem, elas que cabem em sua palma, a pureza, o frio e a distância dos astros, várias serenidades.»



I


      Um livro que cresce na distância, tal, em seus desvelamentos, a estrela.



          Um livro desabituado.
          E precisamos levá-lo em conta e recebê-lo, como se ele tivesse transposto um imenso espaço para nos atingir; donde essa palavra, a um só tempo próxima e distante; eu diria mesmo tanto mais próxima quanto ela parece vir do mais obscuro do tempo; donde essa continuidade na ruptura, como se tudo se apagasse e renascesse no começo; essa continuidade que, na pedra, é a revelação de uma cega impulsão ao invisível, de uma vontade sem igual de durar e de cumprir o ciclo.
          Do inerte ao inerte.
          Descobrimos, depois de Roger Caillois, no polido da pedra, o oval e o redondo, o duplo poliedro e o losango que são como seus caminhos escandeados e os inebriantes retornos, e provamos seu mistério e sua audácia.
          Meio da representação múltipla, do círculo e de sua metamorfose no círculo, ou do círculo ou de sua metamorfose depois do círculo, o centro – que é nó de verdade – está, a cada vez, alhures.
          Mas, tudo é verdadeiro na pedra porque ela existe na morte, porque ela é, a um só tempo, o anônimo rosto do mundo e a primeira ou a última respiração do animal e do homem captados em sua sucessão feliz ou infeliz; porque nela, enfim, tudo existe antes da vida e ultra-morte.
          Assim, em seu cumprimento, a obra se quer à imagem do mais humilde cascalho; à sua imagem espalhada que o mar, a chuva e o vento acariciam e desgastam; pois a usura, tais as rugas, é também prova de fatal cumprimento.
          «... o perfil mais puro, mais pobre também, mas o único verdadeiramente necessário.»
          «Nessa longa aquiescência, nessa derradeira miséria, se dissimula seguramente uma das formas concebíveis da perfeição.»
          Assim como na pedra fendida, a beleza está no fundo de uma ferida.
         


      «Eu também, quando escrevo essas páginas, reunindo minhas palavras com labor e liberdade, cumpro, mas de outro modo, a mesma tarefa que não era ainda tarefa nem nada de semelhante e que, no entanto, fora aquela das pedras que tentei descrever.»



II



      (Círculo que faz a pedra caída n’água.
      Ah! Tornar-me-ei, um dia, mestre do universo lançando, do alto da falésia, pedras cada vez mais pesadas ao mar?


      Nesse ponto do dia.
      O centro contestado.)
         


          «Círculo encontrado por sorte na ágata, cortado por um círculo vizinho, ele nos deixa a impressão de uma tentativa abortada.
          «Ao contrário, ele afirma sua glória quando se proclama vasto e isolado como o sol no vazio do céu, sobre campo unido de ágata ou de crista incandescente. Então, dá-se a maravilha.»


          Na pedra jaz a primeira palavra da terra, o infinito do signo.
          O universo, talvez, tenha nascido dessa leitura ousada.


          Na pedra tudo cessa de se perder, desde quando ela se imobilizou em seu desabrochar e sua existência não é mais que uma eterna não-existência.


          Explorando, como ele o faz, o universo dos minerais, Roger Caillois teve, de imediato, consciência de cotejar uma verdade que, desde sempre, o assombrava? Daí, uma certa calma, uma espécie de serenidade – quase uma segurança – em sua postura e que provam, sem dúvida, esses exploradores de impossível que, recusando mesmo o milagre, denunciam, em nome da ideia que eles servem, a impostura por toda parte onde ela se manifeste.

           
          A interrogação apaixonada do mundo mineral que ele descobre, o conduz, desta vez – e pela primeira vez, provavelmente – a se identificar com cada um de seus fragmentos, a ponto de aprender e acompanhar a escritura deles;  a ponto de estabelecer consigo mesmo – tendo-se tornado o objeto, a pedra estilhaçada – uma exemplar caderneta de correspondências que o impelirá, pouco a pouco, a se definir através de uma mitologia nova, uma metafísica, uma moral, uma estética, nessas regiões de ultra-tempo, onde a vida e a morte são sinônimas.
          Assim afronta ele uma escritura – a sua? – no vazio onde ela está inscrita, tais esses sóis extintos que selam as últimas páginas do livro. Livro gravado no signo e em seu silêncio; quer dizer, no que, por ter sido, afirma sua ausência e no que, para ser, se nomeia.

         
          «Nessa visão um pouco alucinada que anima o inerte e ultrapassa o percebido, por vezes eu parecia captar em seu estado natural um dos nascimentos possíveis da poesia.»



III



          Revejo-me, nos desertos do Egito, à busca de sílex – amarelos, às vezes marrons – desenterrando-os, apanhando-os por seu rosto humano subitamente surgido de seu nada – por um rosto do homem eterno que o tempo modela por séculos e não por instantes – por seu rosto vivo contra a vida.
          Só, no meio das areias das quais cada duna testemunha do esgotamento do vento, do abandono do mundo, eu me contentava com a aparência; ao passo que é no interior da pedra que bate genialmente o coração obreiro da morte, que se escreve, em pulsões celestes ou infernais, o universo cerrado da eternidade.


