9/20/2011

COLÓQUIO - Maria Gabriela Llansol



COLÓQUIO A CURA DA LITERATURA
breve encontro intenso da psicanálise
com o texto de Maria Gabriela Llansol

Data do evento: 20/10/2011 
Horário:de 09:00 às 22:00 
Local: Faculdade de Letras - UFMG -
Auditório 1007

Para inscrição no colóquio: fiodeaguadotexto@gmail.com.




PROGRAMAÇÃO:








Para Lúcia Castello-Branco, e seus alunos)
Querida Lúcia,
__________________________, falta-me uma flor branca para compor, com rigor, um ramo lilás. Essas, são as cores de hoje. E, para saber com rigor onde me encontro, hoje, fui ao jornal ver-lhe a data. Comparei-a, intuitivamente e em silêncio, com a mesma data dos anos anteriores. Com a perturbação de escrever, senti que a vida cresce para uma forma             ou ramo, que espero ainda ver.
Flutua sobre a linha dos livros, desde os primeiro, e
desde os anteriores aos primeiros,
que não escrevi e colho, em cada um, a flor emblemática da sua recordação. A este colher chamarei autobiografia de um legente.
Alguém que colhe a flor que falta para que se acalme a minha perturbação pessoal,
alguém que colhe o tom de cada um dos títulos que escrevi,
alguém que traga o ramo que
fiz da minha vida
ao facto de ler identificada com o legente que se estende, mais esguio e inquieto.
ao lado da que escreveu. Em cada livro
escrito há – lido –, um portal, um alpendre.
Entrar, de novo, por eles adentro,
e repetir o acto de amor com que os escrevi. Aceitar o pedido
que me trazem
de entrar outra vez,
e de sentar-me, perturbada pelo corpo, onde o legente preferir,
sentar-me com ele a saborear o matiz, a linha, o tom,
dizer-lhe “é pensamento”,
e deixa-lo, de novo, cair da memória, no fio de água do texto.
A essa autobiografia que escreverei comigo, com ela lendo, chamarei ramo,
subentendendo a árvore florida
no prado da minha casa
ou no corredor da minha vida.
Pois o texto ________________________
MGab Llansol


9/18/2011

RENÉ CHAR - Tradução : Edson Passetti & Martha Gambini



Poemas de René Char

Tradução : Edson Passetti  &  Martha Gambini

Poemas publicados na edição da revista Polichinello nº 12



R


livres sous mouvement. Mais livres qui s’introduisent avec souplesse dans nos jours, y poussent une plainte, ouvrent des bals.
Comment dire ma liberté, ma surprise, au terme de mille détours : il n’y a pas de plafond. (...)
In La biliothèque est em feu 

livros sob movimento. Mas livros que se introduzem suavemente em nossos dias, lançando um lamento, abrindo bailes.
Como dizer minha liberdade, minha surpresa, e depois de mil voltas: não há fundo, não há teto." (...)


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Les compagnons dans le jardin
Os companheiros no jardim

L’homme n’est qu’une fleur de l’air tenue par la terre, maudite pas les astres, respirée par la mort; le souffle et l’ombre de cette coalition, certaines fois, le surèlévent.
O homem não passa de uma flor do ar sustentada pela terra, maldita pelos astros, respirada pela morte; o sopro e a sombra de tal coalizão, por vezes, o sobrelevam.

Notre amitié est le nuage blanc préféré du soleil.
Nossa amizade é a nuvem branca preferida do sol.

Notre amitié est une écorce libre. Elle ne se détache pas des promesses de notre coeur.
Nossa amizade é uma casca livre. Não pode ser separada das proezas de nosso coração.

Où l’esprit ne déracine plus mais replante et soigne, je nais. Où commence l’enfance du peuple, j’aime.
Ali onde o espírito já não desenraiza mas replanta e cuida, nasço. Ali onde começa a infância do povo, amo.
XXe siècle: l’homme fut au plus bas. Les femmes se éclairaient et se déplaçaient vite, sur un superplomb  où seuls nos yeux avaint accès.
Século XX, o homem desceu ao máximo. As mulheres se iluminavam e se deslocavam rapidamente num superpatamar a que só nossos olhos tinham acesso.

A une rose je me lie.
A uma rosa me uno.

Nous sommes ingouvernables. Le Seul maître qui nous soit propice, c’est l’Eclair, qui tantôt nous ilumine et tantôt nous pourfend.
Somos ingovernáveis. Nosso único senhor propício é o Relâmpago, que ora nos ilumina, ora nos fende.

Éclair et rose, en nous, dans leur fugacité, pour nous accomplir, s’ajoutent.
Relâmpago e rosa, em nós, em sua fugacidade, para nos realizar, se juntam.

Je suis d’herbe dans ton matin, ma pyramide adolescente. Je t’aime sur tes milles fleurs refermés.
Sou de relva em tua manhã, minha pirâmide adolescente. Eu te amo sobre tuas mil flores, de novo fechadas.
Prête au bourgeon, en lui laissant l’avenir, tout l’éclat de la fleur profonde. Ton dur second regard le peut. De la sorte, le gel ne le détruira pas.
Disposta ao broto, cedendo-lhe o futuro, todo o esplendor da flor profunda. Teu duro segundo olhar, pode. Assim o gelo não o destruirá.

Ne permettons pas qu’on nous enlève la part de la nature que nous renfermons. N’en perdons pas une éctamine, n’en cédons pas un gravier d’eau.
Não permitamos que nos roubem a parte da natureza que guardamos. Não percamos dela nem um fio, não cedamos nem um seixo de sua água.

Après le départ des moissonneurs, sur les plateaux de l’Ile-de-France, ce menu silex taillé qui sort de la terre, à peine dans notre main, fait surgir de notre mémoire un noyau équivalent, noyau d’une aurore dont nous ne verrons pas, croyons-nous, l’altération ni la fin; seulement la rouger sublime et le visage léve.
Após a partida dos ceifadores, nos planaltos de Île-de-France, esse pequeno sílex esculpido que emerge da terra, apenas em nossa mão, faz surgir de nossa memória um caroço equivalente, caroço de uma aurora cuja alteração e fim, acreditamos, não iremos ver; apenas o rubor sublime e o rosto erguido.

Leur crime: um enragé vouloir de nous apprendre a mépriser les dieux que nous avons en nous.
O crime cometido: uma furiosa vontade de nos ensinar a desprezar os deuses que vivem em nós

Ce sont les pessimistes que l’avenir èléve. Ils voient de leur vivant l’objet de leur appréhension se réaliser. Pourtant la grappe, qui a suivi la moisson, au-dessus de son cep, boucle; et les enfants des saisons, qui ne sont pas selon l’ordinaire réunis, au plus vite affermisent le sable au bord de la vague. Cela, les pessimistes le perçoivemt aussi.
São os pessimistas que o porvir eleva. Em vida, vêem se realizar o objeto de sua apreensão. No entanto, as uvas, após a colheita, em cachos coroam o cepo; e os filhos das estações, não reunidos segundo o hábito, prementes firmam a areia na borda da onda. Isto os pessimistas também notam.

Ah! le pouvoir de se lever autrement.
Ah! O poder de levantar-se de outra maneira.

Dites, ce que nous sommes nous fera jaillir en bouquet?
Digam, o que somos nos fará jorrar em buquê?

Um poète doit laisser des traces de son passage, non des preuves. Seules les traces font rêver.
Um poeta deve deixar pegadas de sua passagem, não provas. Só os vestígios fazem sonhar.
Vivre, c’est s’obstiner à achever um souvenir? Mourir, c’est devenir, mais nulle part, vivant?
Viver é obstinar-se a consumar uma lembrança? Morrer é tornar-se, mas em parte alguma, vivo?

 Le réel quelques fois desaltere l’espérance. C’est pourquoi, contre toute attente, l’espérance survit.
O real, algumas vezes, mata a sede da esperança,. É por isso que, contra toda espera, a esperança sobrevive.

Toucher de son ombre um fumier, tant notre flanc renferme de maux et notre coeur de pensées folles, se peut; mais avoir en soit un sacré.
Tocar com nossa sombra um estrume, por serem tantos os males guardados no flanco e pensamentos loucos no coração, isso se permite; mas ter em si um sagrado....

L’Histoire n’est que le revers de la tênue des maîtres. Aussi une terre d’effroi où chasse le lycaon et que racle la vipère. La détresse est dans le regard des societés humaines et du Temps, avec des victoires qui montent.
A História é apenas o avesso da roupa dos amos. Também uma terra de pavor onde o Licaon caça, e que a víbora raspa. A miséria está no olhar das sociedades humanas e do Tempo, com vitórias que ascendem.