 *

FRAGMENTO DE UMA CARTA



          Grato por «Casas de um tabuleiro de xadrez», que foi, para mim, o objeto, o centro de uma longa reflexão.
          O prefácio dessa obra nos revela uma postura segura de si mesma mas, ao mesmo tempo, inquieta com seus passos.
          E é nessa perspectiva que teus livros devem, agora, ser lidos. A interrogação faz recuarem as divisas de cada um deles. Para além – nos prolongamentos, portanto, da interrogação – insinua-se o comentário que é nova interrogação e nova meditação.


          Há o objeto de tua curiosidade que é descascado vigorosamente, implacavelmente – mas também descascado, como descascamos as nozes, como descascamos uma árvore – e há o que escorrega de teus dedos, o que só poderá ser captado alhures – ou, talvez, jamais captado – e que, de repente, nos ilumina.
          Há a questão e, ao cabo, o desespero de uma resposta recusada.
          E há o relato em sua dimensão soberana.
          A necessidade, no que é dado, de interrogar o secreto, é o próprio de teu pensamento: esse secreto que não é o que é alapado mas, ao contrário, o que fala no recôndito. De sorte que é a palavra do segredo que é incessantemente questionada.
          Tua abordagem das coisas – e dos seres – se faz, primeiro, instintivamente quase, através do que os dissimula.
          Tu partes – para ver, para compreender – do que não se entrega imediatamente à visão nem à audição. Cata de paciência. Rastro no rastro indefinidamente realçado.
          E é então que o segredo fala e essa palavra encontra em teus livros seu lugar privilegiado.
          Tua postura se torna tateante, mas como maravilhada ou apavorada por seus horizontes. 
          A vertigem nos toma face ao vazio onde toda verdade – aquela desenhada na pedra igualmente – morre por ter sido, por se perpetuar na morte; de sorte que é seu próprio e original apagamento que nos parece ser, agora, sua luminosa e coerente manifestação.
          Fascinados pelo que não é, precisamos então nos apropriar do objeto revelando-o a si mesmo e aos outros a fim de reduzi-lo, como se ele fosse o obstáculo a vencer, a transpor; assim como tu precisaste ir ao extremo do comportamento de teus semelhantes para unir-te a eles em seu silêncio. Mestres da redução ao nada, assim como da aquiescência.
          Tudo se mantém. Tudo se responde. O homem às crenças do homem; a guerra à festa; a dança do inseto à imobilidade da pedra. A regra do jogo é regra do universo.
          Tu nos conduzes, de incursões em incursões, aos confins de nós mesmos. Abrimos os olhos sobre o que, por ter apelado a todos seus recursos, permanece espelho de um mundo que não cessaremos de sondar ao nos mirar: mundo da escritura onde se desperta e se deita o mundo, palavra elegida em que nos medimos por nós mesmos e pelo espaço, como se precisássemos viver – e morrer – no que só governa para ser governado e governar por nossa vez.
          O vocábulo é distância na não-distância; quer dizer, imensidão de uma separação que cada letra acentua anulando-a. O que é dito, o é sempre em função do que jamais será expresso. É nesses extremos limites que nos reconhecemos.


          ... mas tu és severo com essa rosa atormentada das areias. Uma certa verdade que é aquela ensinada pelo deserto, deixou-a se perder em si mesma, como se fosse necessário puni-la por ter ousado ser flor.

O Livro das Margens 

  
 Tradução: 
Amanda Mendes Casal & Eclair Antonio Almeida Filho


*


Colóquio Edmond Jabès  

UNB /  Maio de 2014


















5/07/2014

Colóquio Edmond Jabès | UNB


A ESCRITURA DE EDMOND JABÈS: 

LIVRO, PALAVRA, RELATO E VOZ





O evento se propõe a discutir a obra de Edmond Jabès segundo 4 eixos: LIVRO | PALAVRA | RELATO | VOZ. A obra de Edmond Jabès é de essencial importância para se estudar questões como identidade, diferença, nomadismo, escritura e judaísmo. O evento se fundamenta em escritores-pensadores como MAURICE BLANCHOT, GILLES DELEUZE, JACQUES DERRIDA, EMMANUEL LEVINAS e o próprio EDMOND JABÈS que sempre puseram em questão a literatura e a filosofia.



CURADORIA
Eclair Antonio Almeida Filho | LET-UNB

CONVIDADOS
Aurèle Crasson | ENS-CNRS
Caio Meira | FAPERJ
Roberta Barni | FFLCH-USP
Antônio Marcos Moreira da Silva | LET-UNB
Augusto Rodrigues da Silva Jr. | TEL-UNB
Nilson Oliveira | REVISTA POLICHINELLO
Cláudia Falluh Balduíno Ferreira | TEL-UNB
Éric Benoît  | UNIVERSITÉ MICHEL DE MONTAIGNE BORDEAUX 3



Acontece nos dias 13, 14, 15 de maio, de 2014 | UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA
Hora: 9:00 às 17:00
Local: Anfiteatro 2 (ICC sul) - UNB





Informações: www.let.unb/eventos