Lorsque je rêve et que j’avance, lorsque je detiens l’innefable, m’éveillant, je suis à genoux.
Quando sonho e avanço, quando retenho o inefável, ao despertar estou de joelhos.

Luire et s’élancer — prompt couteau, lente étoile.
Luzir e lançar-se — rápida faca, lenta estrela.

Dans l’éclatement de l’univers que nous éprouvons, prodige! Les morceux qui s’abattent sont vivans.
Na explosão que experimentamos do universo, prodígio! Os pedaços que caem estão vivos.

Ma toute terre, comme um oiseau chargé en fruit dans un arbre éternel, je suis à toi.
Minha querida terra, tal pássaro carregado em fruto numa árvore eterna, sou teu.

Ce que vos hivers nous demandent, c’est d’enlever dans les airs ce qui serait sans cela que limaille et souffre-douleur. Ce que vos hivers nous demandent, c’est de préluder pour vous à la saveur: une saveur égale à celle que chante sous sa rondeur ailée la civilization du fruit.
O que seus invernos nos pedem é que levantemos pelos ares aquilo que sem isso não passaria de limalha e bode expiatório. O que seus invernos nos pedem, é que preludiemos por vocês ao sabor: um sabor igual ao que a civilização do fruto canta sob sua redondeza alada.

Ce qui me console, lorque je serai mort, c’est que je serai là — disloqué, hideux — pour me voir poème.
Isto me consola: quando estiver morto, estarei aí — desagregado, repugnante — para me ver poema.

Il ne faut pas que ma lire me devine, que mon vers se trouve ce que j’aurais pu écrire.
Não preciso que minha lira me adivinhe, que meu verso desvele o que eu poderia ter escrito. 

Le merveilleux chez cet être: toute source, en lui, donne le jour à un ruisseau. Avec le moindre de ses dons descend une averse de colombes.
O maravilhoso neste ser: toda fonte, nele, dá a luz um riacho. Com o menor de seus dons provoca uma tempestade de pombas.

Dans nos jardins se préparent des forêts.
Em nossos jardins preparam-se florestas.

Les oiseaux libres ne souffrent pas que’on les regarde. Demeurons obscurs, renonçons à nous, près d’eux.
Os pássaros livres não suportam ser observados. Em sua proximidade, sigamos obscuros, renunciemos a nós mesmos.

Ô survie encore, toujours meilleure!
Oh, sobrevivência, cada vez melhor!

In La parole em archipel 1952-1960

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L’Éternité, à Lourmarin
Albert Camus
À Jean-Paul Samson 
Il n’y a plus le ligne droite ni de route éclairée avec un être qui nous a quittés. Où s’étourdit notre affection Cerne après  cerne, s’il approche c’est pour aussitôt s’enfouir. Son visage parfois vient s’appliquer contre le nôtre, ne produissant qu’un éclair glacé. Le jour qui allongeait de bonheur entre lui et nous n’est nulle part. Toutes les parties — presque excessives — d’une présence se sont d’un coup disloqués. Routine de notre vigilance.... Pourtant cet être suprimé se tient dans quelque chose de la rigide, de désert, d’essentiel en nous, où nos millénaires ensemble font juste l’epaisseur d’une paupière tirée.
Avec celui que nous aimons, nous avons cessé  de parler, et ce n’est pas le silence. Qu’en est-il alors? Nous savons, ou nous croyons savoir. Mais seulement quand le passé qui signifie s’ouvre pour lui livrer passage. Le voici  à notre hauteur, puis loin, devant.
À l’heure de nouveau contenue ou nous question-nons tout le poids d’énigme  soudain commence la douleur, celle de compagnon à compagnon, que l’archer, cette fois,  ne transperce pas. 

In Quitter

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A eternidade em Lourmarin
Albert Camus
A Jean-Paul Samson 

Não subsiste linha reta nem estrada iluminada com um ser que nos deixou. Onde nossa afeição se atordoa? Se ele se aproxima, círculo após círculo, é para logo se enterrar. Seu rosto por vezes  vem se colar contra o nosso, produzindo apenas um brilho gelado. O dia que alongava a felicidade entre ele e nós não se encontra em lugar algum. Todas as partes – quase excessivas – de uma presença, imediatamente se desagregaram. Rotina de nossa vigilância... No entanto, esse ser suprimido mantém-se em algo de rígido, de deserto, de essencial em nós, onde todos nossos milênios somam exatamente a espessura de uma pálpebra fechada.
Deixamos de falar com quem amamos e o silêncio não se faz. O que se passa então? Sabemos, ou pensamos saber. Mas apenas quando o passado que significa abre-se para lhe dar passagem. Ei-lo a nossa altura, depois longe, adiante.
Na hora novamente contida em que questionamos todo o peso de enigma, subitamente começa a dor, de companheiro a companheiro, que o arqueiro, desta vez, não transpassa.

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contrevenir
Obéissez à vos porcs qui existent. Je me soumets à mes dieux qui n’existent pas.
Nous restons gens d’inclemence.


transgressão


Obedeça aos seus porcos que existem. Eu me submeto aos meus deuses que não existem.
Permanecemos gente de inclemência.


In  Quitter


















9/01/2011

DERIVAS de LuciaVignoli - por Roberto Corrêa dos Santos




DERIVAS,
                          de LuciaVignoli
: Nervuras do Liso
             

por Roberto Corrêa dos Santos

Em algum instante de Grande sertão: veredas – obra do pensante escritor brasileiro Guimarães Rosa –, o narrador Riobaldo afirma que o difícil, o efetivamente difícil, é atravessar o liso.  O liso, naquela escritura, encontra-se entretecido no cerne do estriado do sertão – espaço feito de processos que se interligam por ordens de forças sociais e políticas a funcionarem muitas vezes como estacas duras frente ao liso existir que terá de dar-se à prova, indicando que diferidos fluxos são possíveis em toda parte, mesmo diante do adverso.Gilles Deleuze, o filósofo francês, do alto de sua alta modernidade, iluminando de lá o contemporâneo a-vir (aqui e ali já vindo), distingue, a seu modo (por articulações cruzadas e ficcionantes), o fator-extremo a unir e a separar o liso do estirado. O estirado liga-se ponto a ponto, tece-se como organismos vivos e históricos; o liso envolve o descontínuo e diz sim aos trajetos e às derivas: sim ao perder-se, sim às linhas de fuga. A obra artística de Lucia Vignoli agita-se nessas nervuras do liso, nessas granulagens dos lugares. Expõem da vida seus fios e tramas (os passos da artista deixa pegadas nas coisas de arte feitas) e, ao mesmo tempo, indica o como perserguir o liso, acolher os trajetos que esse, o liso, lhe oferece em suas andanças. Mãos e pés operam com o liso.Caminha Lucia com câmeras colhendo horizontes, traços de horizontes: e produz uma planaridade horizontalizante tão nossa, tão Brasil: do mar de Lucia não se espera a grande conquista (não há nostalgia alguma); nele, pode-se  ir por-sobre, como se – e assim entendemos no Brasil o mar (e tudo) – terreno, terreno nosso.O aparente despretender da arte de Lucia vem dos cálculos suaves da sensação – trata, focalizando espaços, de fazer sobressaírem afetos e subjetividades novos e afirmadores. Uma felicidade contemporânea espalha-se. Sua obra ocupa o espaço liso, mas com grãos, sim, com grãos, grãos e curvas, pois o liso é vasto e, como escrevera Deleuze, nele se encontram ‘as intensidades, os ventos e os ruídos, as forças e as qualidades tácteis e sonoras’: da cidade, da rua, do oceano, do fora.

8/28/2011

Max Martins - Anti-Retrato


Por Nilson Oliveira


M/M - esculpiu uma obra cuja força permanece indócil – não para consolar – imanente a um acontecimento que se deflagra da simbiose escrita/corpo, na qual a poesia se constitui como potência de um pensamento entranhado na vida: pensamento pele, mar, umbral. Escrita-grito-libidinoso, força deflagradora cujo enunciado não cessa de reinventa-se.


Com M/M a poesia ganha fluxos, um movimento que faz respirar o pensamento da poesia, escrita libidinal, linguagem que corta / fere / excita o sexo das palavras. 

A poesia de M/M acontece num movimento errante (o erro torna-se o desvio que fratura as certezas do mundo), atravessado por uma potência transvalorativa – vozes com asas sobre palavras – pensamento movente, sempre em vias de saída, como as águas de Heráclito: rio desgovernado – meu nome é um rio que perdeu o nome / meu nome é um rio que não tem cura.









































Max Martins nasceu em Belém do Pará em 1926. Autodidata, trabalhou no Instituto Medicamenta Fontoura como chefe de escritório em Belém; no Ministério da Saúde-SUCAM, como inspetor administrativo; e desde 1991 é diretor da Casa da Linguagem, da Fundação Curro Velho, em Belém.
Escolhido patrono da IV Feira do Livro Pan-amazônico, novembro a dezembro de 1999, em Belém do Pará, promoção da Secretaria de Cultura.

Livros: O Estranho. Belém, Revista de Veterinária, 1952; Anti-Retrato. Belém, Falângola, 1960 — ambos de poesia. Tanto o primeiro como o segundo livro receberam respectivamente os prêmios da Academia Paraense de Letras e Secretaria de Educação do Estado do Pará; Alguns Poemas (1965); 15 Poemas (1970); H'era (1971); O Ovo Filosófico (1975); O Risco Subscrito. Belém, Mitografe, 1980; A Fala entre Parênteses. Belém, Grapho/Grafisa, 1982. Parceria com o poeta Age de Carvalho; Abracadabra (1982); Caminho de Marahu. Belém, Grapho/Grafisa, 1983; 60/35. Belém, Grapho/Grafisa, 1986; Não para consolar. Poesia completa. Belém, CEJUP, 1992. Prémio Olavo Bilac da ABL, dividido com o poeta António Carlos Osório;Marahu Poemas. Belém, CEJUR 1992; Colagens. Belém. CEJUP, 1992; Para ter onde ir. SP, Massao Ohno/Augusto Massi, 1992; Outrossim. Poema-cartaz. Belém, Casa da Linguagem, 1991; J poemas. Folder. Belém, Falângola, 1991; Diário do Poeta. Belém, Revista Unamazônia, n.°0, junho 1998; e Caudrons of Críatirity. Poemas e ilustrações de Max Martins de seus Diários do Poeta. Exposição na Universidade do Colorado, EUA, 1999.

8/23/2011

Transposición - Georges Bataille

Comunidade e desobramento - Maurice Blanchot



COMUNIDADE E DESOBRAMENTO  


Por Maurice Blanchot
Ordenada à morte, a comunidade “não é na morte ordenada como à sua obra”. Ela “não opera a transfiguração de seus mortos em qualquer substância ou qualquer sujeito que seja - pátria, solo natal, nação... falanstério absoluto ou corpo místico...”. Passo algumas frases no entanto essenciais, e chego a esta afirmação que é para mim a mais decisiva: “Se a comunidade é revelada pela morte de outrem, é porque a morte é ela mesma a verdadeira comunidade dos seres mortais: sua comunhão impossível. A comunidade ocupa, portanto, esse lugar singular; ela assume a impossibilidade de sua própria imanência, a impossibilidade de um ser comunitário enquanto sujeito. A comunidade assume e inscreve de alguma maneira a impossibilidade da comunidade... Uma comunidade é a apresentação a seus ‘membros’ de sua verdade mortal (é o mesmo que dizer que não há comunidade formada de seres imortais...). Ela é a apresentação da finitude e do excesso sem retorno a qual funda o ser finito”.


Há dois traços essenciais neste momento da reflexão: 1) A comunidade não é uma forma restrita da sociedade, não mais do que ela não tende à fusão comunial. 2) À diferença de uma célula social, ela se interdita de fazer obra e não tem por fim nenhum valor de produção. Para que ela serve? Para nada, senão para tornar presente o serviço a outrem até na morte, para que outrem não se perca solitariamente, mas nela se encontre suprido, ao mesmo tempo que traga a um outro esta suplência que lhe é fornecida. A substituição mortal é aquilo que toma o lugar da comunhão. Quando Georges Bataille escreve: “é necessário à vida comum manter-se à altura da morte. A sina de um grande número de vidas privadas é a pequenez. Mas uma comunidade não pode durar senão no nível de intensidade da morte, ela se decompõe desde que ela frustre à grandeza particular do perigo”, pode-se desejar por à parte alguns desses termos  em sua conotação (grandeza, altura), pois a comunidade que não é comunidade de deuses não o é muito menos de heróis, nem de soberanos (como acontece em Sade, em que a busca do gozo excessivo não tem a morte por limite, já que a morte dada ou recebida perfaz o gozo, do mesmo modo que ela cumpre a soberania, fechando sobre ele mesmo o Sujeito que nela se exalta soberanamente).